Longevidade e oncologia: duas faces de um futuro e suas perspectivas

Longevidade e oncologia: duas faces de um futuro e suas perspectivas

Soraya Soubhi Smaili*

09 Agosto 2018 | 06h00

Soraya Soubhi Smaili. FOTO: DIVULGAÇÃO

O aumento na expectativa de vida das pessoas, em especial nas classes menos vulneráveis, está relacionado à maior possibilidade de acesso ao trabalho, à alimentação, à informação e à tecnologia, conforme mostram estudos realizados.

Dados do IBGE apontam que, de 1960 a 2010, a expectativa de vida no Brasil aumentou em mais de 25 anos, acompanhando a tendência mundial, embora de maneira mais significativa. Nos últimos anos, essa expectativa ultrapassou a casa dos 70 anos e chegou ao patamar dos 75 anos, apesar das desigualdades sociais e dos obstáculos ao desenvolvimento.

No último levantamento, realizado em 2015, a expectativa média de vida do brasileiro alcançou 75,8 anos, com tendência de subida. Os avanços da Medicina certamente contribuíram para esse quadro, embora a implantação adequada de políticas públicas, em especial a do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir de 1990, tivesse papel preponderante.

Os avanços tecnológicos – inclusive na área terapêutica – e o acesso mais amplo às informações, às vezes superficiais ou disseminadas indiscriminadamente por fontes popularizadas, ampliaram a possibilidade de escolha por parte do indivíduo, que pôde buscar novos tratamentos e melhor qualidade de vida. Novos métodos de diagnóstico, que utilizam sistemas cada vez mais complexos, associados a tratamentos diversificados, também ajudaram a resolver rapidamente e de forma mais eficiente determinadas patologias, como na área cardiovascular.

Por outro lado, o aumento da expectativa de vida e a conquista da tão desejada longevidade propuseram-nos novos desafios. Se vivemos mais tempo e superamos certas doenças, diminuindo a mortalidade, testemunhamos o surgimento de outras, mais complexas, relacionadas ao envelhecimento. Dentre essas, mencionamos as doenças neurodegenerativas como a de Parkinson e a de Alzheimer. Acrescente-se que os processos degenerativos são multifatoriais e pouco explicados geneticamente.

O caso mais emblemático relacionado a esse fenômeno social e que resulta de estilos de vida cada vez mais agressivos diz respeito ao câncer, cujos registros têm crescido vigorosamente. Entretanto, não só verificamos um aumento nesse número como também nos tipos de neoplasia, o que pode estar ligado à sofisticação dos métodos de detecção, cada vez mais precoces. A maior expectativa de vida obriga ainda a uma reflexão importante: estamos vivendo uma espécie de disseminação dessa patologia ou trata-se do reflexo do aumento no tempo de vida?

O fato é que precisamos nos preparar mais e mais para esse cenário, inclusive no Brasil. Devemos equipar mais adequadamente nossos centros de assistência e pesquisa, bem como oferecer treinamento mais apropriado aos profissionais envolvidos nos cuidados, que são inúmeros, aos pacientes.

Há muitos tratamentos novos, cada vez menos agressivos e mais seletivos no tocante a seus mecanismos de ação. Porém, a maioria das drogas recém-criadas – resultantes do acelerado avanço nas pesquisas – é praticamente inacessível, devido ao custo elevado. Cumpre, pois, ampliar as possibilidades de ensino e pesquisa oferecidas pelo sistema público de saúde, porque apenas 10% da população poderá beneficiar-se das novíssimas terapias, em razão de sua condição financeira.

É preciso atuar cada vez mais fortemente na prevenção e na detecção precoce do câncer, o que favorece maiores chances de cura e qualidade de vida. A aplicação do conhecimento científico gerado nos laboratórios, que leva a ações quase imediatas de tratamento avançado, é outra estratégia importante desenvolvida pelos grandes centros de atendimento e pesquisa, que são conectados às universidades produtoras de ciência e direcionamento dos seus resultados para fins práticos.

Na Unifesp há diversos grupos assistenciais e de pesquisa que se dedicam à oncologia. Eles atuam há mais de 40 anos, buscando atender à população que utiliza o sistema público de saúde.

Além dos pesquisadores de ciências básicas, que sempre trabalharam em conjunto com o setor clínico, cresce o envolvimento de diversas áreas do conhecimento, que incluem a Engenharia Biomédica, a Física – que fornece as bases teórico-práticas para a obtenção de imagens diagnósticas -, a Psicologia, a Economia, as Ciências Atuariais e as Ciências Sociais – esta última responsável pela elaboração de políticas públicas abrangentes.

Tão importante quanto a busca de novos fármacos, faz-se também necessária a convergência de conhecimentos, em uma perspectiva interdisciplinar, para a solução de problemas complexos que atingem grandes parcelas da população. Além de unir esforços e conhecimento, entretanto, é preciso inovar.

E mais uma vez, é a Universidade pública que se propõe a essa tarefa, que oferece espaço para o novo e para a agregação de profissionais altamente qualificados e capazes de pensar o futuro. A longevidade não se transformará em uma coleção de novas doenças; ao contrário, representará uma aspiração possível e a concretização de uma vida saudável.

*Soraya Soubhi Smaili, reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Tem livre-docência pela Escola Paulista de Medicina e coordena projetos de pesquisa nas áreas de Neurociência e morte celular. Bolsista produtividade CNPq, nivel 1

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