‘Líderes’ comandavam divisão de propinas no PP, afirma doleiro

Ao ser interrogado na Justiça Federal, Alberto Youssef explicou como era feita a partilha de dinheiro desviado de contratos da Petrobrás, passando pelo Partido Progressista

Redação

30 Abril 2015 | 05h00

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

O doleiro Alberto Youssef, delator da Operação Lava Jato, afirmou nesta quarta feira, 29, que “os líderes” do Partido Progressista (PP) “comandavam” a destinação de propinas repassados à agremiação. Os valores tinham origem em desvios de contratos de licitações da Petrobrás. Youssef apontou para “os líderes” do PP ao responder indagação sobre a atuação do ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa – indicado ao posto em 2004 pelo então deputado José Janene (PP/PR), morto em 2010.

“Nesse processo de negociação e recebimento de valores quem determinava o comando do caixa geral que o sr. operava? Quem determinava o destino desses valores era Paulo Roberto Costa?”, foi a pergunta dirigida ao doleiro.

VEJA A ÍNTEGRA DO INTERROGATÓRIO DE ALBERTO YOUSSEF

Youssef esclareceu, inicialmente, que do 1% de propinas sobre o valor de cada contrato a divisão ocorria assim: 60% para o PP, 30% para Paulo Roberto Costa, 5% para João Genu (braço direito de Janene) e 5% para ele próprio.

“Paulo Roberto Costa comandava também a destinação desses 60% que iam para o partido?”

“Não, quem comandava eram os líderes do partido”, respondeu Youssef.

O doleiro explicou o caminho do dinheiro ilícito – desviado de obras da Petrobrás – para o partido. “(O dinheiro) vinha para o caixa do partido e depois era distribuído no seio do partido, a parlamentares do Partido Progressista.”

Na audiência em que Youssef depôs, relativa aos processos criminais contra os empreiteiros que formaram cartel para assumir o controle de contratos bilionários na Petrobrás, foi perguntado a ele. “Esse caixa era oficial do partido?”

“Não, teve sim doações oficiais ao partido através de uma outra empresa, que foi descontado do pagamento de propina”, disse o doleiro.

Ele disse que o 1% não era um valor fixo. “Isso não era uma regra, se a empresa não pudesse pagar 1%. Podia ser meio por cento ou 0,75 por cento, se a empresa não tinha caixa não pagava 1%.”

Youssef relatou sobre propinas no âmbito da Central de Utilidades, uma das obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). “A propina não chegou a 1% neste caso”, disse.

“Essa propina não foi paga por emissão de notas fiscais ou de vendas de tubos. A (Central de) Utilidades foram pagas através de dinheiro vivo, recebidos no meu escritório, pela Odebrecht e também por pagamentos lá fora em contas indicadas por mim, que eram controladas pelo Leonardo Meirelles (apontado como ‘laranja’ do doleiro).”

“Parte eu entreguei ao seu César Rocha para que ele pudesse fazer a remessa e as contas que eu indiquei eram contas do Leonardo Meirelles, controladas por ele”, prosseguiu o doleiro.

“Quem negociou (a propina) foi o dr. Paulo Roberto (Costa, ex-diretor de Abastecimento)”, afirmou o doleiro, que citou dois executivos da empreiteira Odebrecht, Márcio Farias e Rogério Araújo. “Foi negociado com a Odebrecht, com o Marcio Farias e com o Rogério. Eu fiz o recebimento através do seu César Rocha, que era o diretor financeiro da holding da Odebrecht.”

Perguntaram ao doleiro quem lhe entregou dinheiro vivo. “Emissários da empresa Odebrecht, que eu não sei quem são”, respondeu. Segundo ele, as contas ficavam hospedadas em instituições financeiras no exterior.

O doleiro apontou os nomes dos empreiteiros que o visitavam em seu escritório para “tratar da Petrobrás”.

“Da Engevix, Gerson Almada, da OAS Agenor de Medeiros, Zé Ricardo (Breghirolli). O Mateus Coutinho (OAS) esteve uma ou duas vezes no meu escritório, mas não foi para tratar de Petrobrás. Da Mendes Jr. o Rogério. Não me lembro de o Sérgio Mendes ter ido no meu escritório. Da Galvão o Erton (Medeiros), da UTC Ricardo Pessoa, da Camargo Corrêa, Eduardo Leite, Paulo Augusto e o Dalton Avancini. A gente falava sobre contratos da Petrobrás, assuntos referentes à Petrobrás.”

Todos os empreiteiros negam pagamento de propinas e formação de cartel na Petrobrás. O Partido Progressista afirma que todas as doações foram captadas em conformidade com a lei.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT.

“A Odebrecht refuta, mais uma vez, as afirmações caluniosas, contra a empresa e seus integrantes, feitas por doleiro réu confesso em dezenas de processos da Justiça Federal do Paraná. É lamentável assistir a uma mentira ser reconstruída e emendada tantas vezes ao longo de vários depoimentos e ‘delações’, sem que isso traga qualquer consequência para um réu confesso em desespero para obter o perdão para seus crimes. A Odebrecht já afirmou diversas vezes que não fez nenhum pagamento ou depósito para qualquer ex-executivo da Petrobrás ou a seus supostos intermediários. Todos os contratos de prestação de serviços conquistados pela Odebrecht foram pautados nas normas e leis vigentes. A empresa nunca participou de cartel, seja em contratos com a Petrobrás ou com qualquer outro cliente público ou privado. É importante ressaltar que a base de valores praticada nos editais era determinada pela própria Petrobrás e não pelas empresas, como reconheceu recentemente, em retificação ao que afirmara em ‘delações’ e depoimentos anteriores, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, outro réu confesso nos mesmos processos.”