Longo caminho a percorrer

Longo caminho a percorrer

José Renato Nalini*

13 de fevereiro de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O episódio que envolveu o Tenente Coronel Evanilson Corrêa de Souza há poucos dias merece a reflexão de todos. Mostra o quão entranhada está na ignorância coletiva, o preconceito contra a negritude.

O oficial estava a proferir palestra para milhares de pessoas, exatamente sobre o preconceito. Essa mácula que evidencia a indigência de nosso estágio civilizatório. E não se pense exclusivamente no Brasil. Os Estados Unidos também carregam esse fardo como chaga recôndita, apta a explodir de quando em quando, como um abjeto furúnculo moral.

Por mais que a ciência comprove a identidade ínsita entre todos os humanos, a inexistência de qualquer distinção entre os hominídeos, persiste essa falha na consciência de tantos, a exigir vigilância contínua e ação afirmativa, principalmente entre as crianças.

É próprio da espécie a heterogeneidade. Ninguém é igual a outrem. Gêmeos univitelinos não são idênticos. Há beleza em todas as raças. Mas no lado obscuro da mente, mal surge oportunidade e afloram as piadas, o humor de péssimo gosto, as alusões, o menosprezo e práticas injuriosas.

Somente quem passa por esses dissabores consegue exprimir o que eles representam como golpe à autoestima.

O filme “Barry”, que narra a juventude de Barack Obama, no período em que ele morou em Nova Iorque, é um relato que deixa ver o quanto sofrem os que não se enquadram no velho conceito wasp – White (branco),  anglo saxão e protestante.

No próprio campus da Universidade, enquanto outros estudantes fumam maconha e tomam cerveja, Barack é interceptado pela polícia. Precisou que um colega viesse intervir, para ser deixado em paz.

O preconceito é maior em relação aos pobres. Tanto que há quem sustente que no Brasil o preconceito é contra o miserável, o excluído, o invisível, independentemente de sua cor. Mas os negros que alcançam posição invejável, fortuna, poder e dinheiro, também podem estar sujeitos à nefasta influência dessa falaciosa pré-compreensão.

Obama, em sua autobiografia “Uma Terra Prometida”, conta um episódio que marcou sua gestão e perdurou durante os oito anos de comando da maior Democracia Ocidental. Um famoso professor de Harvard, Henry Louis Gates Jr, foi detido em sua casa em Cambridge, porque voltara de viagem e sua chave não abria a porta. Um vizinho viu um negro forçando a porta e chamou a polícia. O professor reagiu e acabou sendo levado à polícia.

Numa coletiva de imprensa cujo intuito era explicar o que Obama pretendia com o seu plano de saúde, uma repórter indaga a respeito do incidente. Obama respondeu: “Não sei, por não estar lá e não presenciar todos os fatos, que papel a cor da pele teve nisso. Mas acho justo dizer, primeiro, que qualquer um de nós teria ficado furioso; segundo, que a polícia de Cambridge fez uma estupidez ao prender alguém que já tinha provado que estava em sua casa; e terceiro, que me parece que todos sabemos, independentemente desse caso, que existe um longo histórico neste país de afro-americanos e latinos sendo abordados pelas forças da lei de forma desproporcional”.

Foi o bastante para que toda a mídia americana e internacional se esquecesse da saúde e espinafrasse Obama. Ele teve de convidar a vítima e agressor para uma cerveja na Casa Branca, junto com Joe Biden, mas o episódio continuou a render. Que o diga a discussão sobre o direito ao esquecimento. As coisas ruins não são esquecidas.

Barack Obama refletiu sobre o que ele e outros negros vitoriosos estavam “acostumados a conviver com diversos obstáculos para ser efetivos dentro de instituições predominantemente brancas. Havíamos nos tornado cada vez mais hábeis em reprimir a reação a pequenas desfeitas, sempre dispostos a dar a uma colega branco o benefício da dúvida, atentos ao fato de que qualquer discussão sobre questões raciais, caso não fosse conduzida com todo o cuidado, ameaçava deixá-los meio em pânico”.

O primeiro Presidente negro dos Estados Unidos concluiu, muito antes do homicídio de George Floyd, que “a questão dos negros e da polícia era mais polarizadora do que praticamente qualquer outro assunto cotidiano entre os americanos. Parecia mexer com as raízes mais profundas da psique de nossa nação, os nervos mais expostos, talvez por lembrar a todos nós, negros e brancos, que a base da ordem social de nossa nação não fora estabelecida com o consentimento de todos; que nesse processo era impossível ignorar séculos de violência fomentada pelo Estado e perpetrada pelos brancos contra as pessoas negras e de pele escura, e que a questão de quem controlava o monopólio da violência – a forma como era administrada e contra quem – ainda tinha uma importância muito maior em nosso inconsciente coletivo do que gostaríamos de admitir”.

E nós, no Brasil? Continuamos a afirmar que aqui não há preconceito? Que nossa escravidão foi magnânima? Que nunca tivemos conflitos e que a igualdade é integralmente assegurada a todos: brancos, negros, índios e demais tonalidades epidérmicas?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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