Lula diz que ficou ‘muito puto’ com boatos sobre corrupção envolvendo indicado do PT para Petrobrás

Lula diz que ficou ‘muito puto’ com boatos sobre corrupção envolvendo indicado do PT para Petrobrás

Ex-presidente afirmou ter ouvido rumores sobre conta no exterior em nome de Renato Duque e que encontro com ex-diretor da Petrobrás foi intermediado por João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Luiz Vassallo e Bruno Ribeiro

10 de maio de 2017 | 23h45

Ao juiz Sérgio Moro, no interrogatório desta quarta-feira, 10, o ex-presidente Lula disse que procurou o ex-diretor da Petrobras Renato Duque para perguntar se ele, já condenado na Operação Lava Jato, teria contas no exterior. Lula disse que foi motivado a procurar Duque por causa de “boatos” sobre propinas relacionados ao diretor e que ficou “muito puto” por causa disso.

Lula. Foto: Reprodução

“Tinha muito boato de que o Duque tinha conta no exterior. Eu falei para o (João) Vaccari (Neto): ‘Se você conhece o Duque, quero falar com ele'”, narrou Lula.

Em seguida ele declarou como teria sido a conversa com o ex-diretor. “Duque, é o seguinte: você tem conta do exterior?”Não tenho.’ Acabou. Para mim, é o que interessava”, disse Lula.

O juiz questionou porque Lula teria procurado apenas Duque, não outros diretores da estatal. Lula afirmou que era porque o ex-diretor era uma indicação da bancada do PT para a empresa.

“O Duque tinha sido indicado pela bancada do PT. Como disse no começo: o PT indicou o Duque, com outros partidos políticos, penso, que foi para a Casa Civil e cumpriu todo o ritual (para a nomeação). Então, eu fiquei muito puto da vida, muito puto, e falei (com ele). Se ele disse que não, ele não mentiu para mim. Mentiu para a consciência dele.”

A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que Lula recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira por meio do triplex 164-A no Edifício Solaris, no Guarujá (SP), e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantido pela Granero de 2011 a 2016. O petista é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.

TRIPLEX. O Edifício Solaris era da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), fundada nos anos 1990 por um núcleo do PT. Em dificuldade financeira, a Bancoop repassou para a OAS Empreendimentos os prédios inacabados, o que provocou a revolta de milhares de cooperados. O ex-tesoureiro do PT foi presidente da Bancoop.

A ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em 2017) assinou Termo de Adesão e Compromisso de Participação com a Bancoop e adquiriu ‘uma cota-parte para a implantação do empreendimento então denominado Mar Cantábrico’, atual Solaris, em abril de 2005.

Em 2009, a Bancoop repassou o empreendimento à OAS e deu duas opções aos cooperados: solicitar a devolução dos recursos financeiros integralizados no empreendimento ou adquirir uma unidade da OAS, por um valor pré-estabelecido, utilizando, como parte do pagamento, o valor já pago à Cooperativa.

Segundo a defesa de Lula, a ex-primeira-dama não exerceu a opção de compra após a OAS assumir o imóvel. Em 2015, Marisa Letícia pediu a restituição dos valores colocados no empreendimento.

BENS. A Lava Jato afirma que a OAS pagou durante cinco anos pelo aluguel de dez guarda-móveis usados para armazenar parte da mudança do ex-presidente Lula quando o petista deixou o Palácio do Planalto no segundo mandato. A empreiteira desembolsou entre janeiro de 2011 a janeiro de 2016, R$ 1,3 milhão pelos contêineres, ao custo mensal de R$ 22.536,84 cada.

Toda negociação com a transportadora Granero teria sido intermediada pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que indicou a OAS como pagante com o argumento de que a empreiteira é uma “apoiadora do Instituto Lula.”

Para investigadores da Lava Jato, os fatos demonstram “fortes indícios de pagamentos dissimulados” pela OAS em favor de Lula. Isso porque o contrato se destinava a “armazenagem de materiais de escritório e mobiliário corporativo de propriedade da construtora OAS Ltda”, mas na verdade os guarda-móveis atendiam a Lula.

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