Lições de Tóquio para o universo corporativo

Lições de Tóquio para o universo corporativo

Cesar Souza e Maurício Barros*

08 de agosto de 2021 | 09h00

Martine Grael e Kahena Kunze. FOTO: OLIVIER HOSLET/EFE/EPA

Os esportes são resultado da extraordinária capacidade do ser humano de medir capacidades, testar seus limites com os outros e consigo mesmo e brincar com o próprio corpo. Os Jogos Olímpicos mostram o quão longe temos ido nessa seara lúdica e competitiva. A cada quatro anos, o mundo para duas semanas para apreciar, entorpecido, esse balanço evolutivo. Vamos nadar mais rápido? Levantar mais peso? Saltar ainda mais alto? Fazer mais cestas e gols? Bater novos recordes?

A Olimpíada deste ano é diferente. No passado, guerras impediram três Olimpíadas, boicotes esvaziaram outras duas, atentados, idem. Mas nenhuma das 31 edições anteriores havia acontecido com uma pandemia em curso. Até Tóquio 2020. O Japão viu sua segunda Olimpíada adiada em um ano pela Covid-19, e a emergência sanitária global retirou de estádios e ginásios o público, sua razão de ser. Ver uma final de 100 metros rasos em um estádio olímpico completamente vazio é de uma tristeza cortante.

Sobrou a TV. E eis que, paradoxalmente à distância, nunca estivemos tão dentro da vida dos atletas. As redes sociais os transformaram em produtores incansáveis de conteúdo. Conseguimos conhecer seus quartos, suas camas, seus rituais de treino e preparação. E descobrimos, veja só, que também são humanos.

Tóquio 2020 ficará para sempre como a Olimpíada onde um jogador de vôlei da mais poderosa seleção virou sensação por mostrar-se exatamente como é – atleta, gay e orgulhoso por isso. Tóquio será também a edição onde um atleta de uma poderosa seleção de futebol celebrou seu gol enaltecendo Oxóssi, seu orixá. Onde uma medalhista de levantamento de peso cruza os braços em “x” no pódio em solidariedade a “todos os oprimidos”.

Mais notável ainda é o que aconteceu com quem era tida como a maior estrela dos Jogos: Simone Biles, a super-ginasta americana. No primeiro dia de competições, ela falhou de forma surpreendente na aterrissagem do salto. Logo depois, chocou o planeta ao anunciar sua desistência das provas por problemas emocionais. A Federação de Ginástica dos EUA apoiou sua decisão. Biles só voltaria a competir no último dia, apenas em uma modalidade, na trave, onde conquistou o bronze.

Seu problema foi descrito pela imprensa como “twisties”: perda da noção do espaço durante a execução das acrobacias. Imagine você o risco de ter um apagão durante um salto mortal e, simplesmente, não saber como nem onde vai pousar…

A maneira quase unânime como a opinião pública reagiu, entretanto, também foi notável. A solidariedade para com a ginasta foi tanta que, o que, em outros tempos, seria considerado fraqueza, foi decantado como coragem. Dar um passo atrás, muitas vezes, é a coisa mais certa a se fazer. Ela demonstrou grande sabedoria no quesito autogestão.

Como nunca antes, nos soou tão clara a força do esporte como ecossistema perfeito para refletirmos sobre a natureza humana e seus desafios de uma forma prática e apaixonante. É uma fonte estupenda em ensinamentos para o sucesso individual e coletivo em qualquer atividade profissional. E, certamente, traz inúmeras lições para quem habita o mundo executivo. A essência desses ensinamentos está compilada em nosso livro “Descubra o Craque que há em Você”. Utilizamos casos emblemáticos de várias modalidades, atletas e treinadores, para ilustrar de modo claro e apaixonante as cinco alavancas essenciais para o sucesso na profissão e na vida: Integração, Determinação, Superação, Inovação e Autogestão.

Para nós, brasileiros, estes Jogos de Tóquio já trouxeram uma série de surpresas. Certamente, seus casos vão ilustrar a segunda edição de nosso livro. As provocações já estimulam nossos debates: que lições de superação podemos aprender com o extraordinário feito da brasileirinha-raiz Rebeca Andrade, a primeira atleta nacional a conquistar duas medalhas, ouro e prata na mesma Olimpíada? E com o Alison dos Santos, que sofrera um acidente doméstico aos 10 meses de idade e fez o seu bronze brilhar intensamente nos 400 metros com barreira?

E o que dizer sobre determinação, resiliência e disciplina com a conquista também histórica de duas duplas femininas: a Martine Grael e Kahena Kunze que colocam na bagagem pela segunda vez o ouro na vela; e Luísa Stefani e Laura Pigossi, que ganharam a primeira medalha olímpica do tênis brasileiro?

Podemos citar também as conquistas brasileiras no surfe, no skate, nos 50 metros nado livre e no boxe. O empenho do vôlei masculino e do handebol feminino. A maior tristeza, talvez, seja a eliminação da seleção feminina de futebol, com o adeus da grande Formiga, que deixa a seleção sem levar um título depois de sete olimpíadas – e ainda o outono de Marta, que deixou incerta sua participação em Paris 2024.

Muito ainda está por vir e ser revelado na reta final desta Olimpíada. Fatos que vão suscitar os mais diversos sentimentos em atletas e plateia: alegria, tristeza, êxtase, frustração, solidariedade… O que não é surpresa é a enorme relevância do esporte como universo privilegiado para reflexão e aprimoramento.

*César Souza é CEO do Grupo Empreenda e Maurício Barros é jornalista. Coautores do livro Descubra o craque que há em você (Buzz, 2020)

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