Lugar de fala ou ‘lugar de falha’?

Lugar de fala ou ‘lugar de falha’?

Ronaldo Ferreira Júnior*

27 de agosto de 2020 | 06h30

Ronaldo Ferreira Junior. FOTO: DIVULGAÇÃO

Segundo a Women in S&P 500 Companies de 2020, mais de 95% dos CEOs das maiores empresas são homens. Vivemos em uma sociedade patriarcal com um discurso estruturado a partir do homem branco e heterossexual, em que ele fala sobre tudo, é sempre ouvido e sua opinião importa.

Partindo desse processo de construção da sociedade, tudo passa a ser observado através da racionalidade branco-normativa, ou seja, nosso entendimento ou conceito sobre qualquer assunto é visto por esse único ângulo. É como se o homem branco fosse um ser universal, dono da razão, enquanto os demais apenas ramificações com visões limitadas. E quando buscamos formas de ampliar esse espectro, para que se percebam todas as vozes, é que nos deparamos com o polêmico e famoso termo “lugar de fala”. Por que é tão importante saber a resposta para esta pergunta: Qual é seu lugar de fala?

Porque o lugar de fala desconstrói a ideia de um ponto de vista universal sobre o que é “normal”. As pessoas são diferentes e têm experiências de vida completamente distintas. Aqui, se queremos incluir todas as vozes, temos de abrir o debate, ou seja, uma pessoa ou um grupo não deve falar pelo todo, pois assim exclui qualquer possibilidade de integração e evolução a partir do debate e do pensamento crítico.

Primeiro, vamos entender e alinhar alguns pontos: todos nós seres humanos temos um lugar de fala. Então não se trata de “dar voz” aos diversos grupos de pessoas, mas sim garantir que sejam ouvidos. Por isso a ideia é abrir espaços para que todos falem sobre tudo, reforçando o discurso que se constrói baseado em nossas vivências, nos lugares onde estamos e principalmente na estrutura social que vivemos.

E, antes de continuar este texto, precisamos conceituar alguns termos:

1. Protagonista – é quem fala com propriedade a partir da sua vivência. Uma pessoa trans, por exemplo, que divide seus medos em relação à transfobia, está em seu lugar de fala como protagonista da causa.
2. Especialista – é quem conhece a causa a partir de estudos e pesquisas que comprovam suas teses. Um especialista pode ou não ser um protagonista.
3. Aliado – é alguém que reconhece sua situação de privilégio, e a partir dela exerce ações afirmativas, se manifestando no sentido de reduzir ou impedir ações que possam resultar em desigualdades ou injustiças contra grupos mais vulneráveis.

Privilégios são concedidos com base na opressão de outras pessoas ou grupos, por isso, antes de mais nada, o homem branco precisa entender os seus, se questionar e assumir sua responsabilidade na luta para uma sociedade mais justa. Sua fala a partir do seu local de privilégio deve ser como a de um aliado, sem tirar o protagonismo de outras pessoas ou grupos, ajudando a fortalecer e amplificar suas vozes.

Por mais que haja boa vontade em entender como é ser parte de um grupo minorizado, não há como vivenciar essa realidade de fato. O homem hétero branco jamais vivenciará o sentimento de ser vigiado em uma loja por conta de sua cor. Ele não sentirá medo ao andar de mãos dadas com a pessoa que ama, por conta da homofobia. Raramente irá planejar com qual roupa se vestir para evitar assédio de outros homens assim que sair portão afora. Entender essas realidades é exercitar a empatia. A conscientização precisa ser diária e deve ser praticada à exaustão, mas isso não coloca uma pessoa privilegiada no lugar de quem sofre qualquer tipo de preconceito ou violência por não estar dentro dos padrões normatizados.

Você já ouviu frases do tipo: “Ah, então só por que sou branco, eu não posso falar de racismo?”; “Só por que não sou gay, eu não posso falar de homofobia?”. Claro que podemos falar. Se vamos dialogar, podemos falar sobre qualquer tema, isso se chama liberdade de expressão. Nos conectamos e aprendemos quando conhecemos o outro, porém, temos de entender onde nos posicionarmos. Se não vivenciamos a “dor”, se não sofremos o preconceito e a discriminação, estamos em um lugar de privilégio e, a partir desse lugar, devemos ampliar a voz dos protagonistas. Como aliados, apoiar e endossar a fala em prol dos protagonistas. Colaborar na propagação de ações afirmativas pela diversidade e inclusão. Cabe aqui aquela famosa frase que diz: NADA SOBRE NÓS, SEM NÓS.

Então quando devemos ou não falar? Ou melhor, quando silenciamos por respeito e não por omissão? É a partir deste ponto que introduzimos um conceito que deve vir sempre acompanhado do lugar de fala: quando devemos estar no lugar de escuta ou no lugar de cala?

Vamos a alguns exemplos para entender melhor: os negros trazem a pauta do racismo estrutural há anos e são ignorados ou silenciados; no entanto, quando um homem branco fala sobre o assunto, partindo da sua posição de privilégio na sociedade, ele é ouvido e acaba se transformando em uma espécie de “referência” na defesa da causa antirracista. O que vemos aqui é um ciclo vicioso: vozes brancas sendo ouvidas enquanto as negras são silenciadas, mesmo quando a pessoa que fala não é protagonista, ou seja, nunca foi vítima de racismo.

No mundo corporativo, nas reuniões diárias, quantas vezes presenciamos mulheres sendo interrompidas por homens tentando explicar o que elas queriam dizer?

Quando falar? Quando calar? O que fazer? O caminho é o bom senso e não é tão complicado assim, veja: se uma pessoa negra faz um post se mostrando ofendida por ser vítima de uma piada racista, o seu papel como aliado não é o de julgar, achar isso ou aquilo, basta ler e reiterar esse pedido de justiça.

Se você está em um grupo e começam a fazer comentários ou piadas que reduzem as mulheres em qualquer sentido, esta é uma boa hora para usar o “seu lugar” e falar sobre o machismo e masculinidade tóxica. Durante uma reunião familiar, se alguém expõe de forma preconceituosa um primo que é gay, utilize o “seu lugar” e se posicione contra a homofobia.

O exercício aqui é fazer uma reflexão sobre o contexto e se perguntar: qual é a minha posição nesta situação? Lembre-se que o lugar de fala está diretamente relacionado à nossa postura ética. Tem a ver com nossa responsabilidade, pois somos todos de certa forma responsáveis pela perpetuação do racismo, machismo e outros preconceitos estruturais com os quais convivemos em nossa sociedade. Podemos então escolher seguir sendo omissos moral e socialmente, ou viramos a chave e decidimos nos posicionar como antirracistas práticos, agentes de mudança, participando de ações afirmativas que de fato possam transformar esta realidade injusta.

Então pense, a partir de onde você está, como é possível contribuir para uma sociedade cada vez menos desigual?

A mudança não é uma atitude simples, principalmente quando podemos continuar em nossa zona de privilégio e conforto. Por isso, quando entendemos a importância de ocupar o nosso lugar de fala, o fazemos com a consciência de que precisamos nutrir as pessoas de informação, para que juntos possamos transformar nossos privilégios em mais oportunidades para todos, porque no final do dia é sempre na humanidade que a gente se encontra. Até lá.

*Ronaldo Ferreira Júnior é conselheiro da Ampro – Associação das Agências de Live Marketing, CEO da um.a #diversidadeCriativa e sócio-fundador com a Pearson Educacional do programa de capacitação MDI – Mestre Diversidade Inclusiva

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