Literatura de ditadores

Literatura de ditadores

José Renato Nalini*

20 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O escritor escocês Daniel Kalder é originalíssimo. Liderou uma campanha contra o turismo tradicional. Para ele, paisagens super fotografadas, edifícios históricos, monumentos a heróis ou a eventos já não têm qualquer significado. Quem quiser viajar precisa explorar “as terras devastadas, os buracos negros, as áreas urbanas sinistras”.

Se ele ainda insistisse no tema, o Brasil teria hoje muita coisa a mostrar. As terras incendiadas na Amazônia, o pantanal que viu destruída vasta parcela de seu território, os rios poluídos e mortos. Uma viagem a Pirapora do Bom Jesus mostraria o que o bicho-homem consegue fazer com um rio que já foi límpido e piscoso como o Tietê.

Mas não seria só isso a ver. A favelização empobrecida após a pandemia, a aglomeração obrigatória de famílias inteiras em cubículos, a multiplicação dos moradores de rua, a fila dos que procuram alimento junto aos franciscanos, as macas à espera de vagas nos hospitais.

Uma visita interessante seria ao Cemitério de Vila Formosa, que cresce assustadoramente e que tem de realizar sepultamentos à noite, pois o número de óbitos continua em elevação.

Só que Daniel procurou outras misérias para exprimir no livro “A Biblioteca dos Ditadores”, publicado pela Harper Collins. Quis escrever um livro “sobre os piores livros já escritos e, portanto, foi uma pesquisa terrivelmente dolorosa”, conta Carlos Graieb no artigo “Ator repassa produção literária de ditadores dos séculos 20 e 21”. É impiedoso com os impiedosos. Não perdoa aos líderes que não perdoaram seus adversários. Os cruéis quiseram também deixar um legado como literatos.

Lênin puxa a fila, como fundador do cânone ditatorial. Propugna uma única verdade: o estado hobbesiano. Ensina como implementá-lo. Não deixa de contemplar Stálin, Mussolini, Hitler e Mao. Continua com Franco, Salazar, Tito, Nasser, Kim Il-sung, Fidel Castro, Idi Amin Dadá, Gaddafi, Khomeini e Saddam Hussein.

O que levou todos eles a escrever?

Deixaram vasta obra, com o intuito de destruir os adversários, doutrinar os seguidores e edificar o próprio mito, para que não caíssem no esquecimento. Os perversos costumam ser ególatras. Basta verificar o culto da imagem, hoje intensificado nas redes sociais e na prolífica produção de selfies, veiculados pelos faces, instagram e outros canais de divulgação.

Os livros escritos pelos ditadores ou por seus gost writers são bastante aborrecidos. Auto laudatórios, exagerados em realçar qualidades que a História provou não existirem – ou existirem com sinal trocado – nenhum Shakespeare nesses títeres cuja memória, em regra, é abominável.

A retórica histriônica, os arroubos de quem não consegue se enxergar com isenção, as mentiras deslavadas, quase tudo conduz ao tragicômico ou ao ridículo. Uma exceção seria o aiatolá Khomeini, em quem Kalder detecta o dom da clareza analítica.

Mao tem talento para o aforismo. Denotou certa modéstia em Salazar, que se esforça para não gerar empolgação. Mussolini, ao relatar suas memórias da Primeira Grande Guerra Mundial, mostra-se um observador perspicaz e chega a ser poético. Também se voltou ao romance, ao escrever “A Amante do Cardeal”. Observa Kalder que nesse livro, a complicadíssima trama é de uma “fisicalidade sádica e indisciplinada”.

Também escreveu romance o generalíssimo Franco, aquele que habitava, depois de sua morte, o “Vale de los Caídos”, ponto de peregrinação de saudosos da Guerra Civil Espanhola travada entre 1936 e 1939. A guerra que trucidou o poeta Garcia Lorca e outras centenas de milhares de espanhóis que queriam democracia.

O romance franquista se chama “Raça”. O enredo: dois irmãos lutam em lados opostos na batalha fratricida. O nacionalista é um alter-ego de Franco. Vencedor, jura lealdade ao líder vitorioso. Kalder ironiza essa conclusão, conta Graieb: Franco jura lealdade a Franco. É o que o autor considera “um momento de vanguarda”.

Já Saddam Hussein desenvolve uma ficção histórica. O livro “Zabiba e o Rei” narra a estória de uma avó que conta ao neto episódios de um passado sangrento e prenhe de estupros. A avó não se peja em contar ao netinho que em certo lugar do Iraque, os ursos escolhem seres humanos para servirem como amantes.

Quem vier a ler “A Biblioteca dos Ditadores” está dispensado de ler os livros nessa obra mencionados. Carlos Graieb lamenta que o gênero não seja defunto, pois é possível que alguém vasculhe o Twitter para ver o que escreveram os candidatos a ditador contemporâneos. Mas isso talvez só venha a fazer sentido, depois que tiverem deixado o reino dos viventes. Enquanto isso, o conteúdo das mensagens não representa perda considerável para a literatura universal.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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