Liderança empresarial para um momento de transição acelerada

Liderança empresarial para um momento de transição acelerada

Carlo Pereira*

05 de maio de 2021 | 05h00

Carlo Pereira. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Depois de um delicioso lobster roll num dia ensolarado em Boston, chego para participar de um evento do professor Michael Porter, aquele mesmo das 5 forças competitivas, mestre do marketing e da competitividade. Foi num hotel no famoso Porto de Boston, vento e frio típicos da cidade.

Uma das atividades mais esperadas era o talking show entre o humorado Alan Murray, CEO da Fortune, com o CEO da GAP, Art Peck. Com sua habilidade de jornalista, Murray conduziu prazerosamente aquela conversa de 30 minutos sobre desafios contemporâneos de um líder empresarial. O que mais me chamou a atenção foi uma anedota trazida por Art Peck sobre uma fala de um ex-ceo de sua companhia numa confraternização. Disse ele, que o senhor o olhava com certo desalento e, curioso pelo motivo, foi questioná-lo. Num tom jocoso, sorriso no canto na boca, disse: sabe, meu filho, na minha época era muito mais fácil ser CEO.

Na minha interação diária com CEOs e conselheiros de grandes empresas sempre escuto diferentes versões da percepção da complexidade de liderar nos dias de hoje.

Fato é, que liderar uma empresa nas décadas de 1980-90, apesar de crises econômicas e intenso processo de globalização vivido pelo mercado, era menos complexo devido à expectativa com relação àquele líder ser uma só. Atingir o resultado financeiro esperado pelos acionistas.

O mundo mudou. O pensamento de Milton Friedman que talvez mais do que grandes ideias, tenha servido de desculpa para um capitalismo desenfreado, mostrou-se inadequado para a contemporaneidade.

É incontestável que nesse período o mundo prosperou financeiramente, mas a um custo ambiental enorme e desigualdade galopante. Símbolo maior do neoliberalismo, os EUA tiveram um aumento de 80% do PIB no país desde 1980. No entanto, apenas 20% de acréscimo na renda dos mais pobres enquanto os mais abastados experimentaram um salto de 420%.

Estamos num momento crucial de intensas crises do clima, da biodiversidade e da poluição. Como intitulado, recente relatório, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) precisamos “Fazer as Pazes com a Natureza”. Segundo a agência da ONU, “apesar de uma queda temporária nas emissões devido à pandemia, a terra está caminhando para um aquecimento global de pelo menos 3°C neste século. Mais de 1 milhão das 8 milhões de espécies vegetais e animais estão em alto risco de extinção, e as doenças causadas pela poluição matam cerca de 9 milhões de pessoas prematuramente a cada ano”.

Esticamos a corda até quase arrebentar, se não arrebentou.

Como consequência, estamos vivendo crises sociais, econômicas e uma profunda crise intergeracional.

Em 2019, mais de 40 países passaram por grandes convulsões sociais, sendo que a previsão para 2020 era de mais de 70 nações vendo sua população ocupar as ruas exigindo mudanças no quadro político, exigindo, principalmente, a redução nas desigualdades e acesso aos diretos básicos universais.

Antes da pandemia, gretas (Greta Thunberg – ambientalista climatica) e amandas (Amanda Costa – ativista socioambientalista brasileira) tomaram as ruas do mundo todo aos milhões exigindo ação contra a mudança do clima. Greta foi bastante clara: “vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias. As pessoas estão sofrendo. Pessoas estão morrendo. Ecossistemas inteiros estão entrando em colapso. Estamos no início de uma extinção em massa e tudo o que você pode falar é sobre dinheiro e contos de fadas de crescimento econômico eterno. Como você ousa!”

Tenhamos clareza que falou não por ela, mas por uma geração.

E como sair desse imbróglio? O intenso processo de minimização e difamação do Estado ao longo das últimas décadas fez com que as pessoas não acreditem nos seus governantes. O barômetro da confiança mostra que em apenas 9 de 27 países as pessoas confiam no governo. Curioso notar que alguns desses países são ditaduras.

Os governos foram desacreditados. Estamos vivendo uma crise de confiança! No Brasil apenas 27% das pessoas acham que os líderes dos governos fazem o que é certo, enquanto 66% entendem que o CEO do seu empregador toma as decisões corretas.

Consequentemente, a mesma pesquisa mostra que 90% dos brasileiros e brasileiras esperam que CEOs se manifestem com relação aos desafios da sociedade.

Fazendo as contas dos dados que temos até agora, as empresas foram chamadas à baila para atuarem mais fortemente junto à sociedade.

Está previsto em lei que empresas devem cumprir seu papel social. A pergunta que paira hoje em dia é: qual é esse papel?

A segunda pergunta: é os líderes, conselheiros e executivos, estão preparados para esse desafio?

Senhores, estão preparados? – “senhores” por que o quadro executivo das 500 maiores empresas no Brasil ou da SP500, assim como, dos conselheiros de administração é formado por, aproximadamente, 90% de homens brancos.

Uma pesquisa do Pacto Global das Nações Unidas em parceria com a Russel Reynolds mostra que 92% de mais de 2000 CEOs acreditam que internalizar questões sociais, ambientais e de governança nas empresas é crítico para o sucesso. No entanto, apenas 21% dizem que suas empresas estão sendo efetivas nisso. Temos aqui o que chamamos de lacuna de retorica. Importante, mas não fazem. Isso pode levar a várias conclusões, como, pode ser que falam o que não acreditam ou a falta de preparo para encararem o desafio.

Na interação com CEOs, conselheiros e conselheiras, percebo que há certo reconhecimento da importância de temas ESG, mas ainda não entenderam o novo Zeitgeist. Muitos ainda estão na fase da negação.

Nessa linha, a pesquisa da Russel mencionada acima, aponta que os líderes necessários para essa transição demonstram quatro atributos críticos: Pensamento sistêmico multinível, Inclusão das partes interessadas, Inovação disruptiva e Ativação de longo prazo.

Perfil dos executivos brasileiros traçado por Betania Tanure mostra apenas 7% dos executivos brasileiros dos mais de 500 CEOs analisados são CEO estadista. Esse perfil, segundo sua metodologia, possui capacidade de gerar resultado para o negócio, um olhar para cuidar do time, e uma visão sistêmica de como contribuir para os problemas da sociedade. Estenderia isso aos conselheiros.

Tão conhecido por seus livros de estratégia, o professor Michael Porter, desde os anos 2000 esclarece que empresas precisam atuar mais junto à sociedade, o seu evento foi justamente sobre a transição da economia de acionistas para a economia de stakeholders. Termo insistentemente trazido por Klaus Scwab, fundador do Fórum Econômico Mundial.

Larry Fink, fundador e CEO da BlackRock – empresa com 9 trilhões de dólares sob gestão – comentou sobre a guinada em direção à sustentabilidade que não fez nada de muito inovador senão, escutar a sociedade.

O mesmo porto em Boston foi palco da Festa do Chá, uma rebelião de imigrantes das colônias que entendiam gozar de poucos direitos, e que o produto do seu trabalho servia a um único objetivo: enriquecer a metrópole. Esse é um dos momentos mais importantes na construção do movimento que levou à independência dos EUA.

Não se enganem, também estamos num momento de disrupção. Temos que, como líderes empresariais, escolher o lado da história.

*Carlo Pereira é diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. No Pacto Global da ONU, é membro do Conselho Global das Redes Locais e lidera o Conselho Regional na América Latina e Caribe

Este artigo faz parte de uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac), com publicação periódica. Acesse aqui todos os artigos.

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