Lockdown exige cuidado redobrado com sedentarismo

Amanda Costa*

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Amanda Costa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com o agravamento da pandemia, boa parte do país encara uma nova rodada de medidas restritivas, incluindo ações rigorosas como a decretação de toques de recolher. A severidade dessas políticas faz jus à situação grave que enfrentamos, e não há dúvida de que o isolamento social desempenha papel importante na contenção da Covid-19. No entanto, é preciso considerar também o impacto dessas ações sobre outra mazela que há anos vem afetando a saúde dos brasileiros: o sedentarismo.

Atualmente, cerca de 40% da nossa população é sedentária. O problema não é somente nacional, mas o Brasil se destaca, ocupando a quinta posição no ranking mundial do sedentarismo. Isso tem um custo gigantesco para nosso sistema de saúde. Quase 60% dos gastos do SUS com internação hospitalar se devem a doenças crônicas, sabidamente agravadas pela falta de atividade física. Desse montante, 15% estão diretamente associados ao sedentarismo. Despendemos mais de R$ 1,8 milhão anualmente com males que poderiam ser evitados ou atenuados, caso adotássemos hábitos melhores.

Mais importante ainda é o custo em vidas: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 300 mil pessoas morrem todo ano no Brasil por doenças relacionadas ao sedentarismo. Ou seja, a crise da Covid-19, trágica como é, ainda não matou tantos brasileiros quanto a falta de exercícios físicos em apenas um ano. Vítimas da pandemia silenciosa do sedentarismo, não atentamos à seriedade do problema.

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Por isso, a intensificação das políticas de isolamento social precisa levar em conta o fato preocupante de que milhões de brasileiros não têm o hábito de se exercitar. A necessária restrição à circulação de pessoas, se desacompanhada de políticas públicas que incentivem a prática de atividades físicas, pode agravar esse problema. A população precisa entender que, mesmo dentro de casa, é saudável reservar um tempo no dia para movimentar o corpo.

Um aumento na taxa nacional de sedentarismo pode comprometer inclusive o combate à pandemia. A obesidade, a diabetes e a hipertensão são comprovadamente fatores de risco para quem contrai a Covid-19, aumentando as chances de internação e até de óbito. Essas três doenças são prevenidas pela prática de atividades físicas. Um bom programa de enfrentamento da pandemia precisa levar isso em conta, encarando o hábito de se exercitar como uma poderosa ferramenta de melhoria dos indicadores de saúde.

Além disso, é necessário identificar populações mais vulneráveis, que precisam de políticas específicas de combate ao sedentarismo. Os idosos estão entre os mais afetados pelo isolamento social. A falta de uma caminhada diária, por exemplo, compromete muito a condição física desse grupo. Além disso, há o prejuízo psicológico decorrente da falta de contato com o mundo exterior, especialmente para aqueles que estão em asilos e casas de repouso. Com um olhar solidário, podemos ajudar essa população a atravessar a atual crise sanitária, incluindo a atividade física como parte de uma ampla estratégia de preservação da saúde na terceira idade.

O problema do sedentarismo não é novo no Brasil e só será superado quando levarmos a sério a atividade física, elegendo-a como parte fundamental de qualquer política de saúde pública. Que a atual situação, com o aperto nas regras de isolamento social, possa acender um alerta para a urgência desse debate.

*Amanda Costa é diretora do Instituto SempreMovimento

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