Lembranças de uma formatura

Lembranças de uma formatura

Maria Celina de Azevedo Rodrigues*

30 de outubro de 2020 | 06h00

Embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues. FOTO: DIVULGAÇÃO

A imagem de 50 jovens diplomatas recém-formados, em cerimônia sem patrono ou paraninfo – há exatos 50 anos durante a ditadura militar – faz-se bastante forte em minha memória, neste momento em que celebramos o ingresso de uma nova turma de diplomatas no Itamaraty. Apesar de algumas diferenças entre a geração da qual faço parte e a atual, alegro-me em reconhecer na nova turma o mesmo desejo de servir à nação, de defender os interesses do Brasil, assim como o orgulho de representar um País com imenso e reconhecido legado cultural.

Gratificante me é observar as mulheres e os homens que ora ingressam nesta tradicional carreira de Estado, reflexo de uma diversidade brasileira, marcados pela realidade de um país sofrido. Como diplomatas, serão obstinados na busca do desenvolvimento interno e da melhoria da imagem que despertamos no mundo. Inspirados por brasileiros que se destacaram na literatura, na política e na economia, estes jovens ingressam na carreira ávidos por emularem exemplos bem sucedidos ao representarem um Brasil com liberdade de expressão, inovação e respeito aos Direitos Humanos.

Salta aos olhos, contudo, a diferença que separa a minha formatura e a atual. À minha turma não foi dada a possibilidade de escolher patrono ou paraninfo, que pudesse ser invocado como exemplo dos valores que, como diplomatas, deveríamos defender e promover, valores hoje tão bem explicitados no artigo 4 º da Constituição, por mim relembrados em artigo recente.

O patrono ou paraninfo da turma deve, ou pelo menos deveria, inspirar e pautar, como foi feito com grande pertinência, o discurso do orador e o das autoridades presentes . Não foi o que aconteceu . João Cabral de Melo Neto viu sua obra reduzida de maneira simplista. Não houve preocupação em transformar em exemplo sua preocupação com o Brasil, com a justiça social, com o progresso de todos e particularmente com os marginalizados (hoje chamados de “invisíveis”). Não houve a preocupação de sublinhar que, ao promovermos nossas exportações de carne, frango, automóveis, e todo o restante da pauta comercial, não estamos apenas defendendo ou protegendo o dono da fábrica, seus investimentos, mas estamos, acima de tudo, defendendo o emprego de milhares de brasileiros.
Ao promovermos a cultura brasileira em toda sua diversidade, não só exportamos um produto que tem valor econômico, mas, sobretudo, melhoramos nossa autoestima, construímos uma imagem positiva do Brasil e reforçamos nossa contribuição ao mundo. Ao promovermos investimentos e turismo, estamos levando o Itamaraty para o povo, propiciando a inclusão desses mesmos invisíveis pelo viés da criação de emprego. Por meio da nossa rede consular, somos a primeira linha de defesa dos direitos dos nossos concidadãos ao redor do mundo.

Nisto acreditei no dia de minha formatura e continuo acreditando hoje, convicção fortalecida pelos longos aplausos que recebi quando meu nome foi chamado durante a cerimônia de 1970, os quais -estou certa– terão chegado aos ouvidos voluntariamente ausentes de meu pai, que me ensinou a amar a “Carreira”, com letra maiúscula como é devido.

Optou-se por tergiversações e deixou-se de realçar o exemplo do poeta e diplomata João Cabral, no centenário de seu nascimento, para a vida atual, em que a pandemia fez e continua fazendo estragos incalculáveis mundo afora, para além de vidas ou empregos ceifados. Perdeu-se a oportunidade de lembrar aos novos colegas que sua principal função como diplomatas será contribuir ativamente para ampliar e consolidar os “palmos medidos “que cada um dos brasileiros merece, promovendo os interesses do Brasil.

A formatura dos novos egressos do Instituto Rio Branco, que esperava pudesse ser um contraponto àquela de minha turma há 50 anos, órfã de “padrinho” ou patrono, ficará na memória pela mensagem final do orador : “ Na defesa da independência nacional, da prevalência dos direitos humanos e dos demais princípios que regem nossas relações internacionais, devemos sempre unir discurso e ação. É daí que decorrem o prestígio, o respeito e a autoridade que queremos ter diante do resto do mundo. Se tivermos sucesso nessa difícil empreitada, certamente, daremos nossa contribuição, pequena ou grande, para a construção de um Brasil e de um mundo melhores”.

*Maria Celina de Azevedo Rodrigues foi embaixadora do Brasil em Bogotá, chefe da Missão do Brasil junto às Comunidades Europeias e cônsul-geral do Brasil em Paris. Atualmente, é presidente da Associação dos Diplomatas brasileiros

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