Lula diz à PF que vai entregar a Janot as ‘tralhas’ que ganhou

Lula diz à PF que vai entregar a Janot as ‘tralhas’ que ganhou

Ex-presidente depôs no dia 4 de março, chamou delegado de 'querido' e afirmou que pretende continuar frequentando sítio Santa Bárbara, em Atibaia, 'se não o destruírem'

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

15 de março de 2016 | 09h00

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O ex-presidente Lula disse que vai levar ao procurador-geral da República Rodrigo Janot ‘as tralhas’ que ganhou durante sua passagem no Palácio do Planalto (2003/2010). Ele fez a afirmação ao delegado da Polícia Federal que tomou seu depoimento coercitivamente no dia 4 de março na Operação Aletheia. Lula chamou o delegado de ‘querido’ várias vezes. Após declarar que ‘tem coisa de valor que deve estar guardada em banco’, ele declarou.

“Eu já tomei uma decisão. Terminada essa porra desse processo, eu vou entregar isso para o Ministério Público, vou levar lá e vou falar: ‘Janot, está aqui, olha, isso aqui te incomodou? Um picareta de Manaus entrou com um processo pra você investigar as coisas que eu ganhei, então você toma conta’.”

Lula falou das ‘tralhas’ que ganhou quando a PF o questionou sobre o sítio Santa Bárbara, situado no município de Atibaia, interior de São Paulo. Os investigadores suspeitam que o petista é o verdadeiro dono da propriedade rural que recebeu benfeitorias patrocinadas por empreiteiras, entre elas a OAS e a Odebrecht, e pelo pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente que foi preso no dia 24 de novembro na Operação Passe Livre, desdobramento da Lava Jato.

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Lula esteve no sítio 111 vezes.Oficialmente, o imóvel pertence aos empresários Fernando Bittar e Jonas Suassuna.

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“Eu fiquei sabendo desse sítio no dia 15 de janeiro de 2011, passei a frequentar até menos porque eu viajei muito, acabei de falar que eu viajei demais, então comecei a frequentar mais depois, quando eu estava com câncer, e depois passei a frequentar mais em 2013, em 2014, e pretendo continuar visitando se não destruírem o sítio, porque tudo que os companheiros que compraram o sítio fizeram foi tentar garantir que eu tivesse um lugar pra descansar, porque você sabe que eu não tenho”, declarou o petista.

O delegado da PF perguntou. “Foi pensando no senhor, no seu descanso?”

Lula demonstrou irritação. “Agora, com a sacanagem da imprensa, eu não tenho nem como ir lá mais, ou seja, que aquilo que era sigiloso, aquilo que era segredo, eu quero saber quem é que vai dar garantia pra minha família.”

O delegado insistiu. “Quando os seus amigos compraram o sítio para o senhor usar para descanso ou pra qualquer outra atividade?”

Lula respondeu. “Eu sei que eles deram sinal, depois pagaram, e foi dividido, e eu fiquei sabendo no dia 13 de janeiro de 2011 e fui conhecer o local dia 15 de janeiro. Sei também, dito pelo companheiro Fernando, pelo Jacó Bittar (pai de Fernando) e pelo Jonas (Suassuna), de que uma das ideias deles era, não só que eu tivesse um lugar pra descansar, mas também que tivesse alguma coisa pra guardar as tralhas de Brasília, que é muita tralha que a gente ganha.”

“E o senhor conseguiu fazer isso?”, perguntou o delegado.

“Está lá”, disse Lula.

“Tudo?”

“Uma parte, pequena coisa.”

“Onde é que está o resto?”, insistiu o delegado. “Onde está o resto que saiu de Brasília?”

Lula disse. “Uma parte deve estar no sindicato, porque tem várias coisas, tem coisas de valor…”

O delegado quis saber ‘qual sindicato’.

“Acho que é no sindicato nosso, dos metalúrgicos”, respondeu o ex-presidente, aí citando Rodrigo Janot.

“Tem coisa de valor que deve estar guardada em banco, tem coisa… Eu já tomei uma decisão, terminada essa porra desse processo, eu vou entregar isso para o Ministério Público, vou levar lá e vou falar “Janot, está aqui, olha, isso aqui te incomodou? Um picareta de Manaus entrou com um processo pra você investigar as coisas que eu ganhei, então você toma conta’.”

Adiante, Lula disse. “Eu falei tralhas, que eu nem sei o que é, mas é tralha, é coisa…”

“Mas o senhor disse que tem bens valiosos”, observou o delegado da PF.

Lula: “Eu não sei onde está, mas tem muita coisa valiosa. Tem muita coisa valiosa que eu não sei como é que aquilo está…”

“O senhor disse que está no sindicato, desde quando está no sindicato?”

“Eu não sei, não sei, querido.”

O delegado perguntou. “Quando todo o acervo foi retirado da Presidência da República ele foi levado pra onde, além do sítio?”

“Não sei.”

“O senhor não sabe disso?”, questionou o delegado.

“Não sei.”

“Quem sabe?”, insistiu o policial.

Lula: “Você um dia será Presidente da República e você irá ver como é que se comporta quando você chegar. Você vai chegar na tua casa um dia à meia noite e, de repente, você vai perceber que o teu telefone não funciona mais, que a segurança não está mais lá. Não sinta essa sensação. Ou seja, quando você começa a terminar o mandato, tem uma estrutura no governo, tem uma estrutura que cadastra o que recebe e que depois, quando vai chegando perto…porque o outro presidente assumiu o palácio, então estava lá, os porões estavam cheios e alguém vai desativando, alguém vai desativando e vai mandando. Quem cuida disso? Tem estrutura no palácio, que tem departamento que cuida disso no palácio.”

O petista apontou para seu antigo aliado, presidente do Instituto Lula. “O Paulo Okamotto certamente participou disso, o chefe de gabinete certamente… Eu não sei a estrutura toda, mas é muita gente, é muita gente.”

“Mas são bens pessoais do senhor?”, prosseguiu o delegado.

Lula disse. “Tem bens pessoais e tem bens… Como é que trata os bens, ou seja, são coisas minhas de interesse de domínio público, certo? São coisas que ficam…”

O delegado da Polícia Federal: “Eram quantos contêineres desses bens?”

Lula: Ah, eu não tenho noção, querido. Eu vejo valor em 10, em 11, em 12…”

Delegado: “Pode ser um número então entre 10 e 12?”

Lula: “Pode ser um número, não sei.

Delegado: E contêineres, são aqueles de carreta mesmo, de…”

Lula: É, eu não sei se já foi tirado, se já foi levado, se lá para o sítio foi levado um ou dois, que foi desmontado o de roupa, de presépio… até carro de boi tem lá.”

Depois, o ex-presidente declarou. “Tem alguém do palácio, do departamento que cuida disso, ou o próprio Paulo Okamotto sabe onde foi. Eu estou dizendo, além das pessoas do palácio, que eu nem sei se estão mais lá, que cuidam disso, alguém que empacota, alguém que embrulha, alguém que despacha…”

O delegado quis saber sobre o armazenamento na empresa Granero, ‘quanto tempo ficou’.

“Não sei, não sei, querido.”

“O senhor tem conhecimento de quantos contêineres ficaram na…”

“Não sei, querido. A única coisa que eu posso te dizer é que, ou ficou lá, ou ficou noutro lugar.”

“Na Granero?”

“Ou ficou lá ou ficou noutro lugar. Porque onde eu ia colocar isso?”

O delegado: “E quem paga essa conta, sairia do seu bolso?”

“Não sei, querido.”

“Não sabe?”

Lula fez ‘sinal negativo com a cabeça’, segundo registrou a Polícia Federal no termo de depoimento do ex-presidente.

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