Lobista conta como pagou US$ 10 mi em propina, sob pressão de Cunha

Julio Camargo afirmou à Justiça Federal que usou lavanderia de dinheiro do doleiro Alberto Youssef e depósitos em empresas do operador de propinas do PMDB, Fernando Baiano, para efetivar corrupção que teria envolvido presidente da Câmara; pelo menos US$ 5 mi teriam ido para Cunha

Redação

16 de julho de 2015 | 17h46

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Atualizada às 20h51

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Fausto Macedo e Valmar Hupsel Filho

O lobista Julio Camargo, representante dos japoneses do Grupo Mitsui e da Camargo Corrêa no esquema de cartel e corrupção na Petrobrás, detalhou em depoimento à Justiça Federal os pagamentos que efetivou a partir da pressão exercida pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para que fosse repassado o restante dos US$ 10 milhões em propina referentes a dois contratos na Diretoria de Internacional, que ele intermediou.

“Eu paguei em depósitos ao Alberto (Youssef) no exterior, paguei através de operações com a GFD (empresa de fachada do doleiro) e fiz pagamentos diretos às empresa do senhor Fernando Soares”, afirmou Julio Camargo, em depoimento na manhã desta quinta-feira, 16, ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

Camargo afirmou que o deputado tinha US$ 5 milhões a receber de um total de US$ 10 milhões restantes da propina a serem pagas por dois contratos de navios-sondas, para exploração de petróleo em águas profundas, assinados em 2006 e 2007 pela coreana Samsung em parceria com a japonesa Mitsui. Os contratos eram da Diretoria de Internacional, área comandada pelo PMDB, e envolveram ao todo US$ 30 milhões de propina, segundo o processo em que Julio Camargo e Fernando Baiano são réus ao lado do ex-diretor da área Nestor Cerveró.

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“Eu chamei o Alberto com quem eu tinha relacionamento de confiança e, se não me engano, até pedi se ele conhecia o deputado Eduardo Cunha porque eu estava com problema com o deputado”, afirmou Julio Camargo, que disse que teve que se organizar para efetivar os pagamentos.

“O deputado Eduardo Cunha não aceitou que eu pagasse somente a parte dele. Ele disse: ‘olha Julio, eu não aceito também que você faça uma negociação para pagar só a minha parte. Você pode até pagar o Fernando mais dilatado. O meu eu preciso rapidamente, mas eu faço questão de você incluir no acordo aquilo que você ainda falta pagar o Fernando”, detalhou o delator.

“Aí chegou entre 8 e 10 milhões de dólares”, confessou Julio Camargo ao juiz Sérgio Moro.

Caminho do dinheiro. Julio Camargo foi questionado pelo juiz da Lava Jato se ele poderia identificar os pagamentos de propina feitos após a pressão exercida pelo presidente da Câmara. Todos os dados foram apresentados à Procuradoria Geral da República, em forma de planilha, onde corre inquérito em que Cunha é investigado.

“Fiz três depósitos indicados pelo senhor Alberto Youssef, 20 de outubro de 2011, através da minha empresa Vigela para uma empresa indicada por ele que chama RFY e outra de nome DGX. São dois pagamentos de US$ 2,3 milhões e outra de US$ 400 mil.”

“Depois pagamentos efetuados a empresa do Fernando, uma de nome Technis no valor de US$ 700 mil, e outra, vários pagamentos, nove pagamentos, para empresa dele de nome Hawk Eyes, no valor total de US$ 3,2 milhões”, informou.

O lobista disse que o restante foi pago em reais no Brasil via investimentos em empresas do doleiro Alberto Youssef. “Pagamentos que eu fiz ao senhor Alberto e ele pagou Fernando Soares.”

Perguntado se efetivamente foi beneficiário do esquema, Julio citou Fernando Baiano, o presidente da Câmara e ele próprio. “Acho que o Fernando foi o beneficiário, como meu parceiro, da mesma maneira que eu ganhei ele ganhou também. Eu não sabia que ele tinha um sócio oculto, que era o deputado Eduardo Cunha, que também ganhou.”

Processo. Julio Camargo foi ouvido como réu no processo em que o ex-diretor de Internacional Nestor Cerveró e Fernando Baiano – braços do PMDB no esquema de desvios na Petrobrás – são acusados pelo recebimento de US$ 30 milhões na contratação de dois navios-sonda, firmados em 2006 e 2007.

O doleiro Alberto Youssef, peça central da Lava Jato, há havia afirmado à Justiça Federal que o presidente da Câmara era um dos “destinatários finais” da propina de cerca de R$ 4 milhões operacionalizados por ele nesses contratos feitos pelo grupo Samsung em parceria com a Mitsui.

“Quando o senhor conversou com Julio Camargo ele falou quem eram os beneficiários das operações? Ou ele só falou no Fernando Soares?”, perguntou o magistrado. O doleiro respondeu: “Falou no Fernando Soares e contou a história da pressão que o Eduardo Cunha estava fazendo para que ele pudesse pagar o Fernando Soares, dando entendimento que esse valor fosse também na época para o deputado.”

Mais tarde, questionado pelo seu advogado sobre quem seriam os “destinatários finais” desta propina, Youssef reiterou ter ouvido de Camargo que eram “Fernando Soares e Eduardo Cunha”.

O presidente da Câmara vem negando com veemência o envolvimento no esquema de desvios na Petrobrás.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO EDUARDO CUNHA

NOTA À IMPRENSA

Com relação à suposta nova versão atribuída ao delator Júlio Camargo, tenho a esclarecer o que se segue:

1- O delator já fez vários depoimentos, onde não havia confirmado qualquer fato referente a mim, sendo certo ao menos quatro depoimentos.

2- Após ameaças publicadas em órgãos da imprensa, atribuídas ao Procurados Geral da República, de anular a sua delação caso não mudasse a versão sobre mim, meus advogados protocolaram petição no STF alertando sobre isso.

3- Desminto com veemência as mentiras do delator e o desafio a prová-las.

4- É muito estranho, às vésperas da eleição do Procurador Geral da República e às vésperas de pronunciamento meu em rede nacional, que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo Procurador Geral da República, ou seja, obrigar o delator a mentir.

Deputado Eduardo Cunha

Presidente da Câmara dos Deputados

COM A PALAVRA, A MITSUI&CO

A Mitsui & Co. gostaria de reforçar que o sr. Júlio Camargo nunca foi representante ou consultor em nenhum dos projetos da empresa. Em 2011, respondendo a um requerimento apresentado à Comissão de Inspeção e Controle da Câmara dos Deputados, o Tribunal de Contas da União (TCU) não identificou nenhuma irregularidade relacionada aos contratos da Mitsui & Co. com a Petrobrás.

COM A PALAVRA, A PGR

A Procuradoria-Geral da República esclarece que o depoimento prestado na presente data por Júlio Camargo à Justiça Federal do Paraná não tem qualquer relação com as investigações (inquéritos) em trâmite no âmbito do Supremo Tribunal Federal. A audiência referente à ação penal da primeira instância – que tem réu preso, ou seja, tem prioridade de julgamento – foi marcada pelo juiz federal Sergio Moro há semanas (em 19 de junho), a pedido da defesa de Fernando Soares, e a PGR não tem qualquer ingerência sobre a pauta de audiências do Poder Judiciário, tampouco sobre o teor dos depoimentos prestados perante o juiz.

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