Livre-mercado e o caos do abastecimento

Livre-mercado e o caos do abastecimento

Maurício De Lazzari Barbosa*

10 de abril de 2020 | 07h00

Maurício De Lazzari Barbosa. FOTO: DIVULGAÇÃO

O avanço do coronavírus tem provocado novos desafios na cadeia de suprimentos em nosso mundo globalizado. Pouco mais de um mês se passou desde o primeiro caso letal no Brasil, no fim de fevereiro, e desde então a rápida progressão do vírus tem assustado a população em geral, das autoridades públicas e multinacionais aos fornecedores e pequenos comerciantes, isolados em quarentena e acompanhando pela mídia, em tempo real, os desdobramentos socioeconômicos da pandemia.

Nas últimas semanas, o tema da crise no abastecimento vem ganhando repercussão na imprensa, sobretudo após a Lei Federal 13.979, que permite ao Estado a “requisição de bens e serviços” como medida de emergência de saúde pública no enfrentamento à covid-19. O chamado “confisco” de suprimentos médicos, que vai na contramão do livre mercado e sua estabilidade gerada pela concorrência e previsibilidade de preços, já virou disputa judicial e colocou em lados opostos União, Estados e Municípios, cada qual buscando defender o próprio sistema de saúde regional.

Porém, tal disputa revela somente uma das consequências desta complexa situação. O preço de itens básicos e essenciais como a luva hospitalar, por exemplo, aumentou 469% em uma semana, segundo dados da plataforma digital Bionexo, que conecta hospitais e fornecedores, devido a fatores como aumento da demanda e a alta do dólar, que atingiu recentemente a sua maior cotação histórica diante do real, afetando diretamente a importação – cada vez mais necessária – de alguns produtos hospitalares.

Para o enfrentamento da crise iminente, alguns hospitais adotaram a estratégia correta de realizar estoques para garantir a proteção de seus profissionais que atuam na linha de frente e a continuidade do atendimento ao público. Ao mesmo tempo, o estoque dos fornecedores locais – inicialmente previsto para cinco a seis meses – está próximo do fim. Com menos (e mais caros) produtos no estoque, essa crise no abastecimento resulta em uma demanda não correspondida dos produtos hospitalares. De acordo com o estudo supracitado, mais de 9 milhões de aventais hospitalares foram solicitados — e não entregues por falta de estoque — por hospitais de todo o Brasil no intervalo de apenas uma semana.

Diante desse cenário que pode se estender por meses, é essencial elaborarmos estratégias conjuntas, tomando por base o que aprendemos nas últimas semanas para evitar um caos ainda maior do sistema de saúde. No caso dos hospitais, as unidades hospitalares clientes da Bionexo informam que, atualmente, a taxa de ocupação média está entre 35% a 55% em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que é abaixo da taxa regular de 70% a 95%, sendo reflexo de fatores como a eliminação de cirurgias eletivas, por exemplo. Ocorre que o estoque de insumos necessário dos hospitais para assegurar o atendimento à população é calculado com base nessa taxa padrão, ou seja, os centros hospitalares podem estar com um estoque maior do que necessitam na prática, deixando outras unidades desassistidas destes mesmos insumos neste momento crítico.

Sendo assim, é primordial lançar mão de toda a tecnologia e sistemas de inteligência que temos disponíveis para enfrentar os atuais desafios da crise de abastecimento e as demais questões que se avizinham e exigirão um esforço ainda maior de união e organização em todas as esferas da sociedade.

Uma solução temporária é o uso de um sistema inteligente de algoritmos que possa detectar os hospitais públicos e particulares onde há estoque em excesso e mapear o montante de suprimentos necessário para cada unidade hospitalar em determinado intervalo de tempo, realocando quando necessário os itens de maior urgência entre os diferentes hospitais do país. Destarte, por meio de uma central de urgência integrada seria possível atender a um maior número de hospitais e garantir que os estoques sejam usados de maneira efetiva e equânime em favor da população.

Em relação aos fabricantes e distribuidores, com os estoques esgotados rapidamente e as dificuldades em achar insumos fora do Brasil em virtude da disparada do dólar e do aumento da demanda, o cenário é igualmente desafiador.  É importante destacar o papel imprescindível deles neste momento de crise, uma vez que são os responsáveis por abastecer a população com o material necessário no combate à pandemia.

Não obstante, uma mobilização conjunta dos atores econômicos do setor se faz necessária para coibir a prática de abusos pecuniários arbitrários neste momento de crise. Uma medida TEMPORÁRIA seria a organização de uma coalização entre indústria, governos e hospitais (privados, públicos e filantrópicos), de modo a estabelecer uma banda de preço flexível em função de aumentos no valor do insumo e outros fatores. Dessa maneira, haveria uma maior previsibilidade no valor dos produtos hospitalares, resguardando-os de fatores externos como instabilidade do dólar e variações na demanda e oferta internacional.

Essas são medidas excepcionais que podem promover uma maior estabilidade ao setor de saúde neste momento de pandemia cujas consequências já estão afetando a vida de milhões de pessoas.

*Maurício De Lazzari Barbosa é fundador da Bionexo

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