Ler pode não ser fácil, mas é essencial

Ler pode não ser fácil, mas é essencial

Clayton Heringer*

23 de fevereiro de 2021 | 04h30

Clayton Heringer. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Ler é difícil e ponto final e travessão, o resto é nota de rodapé. O homem lá nos primórdios estava cansado de toda vez contar a mesma história daquele dia inesquecível em que sua presa fez a curva errada e no lance de sorte sua seta voou até aquele alce pré-histórico que acertou sem ver. Gosto de pensar que homens das cavernas sabiam se reconhecer como indivíduos e, contou tanto deste dia, que resolveu registrar na parede cavernosa de sua moradia-atelier o causo. Quem perguntasse sobre o ocorrido faria só um gesto com o queixo indicado a pintura na parede.

Assim o alce, na sua evolução, virou história e sua morte é relembrada até hoje. E teve os que leram e aqueles que preferiam a versão contada. Perguntaram a quem leu a obra de Cassesso o que aconteceu e houve interpretações, pois quem leu encontrou várias nuances. Os que não leram apenas ouviram e aceitaram a opinião alheia. Mas todos concordaram que algo havia mudado entre os leitores, estimulando essa tal novidade que chamaram de “reflexão”. Estavam dispostos a passar isso à frente. Fora decidido que seria indispensável para educação dos menores a leitura dessa obra, para que pudessem tirar algum valor e aumentar suas habilidades sociais e de caça.

Um tal Felipe achou que seu neto não ia compreender. Era muito rebuscado os rabiscos para o garoto. Notou que deveria começar com algo de seu gosto. Imagina que agora que nos seus longevos 30 anos, mais velho de sua tribo e perto da morte, ia ficar angustiado que sua posse, a prole, deveria ficar lendo a obra do celebre autor renomado. Era melhor ler na sua fase adulta de 14 anos que tinha mais cabeça para entender. Cassesso estava ultrapassado, era mais de 5 anos desta sua ida, deveriam dar escritores mais atuais e sem tanta dificuldade, pensava Felipe que não caçava, não plantava, nem lia ou escrevia como Cassesso, mas tinha muitos seguidores que achavam graça quando seu irmão mergulhava em óleo de palma.

Os mestres explicaram que além de não ter muita coisa boa para ler – apenas dois ou três autores depois da invenção da escrita – o garoto teria o acompanhamento necessário dos profissionais que leram as obras e poderiam levantar o que eles acabaram de descobrir como debate. Felipe riu e achou que já sabia mais do que esses tais leitores que ofensivamente ele chamava de estudiosos. Ao seu lado tinha a metade da tribo que o acompanha, seus 40 seguidores. Jovens como seu neto que acharam realmente difícil ler e aprender com isso; assim como fazer anzol, calcular a fricção para o fogo. “Por que ler Cassesso nessa terra plana de meus deuses?”, dizia Felipe. Mas a resposta é essa: porque ler não é fácil, mas essencial!

Não é fácil aprender e a juventude é a prova disso: a resistência, as condições precárias nas salas de aulas, a estrutura social… mas seguimos ensinando o que há de melhor!

Cassesso não era o melhor de sua espécie, assim como Machado de Assis. Mas suas obras sempre serão! Machado é reflexivo e por vezes não cabe no post do Twitter. Ler Machado é longo e duro, assim como aprender fórmulas físicas. Ler me fez perceber coisas como essa que ajuízo agora: um dia um youtuber foi brigar com o pastor no Senado. O cavalo fora na sua ida do bem, contra a homofobia e o sexíssimo, louco para dar seus celebres coices que já fazia protegido em casa. Mas foi sem ler, sem base. Nesse dia, na pompa que é destinado ao ginete de crina colorida, decidiu enfrentar ser adversário num território que era confortável ao pastor, a Bíblia. Decorou umas dúzias de passagens contra o homem que lia aquelas Escrituras todos os dias. Não deu outra e o pastor devorou o cavalão citando a Bíblia, veja essa. Vitorioso, o Pastor usou a crina colorida do então antagonista e desfilou em Brasília.

O que faltou talvez ao desafiante é ter lido Machado. Sabido que Bentinho também tinha problemas com Deus e por pouco vira padre. Bentinho é cria de Machado e sabia dar boas respostas, pois Machado leu a bíblia e leu Poe e leu Platão e leu, leu, leu desde criança. O corcel de abate é elite! O educador da periferia que precisa falar de Machado. A periferia tem muitas bíblias e muitos pastores que leem a Bíblia e nenhuma igreja com Machado. A periferia não lê a Bíblia inteira, mas o pastor sim e com isso tem o controle da informação e dita como deve ser interpretado. Mas nas escolas tem Machado e professores que conhecem Machado, mas sem condições necessárias para ensinar Machado.

Então, penso que se temos algum poder de agir é pedindo que o jovem tenha paciência. Ler é difícil, mas os ganhos com isso são incríveis! E vamos combinar que Machado é muito bom. Um morto que narra sua história é demais! Acho que Felipe deveria ter dado uma chance ao seu neto em superar as dificuldades de ler Machado…eita, eu disse Machado, queria dizer Cassesso e para o cavalo apoiar Machado entre seus seguidores. Assim apoiando a educação, a boa leitura! Pois ler não é fácil, todavia de um prazer mental imenso desde a época em que se aprendia nas cavernas.

*Clayton Heringer é produtor artístico da Tocalivros, ator profissional, diretor, produtor, cenógrafo e figurinista

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