Lucro com propósito

Lucro com propósito

Sara Albergaria*

19 de novembro de 2021 | 09h00

Sara Albergaria. FOTO: DIVULGAÇÃO

O grande psicólogo austríaco Viktor Frankl passou quase duas décadas tratando milhares de pessoas deprimidas e propensas ao suicídio. Atuando na Viena pré-Segunda Guerra Mundial, seu intuito era audacioso: não só tirar os pacientes da depressão, mas capacitá-los para serem verdadeiramente felizes. Com base em seu trabalho clínico, acabou desenvolvendo uma teoria abrangente da felicidade humana e a registrou no livro Um Sentido para vida, cuja conclusão é: a felicidade não pode ser perseguida, mas resulta de uma vida com significado e propósito.

Meio século mais tarde, o livro Uma vida com propósitos, de Rick Warren, foi uma das obras de maior sucesso já publicadas, com dezenas de milhões de cópias vendidas. Tal fenômeno de vendas reflete exatamente a relevância da tese de Frankl e reitera que o ser humano tem um profundo anseio por propósito.

Significado e propósito sempre foram relevantes, mas atualmente vêm ganhando senso de urgência entre a maioria das pessoas e até mesmo das empresas. Nos negócios, o propósito funciona como fonte de energia e meio para transcender os interesses dos acionistas. Este conceito desafia a forma tradicional de se interpretar o capitalismo, pela qual os indivíduos iniciam negócios exclusivamente para satisfazer os seus próprios interesses, para obter lucro. O lucro é, de fato, um resultado essencial e desejável para as empresas. Mas, assim como a felicidade não é alcançada por quem a persegue diretamente, os lucros também costumam ficar mais perto de quem não os tem como objetivo final.

Ao analisar o capitalismo, economistas, críticos sociais e líderes empresariais, muitas vezes, limitam-se ao conceito de eficiência trazido por Adam Smith, em seu famoso tratado A riqueza das nações. Nele, o autor demonstra a noção de divisão do trabalho com o exemplo de uma fábrica de alfinetes. Um homem desenrola o arame, outro o estica, um terceiro corta, um quarto o aponta e um quinto afia a outra extremidade para receber a cabeça, que é manufaturada por outro e encaixada por outro. Finalmente, um último homem faz a embalagem do alfinete, sem a mínima ideia de como o produto foi montado. O modelo foi fundamental para a Revolução Industrial, o aumento da produtividade e consequentemente, do lucro. Todavia, a alienação do trabalho não encontra mais respaldo na atual economia do conhecimento, que reflete a posição alcançada na jornada humana.

Por isso é importante resgatar alguns conceitos levantados por Adam Smith, 17 anos antes do título que lhe deu fama. No livro A teoria dos sentimentos morais, Smith fala sobre o desejo e a necessidade humana de cuidar dos outros e de promover causas que estão acima dos interesses individuais. Se os pensadores do século 19 tivessem entendido e adotado suas filosofias econômicas e éticas, teriam sido evitados lutas e sofrimentos extraordinários ao longo dos séculos 19 e 20, que renderam uma assombrosa crise de imagem ao capitalismo.

Observamos hoje o surgimento de um novo sistema operacional que reflete de forma mais harmônica o ethos de nosso tempo e a essência de nosso ser em evolução. Trata-se do movimento chamado Capitalismo Consciente, um paradigma em desenvolvimento para os negócios, uma nova forma de se pensar o capitalismo com muito mais consciência do propósito maior das empresas e suas relações com os diversos públicos e stakeholders.

Um dos quatro princípios do Capitalismo Consciente é o propósito maior dos negócios. Mas, afinal, o que é o propósito maior? De acordo com os autores do livro Capitalismo Consciente, John Mackey e Raj Sisodia, propósito refere-se à diferença que se quer fazer no mundo. É a cola que mantém a empresa unida, o líquido amniótico que nutre de vida a força organizacional, o ímã que atrai as pessoas certas para o negócio, mantendo-as alinhadas e reduzindo atritos.

A título de exemplo, podemos citar o propósito de três grandes empresas que se destacam mundialmente como líderes em seus respectivos segmentos:

Disney: “A Imaginação a serviço da felicidade de milhões de pessoas”

Google: “Organizar a informação do mundo e torná-la facilmente acessível e útil”

Whole Foods: “Ajudar as pessoas a comer bem, a fim de que melhorem sua qualidade de vida e sua longevidade”

Não é mais empolgante do que simplesmente vender ingressos de parques de diversão, um site de busca ou comida saudável? Isso acontece porque o propósito tem a capacidade de gerar um senso de pertencimento na medida em que nos identificamos com sua mensagem e isso nos inspira. Consequentemente, empresas com propósito maior tendem a obter resultados muito mais expressivos.

*Sara Albergaria, advogada e consultora sênior da SG Compliance

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