Logística sem inteligência: a âncora dos e-commerces

Logística sem inteligência: a âncora dos e-commerces

Eneas Zamboni*

27 de agosto de 2021 | 03h15

Eneas Zamboni. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O varejo online só tem razões para comemorar: as vendas não param de crescer e é fato que os consumidores brasileiros descobriram – e adoraram – as inúmeras facilidades da compra pelo meio digital.

O otimismo vem dos números. Uma pesquisa realizada pela Neotrust com os dados do e-commerce durante o primeiro trimestre de 2021 mostrou que foram efetuadas 78,5 milhões de compras online apenas nos três primeiros meses do ano, um aumento de 57,4% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Mas apesar de tantos avanços (o varejo evoluiu uma década na digitalização de processos por conta da pandemia), empresas tradicionais que decidiram investir no comércio eletrônico estão esbarrando em dificuldades que vão muito mais além do que o ato de vender em si. Com os hábitos de consumo se transformando cada vez mais depressa e culminando no aumento frenético de pedidos, elas estão percebendo que um dos principais entraves é a falta de inteligência nos processos logísticos, que pode ser entendida como a capacidade de se organizar e apresentar soluções eficazes e mais rápidas e mais baratas do que os concorrentes.

Por exemplo, as regiões brasileiras que mais apresentam incremento na demanda são o Norte e o Nordeste, com índices de crescimento de 93% e 107%, respectivamente (Segundo dados da ABComm – Associação Brasileira de Comércio Eletrônico). Entretanto, muitas grandes empresas ainda se perdem para realizarem entregas nestas regiões, que sempre apresentaram problemas por conta das longas distâncias e da malha rodoviária deficiente, entre outros gargalos. Não é incomum vermos grandes e-commerces realizando entregas via Uber, o que, sem dúvidas, custa muito mais caro para o bolso dessas empresas. Logo, podemos constatar que há algo estranho aí.

De modo geral, os operadores logísticos tradicionais não possuem estrutura para atender os e-commerces. Eles não contam com habilidade, tecnologia nem comunicação suficientemente evoluídas para cumprir com as exigências do comércio eletrônico, uma vez que as novas entregas são bem diferentes daquelas às quais eles estavam acostumados. Hoje em dia, o consumidor já compra pela Internet pequenos volumes, mercadorias frágeis, ou itens de muito valor, como joias, por exemplo. Sendo assim, é preciso ter inteligência para que a entrega seja feita da maneira adequada, com eficiência logística.

Ou seja, o ato de entregar não está atrelado somente ao transporte, mas sim a um conjunto de atividades e estratégias, que vão desde o layout do armazém, passando pela capacidade do operador de empilhadeira, os equipamentos utilizados e, principalmente, os sistemas que controlam o fluxo logístico de toda a operação.

A exemplo dos números animadores que indicam o crescimento dos e-commerces, a falta de inteligência para a logística também pode ser medida. Cerca de 21% das reclamações de consumidores que compraram online têm a ver com logística, segundo a ABComm. E sabemos muito bem o que significa um volume grande de reclamações referentes a entregas: em uma próxima vez, o consumidor simplesmente vai buscar o que precisa em outro lugar.

Para quem ainda não tinha pensado em inteligência logística como essencial para o negócio, nunca é tarde para começar. A tecnologia é essencial para proporcionar uma visão mais crítica, ao mesmo tempo em que torna os processos mais produtivos e orientados a resultados. O futuro do e-commerce depende disso, afinal, crescer sem planejamento não basta. É preciso contar com mecanismos que suportem este crescimento.

*Eneas Zamboni é CEO e fundador da UX. Group

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