Cunha disse que era merecedor de US$ 5 milhões, afirma delator

Cunha disse que era merecedor de US$ 5 milhões, afirma delator

Em depoimento à Justiça Federal no Paraná, base da Operação Lava Jato, Julio Camargo, um dos delatores do esquema de corrupção na Petrobrás, relatou conversa com suposto operador do PMDB

Redação

16 de julho de 2015 | 16h27

Eduardo Cunha. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Eduardo Cunha. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Atualizada às 20h51

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Fausto Macedo e Valmar Hupsel Filho

O lobista Julio Camargo, um dos delat0res da Operação Lava Jato, declarou à Justiça Federal que o suposto operador do PMDB no esquema de corrupção da Petrobrás, Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, lhe disse que estava sendo pressionado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, para pagamento de propina. Os valores da propina teriam saído de compras de navios-sonda. Segundo relato de Julio Camargo, o peemedebista exigia US$ 5 milhões.

“Fui bastante apreensivo (ao encontro do parlamentar no Leblon, Rio). O deputado Eduardo Cunha é conhecido como uma pessoa agressiva, mas confesso que comigo foi extremamente amistoso, dizendo que ele não tinha nada pessoal contra mim, mas que havia um débito meu com o Fernando do qual ele era merecedor de 5 milhões de dólares”, afirmou Camargo. “E isso estava atrapalhando, porque estava  em véspera de campanha, se não me engano uma campanha municipal e que ele tinha uma série de compromissos e que eu vinha alongando esse pagamento há bastante tempo e que ele não tinha mais condição de aguardar.”

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Eduardo Cunha é alvo de investigação da Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Um inquérito foi aberto para investigar o suposto envolvimento do deputado na Lava Jato.

O delator Julio Camargo depôs em uma das ações penais em curso na 1ª instância da Justiça Federal no Paraná. Ele foi arrolado pelo Ministério Público Federal como testemunha de defesa do operador do PMDB Fernando Baiano, ligado a Cunha.

“Julio, realmente nós estamos com um problema, porque eu estou sendo pressionado violentamente, inclusive, pelo deputado Eduardo Cunha”, disse Julio Camargo, atribuindo a frase a Fernando Baiano.

Ainda segundo o lobista, Fernando Baiano disse a ele. “Isso aí vai chegar numa situação muita embaraçosa para mim, mas para você, com certeza vai ser muito mais embaraçosa”. 

Julio Camargo depôs nesta quinta-feira, 16, em Curitiba, na Justiça Federal em uma das ações da Lava Jato. Ele disse que responde a Fernando Baiano. “Eu falei, bom, eu estaria à disposição para conversar com o deputado Eduardo Cunha explicar o que está acontecendo. Ele falou: Julio, ele não quer conversar com você. Ele quer receber.”.

O lobista afirmou que se reuniu pessoalmente com o então ministro Edison Lobão (Minas e Energia) na Base Aérea Santos Dumont, no Rio. Julio Camargo diz que exibiu a Lobão cópia de um requerimento de informações da Câmara, subscrito por uma deputada aliada de Eduardo Cunha – o documento pedia informações sobre contratos da Mitsui, da qual Julio Camargo era representante, com a Petrobrás.

‘O sr. citou que o parlamentar era uma pessoa agressiva’, indagaram a Julio Camargo. “Agressivo não no tipo físico. Diria mais sob o ponto de vista verbal, uma pessoa que tenta lhe constranger, lhe colocar a corda no pescoço, no sentido de possuir as ideias”.

Outro delator da Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef já havia afirmado à Justiça Federal que o presidente da Câmara era um dos “destinatários finais” de em contratos de navios-sonda da Petrobrás investigados pela Lava Jato.

Em sua versão, em maio de 2015, o doleiro declarou que Eduardo Cunha foi o mentor de requerimentos feitos na Câmara para pressionar a empresa Mitsui, que não estaria pagando a propina em 2011. Ele disse que foi procurado pelo lobista Julio Camargo após estes requerimentos.

“Fui chamado em 2011 pelo Julio Camargo no seu escritório, onde ele se encontrava muito preocupado e me relatou que o Fernando Soares, através do deputado Eduardo Cunha, havia pedido alguns requerimentos de informações referentes aos contratos da Mitsui, da Toyo e do próprio Julio Camargo, através de outros deputados”, relatou.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO EDUARDO CUNHA

NOTA À IMPRENSA

Com relação à suposta nova versão atribuída ao delator Júlio Camargo, tenho a esclarecer o que se segue:

1- O delator já fez vários depoimentos, onde não havia confirmado qualquer fato referente a mim, sendo certo ao menos quatro depoimentos.

2- Após ameaças publicadas em órgãos da imprensa, atribuídas ao Procurados Geral da República, de anular a sua delação caso não mudasse a versão sobre mim, meus advogados protocolaram petição no STF alertando sobre isso.

3- Desminto com veemência as mentiras do delator e o desafio a prová-las.

4- É muito estranho, às vésperas da eleição do Procurador Geral da República e às vésperas de pronunciamento meu em rede nacional, que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo Procurador Geral da República, ou seja, obrigar o delator a mentir.

Deputado Eduardo Cunha

Presidente da Câmara dos Deputados

COM A PALAVRA, A MITSUI&CO

A Mitsui & Co. gostaria de reforçar que o sr. Júlio Camargo nunca foi representante ou consultor em nenhum dos projetos da empresa. Em 2011, respondendo a um requerimento apresentado à Comissão de Inspeção e Controle da Câmara dos Deputados, o Tribunal de Contas da União (TCU) não identificou nenhuma irregularidade relacionada aos contratos da Mitsui & Co. com a Petrobrás.

COM A PALAVRA, A PGR

A Procuradoria-Geral da República esclarece que o depoimento prestado na presente data por Júlio Camargo à Justiça Federal do Paraná não tem qualquer relação com as investigações (inquéritos) em trâmite no âmbito do Supremo Tribunal Federal. A audiência referente à ação penal da primeira instância – que tem réu preso, ou seja, tem prioridade de julgamento – foi marcada pelo juiz federal Sergio Moro há semanas (em 19 de junho), a pedido da defesa de Fernando Soares, e a PGR não tem qualquer ingerência sobre a pauta de audiências do Poder Judiciário, tampouco sobre o teor dos depoimentos prestados perante o juiz.

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