Lobista diz que pagou R$ 4 mi em propinas para Dirceu

Lobista diz que pagou R$ 4 mi em propinas para Dirceu

Julio Camargo depôs em processo da Lava Jato e disse que fez o repasse a pedido de Renato Duque, da Diretoria de Serviços da Petrobrás; esta é a primeira vez que ele cita pagamento de propina para o ex-ministro

Redação

14 de julho de 2015 | 21h09

 

Julio Camargo. Foto: Reprodução

Julio Camargo. Foto: Reprodução

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O lobista Julio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, declarou à Justiça Federal nesta terça-feira, 14, que pagou R$ 4 milhões em propinas para o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil do governo Lula). Segundo Camargo, o repasse foi feito atendendo a uma solicitação da Diretoria de Serviços da Petrobrás, então sob comando do engenheiro Renato Duque, preso na Lava Jato.

VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE JULIO CAMARGO

Esta é a primeira vez que Camargo cita pagamento de propina para Dirceu. O lobista depôs como testemunha de acusação no processo em que são réus Renato Duque, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e outros 25 acusados por lavagem de dinheiro.

José Dirceu. Foto: Dida Sampaio/Estadão

José Dirceu. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Julio Camargo, que era lobista da Camargo Corrêa e do grupo japonês Mitsui, foi o segundo a ser ouvido nesta terça-feira, em Curitiba, pelo juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato.

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O primeiro depoimento do dia foi o do ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco. Ele foi ouvido por mais de três horas e confirmou os pagamentos para o PT via ex-tesoureiro do partido Vaccari Neto – que está preso em Curitiba.

No processo, em que Barusco, Julio Camargo e outros delatores são réus por corrupção e lavagem de dinheiro nas obras de duas refinarias (Repar, no Paraná, e Replan, no interior de São Paulo) e em dois gasodutos.

PT. Na segunda-feira, foram ouvidos o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, peças centrais da Operação Lava Jato. O doleiro reafirmou à Justiça Federal que pagou mais de R$ 800 mil em propinas para o ex-tesoureiro do PT.

Vaccari e Duque – elos do PT no esquema de desvios na Petrobrás – e outros 25 denunciados são apontados no desvio de R$ 135 milhões em quatro obras: na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, na Refinaria de Paulínia (Replan), no Gasoduto Pilar-Ipojuca (Alagoas-Pernambuco) e no Gasoduto Urucu-Coari (Amazonas).

Nesse processo, o MPF fez a comparação entre as datas de pagamento da Petrobrás para os consórcios Interpar e Intercom (formados pela Mendes Jr, MPE e SOG) nas obras de reforma de duas refinarias entre 2008 e 2010 e as datas de doações para o PT por uma das empreiteiras.

“A vinculação entre as doações políticas e os pagamentos feitos pela Petrobrás aos Consórcios Interpar e Intercom pode ser comprovada pela comparação entre as datas em que a Petrobrás pagou os consórcios e as datas, subsequentes, em que empresas controladas por Augusto Mendonça promoveram a transferência de propina disfarçada de doações oficiais para partido político”, sustenta a denúncia do MPF.

A lavagem e operacionalização dos pagamentos das propinas prometidas pela empresa de Mendonça, a Setal Óleo e Gás, e demais empresas consorciadas à Diretoria de Serviços ocorreu mediante três principais formas, diz o MPF: pagamento de valores em espécie direto a Pedro Barusco, ex-gerente de Engenharia da Petrobrás e braço direito de Duque; remessas de valores para contas indicadas por Barusco e Duque no exterior; doações oficiais ao PT, a pedido de Duque e intermediadas por Vaccari.

Os procuradores fazem referência à primeira denúncia contra Vaccari, que já é réu por corrupção e lavagem. Segundo os procuradores, “parte das vantagens ilícitas destinadas por Augusto Mendonça à Diretoria de Serviços foi repassada ao Partido dos Trabalhadores, mediante indicações de Duque e Vaccari, sob o disfarce de ‘doações oficiais’ ao PT, por meio das empresas PEM, Projetec e SOG”. Todas pertencentes a Mendonça.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ROBERTO PODVAL, DEFENSOR DE JOSÉ DIRCEU

O criminalista Roberto Podval, que defende José Dirceu, afirmou que o ex-ministro da Casa Civil no governo Lula não recebeu R$ 4 milhões do lobista Julio Camargo. “Ele (Julio Camargo) que prove o que está afirmando”, desafiou Podval.

“Esse é o quarto depoimento de Julio Camargo, ele nunca tinha dito isso. Nunca tocou nesse assunto antes”, declarou Podval. “Somos categóricos. Afirmamos que ele (Julio Camargo) não deu esse dinheiro para José Dirceu.”

Roberto Podval reiterou que todo o dinheiro recebido pelo ex-ministro por meio de sua empresa, a JD Assessoria e Consultoria “tem nota fiscal”.

“Toda a documentação relativa às atividades da JD Assessoria foi entregue ao juiz Sérgio Moro. Se José Dirceu contabilizou e declarou todo o dinheiro que recebeu não faz sentido ele receber R$ 4 milhões e não declarar.”

“Eu tenho certeza que o juiz Sérgio Moro, sério como é, não vai levar em consideração uma reposta dessas sem prova alguma. Obviamente, o delator que prove o que diz. Acredito que para que seja levado em consideração pelo juiz Moro ele (Julio Camargo) vai ter que provar. Se for assim, todos nós estamos sujeitos a ser vítimas de uma afirmação dessas.”

“A delação pode ser importante, mas tem que estar amparada em prova”, pondera Roberto Podval. “Senão cria uma insegurança jurídica.”

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