Líder de esquema no Banco de Brasília foi indicado ao banco por Rollemberg

Líder de esquema no Banco de Brasília foi indicado ao banco por Rollemberg

Ricardo Luís Peixoto Leal é investigado por supostamente distribuir propinas decorrente de frandes na instituição financeira

Breno Pires e Luiz Vassallo

29 de janeiro de 2019 | 20h14

Rodrigo Rollemberg (PSB) Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADAO

A Procuradoria da República no Distrito Federal apontou, como líder do esquema de corrupção no Banco de Brasília (BRB) desbaratado pela Operação Circus Maximus nesta terça-feira, 29, Ricardo Luís Peixoto Leal, indicado ao órgão em 2015 pelo então governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB).

Os investigadores afirmam que Leal foi tesoureiro da campanha de Rodrigo Rollemberg (PSB) ao governo do DF em 2014, mas o político rebate e afirma que ele não desempenhou sequer função de arrecadador informal.

Leal foi nomeado para o cargo de conselheiro no Conselho de Administração do BRB logo após a posse de Rollemberg, eleito em 2014. Segundo a Procuradoria, ele exercia influência nas nomeações para cargos estratégicos e teria sido responsável por distribuir propina para demais envolvidos no esquema instalado no banco estatal.

Um dos delatores que dão sustentação à investigação, o empresário Ricardo Rodrigues, sócio do Fundo de Investimento Em Participações LSH (FIP LSH), afirmou ter feito um pagamento de R$ R$ 100 mil em espécie para saldar dívidas da campanha ao governo do DF, em 25 de fevereiro de 2015, e outro pagamento de R$ 150 mil foram pagos em momento posterior.

O pedido, segundo ele, partiu de Henrique Domingues Neto, elo entre o BRB e os investidores e empresários. Os R$ 250 mil eram uma contrapartida para que o FIP LSH recebesse um aporte de R$ 3 milhões do Regime Próprio de Previdência Social dos Servidores Públicos do Município de Santos (RPPS-Santos). Esse aporte era para o fundo aplicar em empreendimentos como o Trump Hotel, no Rio de Janeiro, renomeado posteriormente como LSH Lifestyle.

Ricardo Rodrigues contou que o pagamento de R$ 100 mil em espécie para saldar dívida de campanha da eleição de Rollemberg ao governo distrital foi feito no escritório particular de Ricardo Leal, com a presença de Henrique Neto. Ele apresentou um comprovante de passagem aérea para confirmar a data do pagamento, 25 de fevereiro de 2015.

Segundo o MPF, Ricardo Leal e Henrique Domingues Neto, sócio da BIAM DTVM, eram os responsáveis por distribuir a propina para os demais integrantes do esquema criminoso.

Os valores do pagamento de Rodrigues a Leal, segundo a investigação, eram resultado da lavagem de dinheiro feita pela empresa Globomix Serviços de Concretagem LTDA, pelo seu administrador Diogo Rodrigues Cuoco — filho do ator de novelas Francisco Cuoco. Segundo o MPF, a Globomix, fornecedora de cimento, emitiu notas falsas. “Corrobora a ilicitude da operação o fato de que a quantidade de cimento supostamente fornecida para a LSH ser completamente irreal”, diz a Procuradoria.

“Ricardo Luiz Peixoto Leal funciona como estruturador do grupo, sendo o articulador entre a esfera administrativa e a esfera política. Sua posição é de liderança da organização criminosa instalada no banco BRB. Sua prisão é essencial para desarticular essas interfaces internas e externas que, repita-se, serve para outros fins além dos já verificados. Sua relação com a lei é de marginalidade há quase 20 anos por fatos relatados por Lúcio Funaro que remetem ao início da década de 2000”, afirma o Ministério Público Federal no pedido de prisão preventiva.

Segundo investigadores, os depoimentos do operador Lúcio Funaro em colaboração premiada corroboram as acusações feitas por Ricardo Rodrigues. “As informações providas pelos dois (colaboradores) se confirmam mutuamente e possuem lógica interna coerente, oferecendo dados não acessíveis por meios ordinários”.

Lúcio Funaro relatou ter pago US$ 3 milhões a Ricardo Leal no início da década passada, utilizando-se de esquema de doleiros conhecido para repartir propinas.

A partilha foi, inclusive, um ponto que gerou insatisfação entre integrantes do esquema. Segundo investigadores, o presidente licenciado do BRB, Vasco Cunha Gonçalves, descontente, teria atuado diretamente no pedido de propinas e procurou diretamente o empresário Ricardo Rodrigues.

Ricardo Rodrigues disse, aos investigadores, que a extorsão e o pedágio são recorrentes no BRB. “Tudo no BRB é extorquir. Não é depois. Hoje. Qualquer negócio lá tem que ter pedágio. Por isso que o BRB é um banco totalmente – como é que se chama? – inoperante do ponto de vista de mercado. O objetivo lá é cobrar pedágio”, disse o colaborador.

O delator chegou a ser preso em abril de 2018 na Operação Rizoma, no âmbito da Lava Jato do Rio de Janeiro, por ligação com Arthur César de Menezes Soares Filho, o Rei Arthur, e seus empreendimentos. Àquela altura, ele já estava cooperando com a força-tarefa da Operação Greenfield em relação a investigações sobre o BRB em Brasília.

Rodrigo Rollemberg disse, por meio da assessoria de imprensa, que “conhece Ricardo Leal e o indicou para integrar o Conselho de Administração do BRB por suas qualificações técnicas, tanto que à época teve seu nome aprovado pelo Banco Central”. Disse também que “não houve dívida na campanha eleitoral de 2014”. “Todos os serviços contratados foram devidamente quitados antes mesmo da apresentação das contas, as quais foram aprovadas pelo TRE-DF ainda no ano da eleição”. “Durante o período em que governei o Distrito Federal o BRB teve autonomia administrativa e financeira, sem qualquer tipo de intervenção. Ricardo Leal nunca foi tesoureiro de qualquer campanha eleitoral minha”, afirmou, o ex-governador do DF.

Em nota, o PSB-DF disse que apoia toda a investigação realizada pela Polícia Federal e o Ministério Público Federal e aguarda os esclarecimentos dos ex-integrantes da diretoria anterior do BRB. A nota acrescenta que, “na gestão socialista no período 2015/2018, o BRB – como as demais empresas públicas – teve autonomia administrativa e financeira para agir, sempre com base em critérios éticos e de legalidade, sem qualquer interferência do Governo nos negócios e aplicações do Banco”.

A defesa de Ricardo Leal não foi localizada.

O Banco de Brasília disse que apoia e coopera integralmente com todos os órgãos competentes que conduzem a operação deflagrada nesta terça-feira. “O banco informa que a operação corre em segredo de justiça e todas as informações são repassadas exclusivamente às autoridades policiais. O BRB adotará todas as medidas judiciais cabíveis visando preservar o banco e suas empresas controladas”, disse o BRB, em nota.

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