Liderança feminina, além do dia 8 de março

Liderança feminina, além do dia 8 de março

Halina Matos*

06 de março de 2021 | 15h00

Halina Matos. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Estamos nos aproximando de mais um Dia das Mulheres, a 46.ª vez desde que a data oficial foi cunhada pela ONU em 1975, com o objetivo de lançar luz e reforçar o movimento pela equidade de gênero na sociedade. Mas a data é frequentemente mal compreendida por parte de organizações no país, que acabam por debater o tema somente no mês de março, perdendo a oportunidade de criar políticas e práticas contínuas ao longo do ano.

Desde a década de 70 até hoje, o que aprendemos sobre equidade de gênero nas empresas? O que ainda precisamos aprender? Comecemos por alguns dados dos últimos anos para responder a essa pergunta.

A evolução das trajetórias trilhadas pelas mulheres em seus ambientes de trabalho nos últimos anos, apesar de real, é discreta. Segundo dados recentes do IPEA, elas aumentaram a sua participação no mercado de trabalho em média 7 p.p. desde a década de 90, mas hoje ocupam menos do 40% dos cargos gerenciais em organizações do setor privado e público. Com a pandemia, a evolução realizada na última década retrocedeu e, hoje, a participação feminina está abaixo dos 50%, pior índice desde 1991.

Em termos de remuneração, as mulheres também seguem em desvantagem, tendo um rendimento médio 30% menor do que os homens. Em resposta, grandes corporações, como SAP Brasil, Grupo Boticário, Pepsico (dentre outras) comprometeram-se, recentemente, com metas de representatividade de mulheres na liderança, uma forma de criar ambientes mais diversos e inclusivos, acelerando seus processos internos de transformação.

Mais do que somente esforços em contratação e promoção, é necessário também analisar o ambiente interno que essas mulheres enfrentarão. Quais desafios elas terão pela frente? As oportunidades de desenvolvimento estão equilibradas com as dos demais pares? A recompensa e reconhecimento são justas de acordo com o que entregam? O ambiente de transparência, comunicação e respeito é genuíno ou “somente quando há uma líder mulher na mesa”?

Apesar da crise atual, a liderança feminina destacou-se neste momento de turbulência em que vivemos. Diversos estudos têm comprovado resultados positivos de equipes, empresas e sociedades lideradas por mulheres. Cada vez mais elas representam um movimento presente nas organizações contemporâneas: um estilo de liderança mais focado em inspiração, colaboração e inovação.

Cabe a ressalva de que as características acima não se limitam à análise estereotipada de que “mulheres agem de um jeito” e “homens agem de outro”, pois esse viés enfraquece toda a narrativa de equidade. Mas é visível que ainda vivemos numa sociedade cujos papéis femininos e masculinos são bastante demarcados e, mais gravemente, cindidos. Nesse contexto social, também é visível a maneira pela qual os homens são tipicamente estimulados, desde a infância, a se envolverem em tarefas analíticas e lógicas, ligadas a um conjunto de competências técnicas, enquanto as mulheres são fortemente direcionadas a atividades de comunicação e relacionamento interpessoal, desenvolvendo suas competências comportamentais.

Ainda que algumas organizações sigam valorizando as competências técnicas como as mais importantes para escolherem, promoverem e recompensarem sua liderança, o movimento de competências comportamentais associadas ao papel do líder surge com força. Estudos sobre o tema cresceram fortemente nos últimos 20 anos, sendo acompanhadas por uma avalanche de cursos e programas de desenvolvimento para líderes nas empresas. Mais do que nunca, as mulheres têm uma oportunidade real neste momento de aumentar significativamente seu papel de influência na liderança, colocando em uso todo seu conjunto de competências que, comprovadamente, são essenciais num momento de crise.

Por fim, apesar de óbvio, torna-se essencial reforçar a importância de um ambiente justo, respeitoso e livre de assédio em prol não só das mulheres, como de todos os colaboradores. Acima de tudo, precisamos falar sobre urgência. Evoluímos desde o 1º Dia das Mulheres em 1975, porém, ainda existem muitas mudanças a serem feitas, não somente nas organizações, mas em toda a sociedade. Portanto, vamos em frente neste ano de 2021, rumo ao futuro, sem nos esquecer: temos pressa.

*Halina Matos, professora de Liderança do Ibmec-SP. Psicóloga, consultora e especialista em desenvolvimento humano e organizacional

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