Lusa lhaneza compensa

Lusa lhaneza compensa

José Renato Nalini*

07 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A Academia Paulista de Letras é uma instituição fundada em 1909, pelo carioca José Joaquim de Carvalho. Desde então, funciona ininterruptamente, com a finalidade de cultivar o vernáculo, estimular escrita e leitura e proporcionar convívio saudável entre si e com os outros. Algo importantíssimo em tempos de polarização irada, exacerbação de ânimos e um fanatismo patológico.

A Semana de Arte Moderna de 1922 contou com sua ativa participação, pois seus artífices a integravam. Menotti del Picchia foi um dos idealizadores, ao lado de Mário de Andrade – ambos acadêmicos – juntamente com Oswald de Andrade.

O incentivo oficial veio de Washington Luiz, também integrante da Casa, assim como Sérgio Milliet. Nesses 112 anos de atividade, há páginas heroicas. A Revolução Constitucionalista de 1932 contou com a atuação de seus membros, bastando lembrar Ibrahim Nobre, Guilherme de Almeida e o já lembrado Menotti del Picchia.

Quando o Museu da Língua Portuguesa foi criado, José Roberto Marinho esteve na sede da Academia, no Largo do Arouche, fazendo percuciente exposição dos propósitos dessa iniciativa pioneira. Chegou a cogitar fosse a Academia Paulista de Letras a eterna curadora do Museu, diante da proximidade de objetivos entre as duas instituições.

A reinauguração do Museu foi bem celebrada, com a presença do Presidente de Portugal, o sempre amável e simpaticíssimo Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Souza. Como é prazeroso encontrar na presidência de uma República um professor de Direito, autor de muitos livros, dentre os quais uma consistente “Introdução à Ciência do Direito” e um tratado sobre direito administrativo. Alguém que se faz notar pela polidez, pela lhaneza, pela serenidade com que a todos trata com fidalguia, tanto que é envolvido de autêntica afetividade por onde caminha. Em sua terra ou em plagas alheias.

Sua fala durante a inauguração não surpreendeu, pois reflete bem sua estatura intelectual e a bonomia de seu temperamento. Nossa língua é feita para a democracia, ele afirmou. Independentemente de assinatura de acordo ortográfico, os países lusófonos continuam irmãos e se entendem, pois insuficientes para afastá-los as peculiaridades idiomáticas que os distinguem.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, com seu quarto de século, esteve presente à inauguração do Museu da Língua, por seu Secretário Geral Francisco Ribeiro Telles, que já foi Embaixador de Portugal no Brasil entre 2012 e 2016. Ele acredita no acordo firmado em Luanda, embora o nosso país esteja em falta, pois não honra seus compromissos internacionais, inclusive com a CPLP. Quando ratificado, o acordo permitirá mais facilidade na locomoção de nacionais dos países que integram o grupo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Excelente notícia para empresários, artistas, estudantes e pesquisadores.

Portugal prima por devotar uma paterna afeição pelos brasileiros. Pois partiu da nação matriz de nossa cultura a delicadeza propiciada à Academia Paulista de Letras, para compensar o esquecimento do protocolo inaugural.

O Cônsul-Geral de Portugal, Paulo Jorge do Nascimento, convidou cinco integrantes da Academia Paulista de Letras para o jantar em homenagem ao Presidente Marcelo Rebelo: o Presidente Emérito Ives Gandra da Silva Martins, seu irmão, o Maestro João Carlos Martins, a dramaturga Maria Adelaide do Amaral, o sociólogo José de Souza Martins e o presidente da APL, Renato Nalini.

Pequeno grupo conseguiu dialogar sem as formalidades de uma inauguração oficial e o Presidente se recordou da façanha que foi desencantar o longevo projeto de uma Escola Portuguesa em São Paulo, quando o atual Presidente da APL era o Secretário da Educação Estadual.

Um Chefe do Poder Executivo que orgulha sua gente e que é respeitado em todo o planeta, mercê de seus modos aristocráticos, uma fineza sem esnobismo, um sorriso aberto, uma concatenação de ideias muito precisa, cuidadoso na abordagem de assuntos sensíveis. Enfim, um verdadeiro estadista, constantemente em São Paulo, onde residem seu filho Nuno e seus netos.

É reconfortante constatar que é possível ser Presidente da República e manter a capacidade de se comunicar com elegância e simpatia, evidência de que as virtudes do homem público não desapareceram de todo da face da Terra.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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