Lobo-guará na cueca

Lobo-guará na cueca

Rafael Sampaio*

16 de outubro de 2020 | 07h00

Rafael Sampaio. FOTO: DIVULGAÇÃO

A recente notícia da localização pela Polícia Federal de R$ 30.000 na cueca do Senador da República Chico Rodrigues gerou grande alvoroço no seio de nossa República, despertando a curiosidade popular sobre o assunto e levando os mais bem humorados a fazer piadas da nova tragédia política – “o dinheiro só estava aplicado no fundo”, “depois do pix, o governo está lançando o cux”, “a PF vai ter que lavar o dinheiro sujo”, etc. Realmente é difícil perder a piada!

A perplexidade girou em torno da desesperada tentativa do parlamentar de tentar esconder um volume tão grande de recursos em suas partes íntimas. Um simples cálculo aritmético revela que, considerando que as notas utilizadas na operação de ocultação eram as novas de R$ 200, para perfazer o valor total seriam necessárias 150 notas!

Para se ter noção do volume, um caixa eletrônico dispensa por operação até 30 notas. Assim, podemos afirmar que o fundilho do parlamentar seria pelo menos cinco vezes mais eficiente que as bocas dos caixas eletrônicos. Impressionante a capacidade de encaixe e organização para fazer caber as cinco maçarocas de notas nessas partes. Mais uma história incrível que entrará para os anais da política brasileira!

Malgrado seja chocante, tal comportamento não é novidade em terras tupiniquins. Mas, justamente por conta das experiências anteriores de flagrantes constrangedores e inexplicáveis como esse, muitos achavam que já havíamos superado a fase de dinheiro ocultado em cuecas ou malas. Ledo engano.

A par das críticas morais e curiosidades acerca do fato, mas considerando que, em tese, existem fundadas suspeitas sobre a origem do dinheiro, cumpre analisarmos os interesses e as circunstâncias que permitem esse tipo de ação de ocultação de recursos de origem ilícita, especialmente o recente e questionado lançamento da referida nota de R$ 200 pelo Banco Central.

Como já explorado pela imprensa, o Banco Central justificou o lançamento da nova nota de R$ 200 sucintamente em face: da necessidade de repor a capacidade financeira de nossa moeda desvalorizada pela inflação desde o lançamento do Real; do entesouramento durante a pandemia (movimento social de acumular dinheiro em casa); e da necessidade de papel moeda para fazer face aos benefícios emergenciais.

De outro lado, surgiram as críticas relacionadas: ao tamanho da nova cédula, idêntica a da nota de R$ 20,00, que dificulta a sua identificação por deficientes visuais e facilita a sua falsificação com a utilização de notas verdadeiras do menor valor; e, especialmente, o favorecimento da ocultação de recursos de origem ilícita em espécie.

O evidente erro na escolha do tamanho da cédula, em descompasso com a política afirmativa de identificação pela forma, que tanto favorecem os deficientes visuais e coíbe a falsificação com a utilização do próprio papel moeda, não foi capaz de constranger o Governo Federal a reconhecer os erros e buscar as devidas correções.

Por sua vez, tanto em razão da ampliação das transações digitais, como pelo valor do auxílio emergencial pago de R$ 600 durante a pandemia, os argumentos de alinhamento do poder monetário em face da inflação e entesouramento durante a pandemia não parecem minimamente razoáveis para justificar a nova cédula.

Em um país onde até bem pouco tempo as notas de R$ 100 só eram conhecidas pela maior parte da população pelos programas do Sílvio Santos, que as lançava no auditório modeladas como aviãozinhos, afirmar que as cédulas de R$200,00 serão fundamentais para o pagamento do auxílio emergencial é só mais uma piada dentro do contexto.

Na verdade, a pandemia é utilizada atualmente pelo governo como fundamento para praticamente qualquer ação pública, um coringa camaleônico que ganha as cores e formas que interessam para fundamentar o que se quer. Todavia, a pandemia também tem proporcionado, como observamos nos noticiários, graves episódios de corrupção, impondo questionamentos sobre a quem realmente estão servindo as cédulas graúdas nesse período.

Vale acrescentarmos, ainda, a circunstância das eleições municipais nesse ano. Isso porque, não obstante o grande esforço público para coibir as práticas ilícitas do chamado caixa 2 (dinheiro não contabilizado) nas eleições, seria uma verdadeira tolice negar a subsistência dessa mazela em nossos pleitos, nos parecendo, por esse motivo também, açodada a emissão da nova cédula, que alimentará o sistema.

Por tudo isso, indiscutivelmente a emissão da nova nota de R$ 200 veio facilitar, inoportunamente durante a execução dos contratos emergenciais de combate à pandemia e as eleições municipais de 2020, a prática da lavagem e ocultação de dinheiro em espécie, na contramão da prometida política de combate à corrupção pelo governo eleito, sendo o episódio em tela, caso confirmada a origem ilícita dos recursos do fundo, apenas um exemplo simbólico desse quadro.

Na década de 90 havia uma propaganda de uma ótica que afirmava que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Outro dia o Presidente afirmou que no governo atual não havia corrupção, se realmente o governo acredita nisso e não vê que está alimentando o processo de corrupção, deveria rever a emissão dessas notas de R$ 200 ao menos para beneficiar a sua identificação pelos deficientes visuais, afinal, esses querem enxergar o óbvio.

*Rafael Sampaio, delegado, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Judiciária (ADPJ) e presidente do Sindicato dos Delegados do DF (Sindepo)

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