Lula: sua condenação e a fábrica de narrativas petistas

Rodrigo Augusto Prando*

20 Julho 2017 | 12h00

Fez, ontem, exatamente uma semana que Lula foi condenado – pelo Juiz Federal Sérgio Moro – a nove anos e seis meses por crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro, no caso específico do apartamento triplex. Em reação à condenação, as ruas, como bem sabemos, não foram tomadas pelo “povo” com o objetivo de defender Lula da “injustiça” cometida pela Justiça e, particularmente, pelo perseguidor Moro. No limite, os que reagiram – Lula e seus advogados, principalmente – seguiram o roteiro traçado desde o momento em que houve a condução coercitiva de Lula, ou seja, colocaram para funcionar a fábrica de narrativas petistas.

As hostes petistas haviam prometido tomar as ruas objetivando denunciar a perseguição política de seu líder maior, bem como apresentar a autointitulada “alma mais honesta do Brasil” como vítima de ardil diabólico, conjugando: Justiça, mídia golpista, grupos financeiros, inimigos do povo, etc. O que vimos? Nada! Foram e serão palavras jogadas ao vento.

Em recente pesquisa de opinião, a maioria considerável dos respondentes afirmaram entender como justa a condenação de Lula. Não havendo ocupação das ruas, os petistas reuniram-se, junto de Lula e seus defensores, em ambiente fechado, com público selecionado e a imprensa, que pode escutar, mas não questionar.

O discurso, portanto, de Lula foi para uma plateia de convertidos que, obviamente, traziam à tona gritos de apoio ao “Lula guerreiro do povo brasileiro” (só lembrando que, com Dirceu, os mesmos dizeres foram proferidos e, depois, esquecidos…).

O roteiro, como afirmei, foi aquele já traçado anteriormente: Lula é um perseguido, vítima de complô entre uma Justiça – personificada na maléfica figura de Moro – as elites e mídia golpistas. Tudo, sempre, muito genérico, sem aprofundamento e, por isso, ganha coração e mentes de militantes.

Na conduta apaixonada e não racional do militante, prevalece a divisão do mundo assentada no maniqueísmo, do embate do bem (Lula, petistas e aliados) contra o mal (todos os que discordam dos “bons”).

A lógica de politizar o julgamento e a condenação apresentou-se como a única possível à defesa de Lula, pois, ao que tudo indica, a tão propalada “inexistência de provas” não passa de retórica vazia. Mas, não nos enganemos, pois Lula está, sim, no jogo. Aliás, está, direta ou indiretamente, disputando todas as eleições desde 1989: perdeu três, ganhou duas e fez a sucessora duas vezes.

Entre os juristas e cientistas políticos e a imprensa especializada, há a discussão e projeção de cenários de Lula candidato ou não em 2018. Tudo, neste caso, vai depender da relação das dimensões tempo-espaço: o ritmo da Justiça (no julgamento em segunda instância) e o espaço propícios às manobras jurídicas, como, por exemplo, uma possível liminar monocrática de um Ministro do STF, que colocaria Lula na disputa mesmo que sua condenação fosse referendada no TRF-4.

O PT tem sido, no cenário político, um bom construtor de narrativas. Criou a “herança maldita” para marcar a gestão de FHC; criou a Dilma como “gestora eficiente”; formulou, em 2014, o embate eleitoral do “nós (bons – petistas) contra eles (os não petistas); deu origem, ainda, ao discurso do “golpe contra Dilma”; e, agora, do “Lula como vítima de injustiça”.

Muito já se preocupam com a intenções de votos de Lula para a corrida de 2018, contudo, ao que parece esse percentual Lula e o PT sempre tiveram e o maior problema é conquistar votos que estão no centro, votos que podem acompanhar os petistas ou ir para os que se opõem aos petistas.

Na eleição de Lula, em 2002, houve, por parte de Duda Mendonça, a construção do “Lulinha paz e amor” e essa estratégia se mostrou acertada: a rejeição de Lula foi amainada, bem como a manutenção do tripé macroeconômico de FHC deu confiança aos atores políticos, sociais e do mercado.

Ulteriormente, Lula escolheu Dilma, uma figura afeita à burocracia e sem traquejo político, bem como neófita em disputas eleitorais.

Aqui, no caso, não estava mais a serviço do partido Duda Mendonça, mas, sim, João Santana.

Fizeram esforço hercúleo e, na primeira eleição de Dilma, conseguiram eleger o “poste”, uma figura sem carisma e que nos foi apresentada como uma “gestora eficiente”, como alguém sem muito gosto pela política, mas “competente” e realizadora.

O resultado todos conhecemos: depois da primeira eleição foi reeleita e acusada de “estelionato eleitoral”, teve o poder de direito e nunca, no segundo mandato, o poder de fato. Seu impeachment foi a derradeira ação política de uma gestão que jogou o país na crise e na incerteza, até os dias que correm.

Desta forma, cabe, agora, uma reflexão: nesta fábrica de narrativas que o PT se tornou, muitas delas alcançaram êxito, todavia, o discurso de “golpe contra democracia” (no caso do impeachment) e de “perseguição de Lula, uma vítima” (no que tange à condenação) parecem não ter a mesma efetividade de outrora.

Talvez essas narrativas não tenham a mesma eficiência pelo simples fato de que nem Duda Mendonça e nem João Santana estarem, hoje, à disposição do departamento de marketing dessa famigerada fábrica. Ambos, em maior ou menor grau, estão encrencados com a Justiça, corroborando que as campanhas petistas foram milionárias e ao arrepio da lei, como já demonstrou a Operação Lava Jato.

Na ausência dos famosos marqueteiros, parece que a crise chegou, também, ao PT e, com isso, terceirizaram a confecção de novas narrativas. Uma delas, um exemplo claro de pós-verdade, que vi ontem, nas redes sociais, vinha com a seguinte pergunta: “Você votaria em um condenado” – abaixo da pergunta as imagens de Tiradentes, Gandhi, Mandela e, pasmem, de um Lula sorridente.

Como diria um professor meu amigo, o ridículo não encontra parada. Para além da desonestidade intelectual dessa peça de propaganda, já vislumbro que as próximas narrativas só serão interessantes aos já convertidos, aos petistas e aliados.

Lula poderá disputar e ganhar em 2018?

Até pode, mas tendo a duvidar por dois motivos: 1) tivemos, apenas, uma condenação e Lula responde a outros quatro processos, isto é, na lógica jurídica sua complicação é evidente e crescente e 2) na esfera e na lógica política Lula já não é o mito dos tempos de antanho e as narrativas petistas fazem sucesso com os já convertidos e crentes na inocência de Lula e na retidão do PT e estes não são capazes de sozinhos, ganhar uma eleição majoritária. Em 2018, a confronto talvez seja não do “nós” contra “eles”, mas da simples, singela mesmo, lógica das coisas: da coerência entre o discurso e prática e do total abandono da lógica e razão.

Aguardemos.

*Cientista político, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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