Leituras brasileiras

Leituras brasileiras

Luiz Henrique Lima*

31 de maio de 2021 | 07h00

Luiz Henrique Lima. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em artigos anteriores, compartilhei com os leitores uma das minhas mais antigas, duradouras, profundas e avassaladoras paixões: os livros e a leitura. Identifico-me um pouco com Borges, que certa vez confessou que sua ideia de paraíso era uma imensa biblioteca.

Nesses tempos tristes de pandemia e no cenário trevoso da vida pública nacional, a boa leitura, mais que um refúgio seguro e acolhedor, é também uma chama que desperta consciências, aquece esperanças, clareia caminhos e aponta rumos.

Tenho lido muito, até mais do que o habitual. Como sempre, leio de tudo: livros infantis com meu filho, literatura jurídica e econômica para a atividade profissional, livros espíritas e livros sobre esportes, biografias e a indispensável poesia.

Hoje, quero compartilhar algumas leituras recentes, que me impressionaram, não apenas pela qualidade da escrita e das pesquisas que sua elaboração requereu, mas pela capacidade de jogar luz sobre importantes aspectos da realidade brasileira. São obras que, mesmo sem ter essa pretensão explícita, são reveladoras de facetas do drama e dos impasses que vivemos.

Por certo, nenhuma delas é completa. Cada uma trata, com abordagens distintas, de momentos ou de setores diversos de nossa evolução como nação. Mas, tendo-as lido quase que simultaneamente, surpreendi-me com sua complementaridade na composição de um retrato do Brasil. De certa forma, senti-me como num daqueles filmes de mistério com estrutura de quebra-cabeças, em que cada testemunha descreve uma versão dos fatos, em épocas e com personagens próprios, mas o conjunto dos depoimentos traça um enredo coerente. Algo semelhante ao que nas ciências da natureza denominamos “propriedades emergentes”.

O primeiro desses livros é “História da Riqueza do Brasil”, de Jorge Caldeira, uma obra refinada de história econômica, política e de costumes. Reputo-a indispensável para todo homem público, professor ou, simplesmente, cidadão brasileiro interessado em conhecer as origens de alguns de nossos problemas. Sua leitura ajudou-me a rever muitos conceitos arraigados desde os bancos escolares.

A seguir, um livro mais conhecido, de um autor de merecidíssimo sucesso: “Escravidão (volume I)”, de Laurentino Gomes. O talento do jornalista nos conduz por uma jornada épica que está na fundação de nosso país. Com linguagem leve, mas amparado em rigorosa pesquisa, o livro nos surpreende e nos emociona. Creio que o volume II será lançado em breve e serei dos primeiros a buscá-lo.

Os dois seguintes estão mais próximos dos dias atuais e apresentam as entranhas, por vezes pútridas, das engrenagens de poder, sem poupar nenhum dos extremos.

“A Organização”, de Malu Gaspar, relata a história da Odebrecht ao longo de meio século e como o câncer da corrupção tornou-se metástase. Bilhões de reais que corromperam milhares de agentes públicos em diversos países a partir do Brasil, de presidentes e ministros a gerentes de bancos e fiscais de contratos. Estradas, refinarias, aeroportos e estádios esportivos. Muitos personagens de destaque na vida pública são citados, com sólidas evidências de envolvimento com as práticas criminosas minuciosamente descritas.

Um outro lado da moeda, por assim dizer, está em “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso. O autor traça a trajetória da violência urbana no Rio de Janeiro a partir da década de 60 e relata como a violência e a corrupção de pequenos grupos denominados Esquadrões da Morte foram se infiltrando e dominando parcelas crescentes das organizações públicas e da representação política. Descreve como egressos dos porões de tortura da ditadura se tornaram aliados e associados ao crime organizado. E mostra que o fenômeno vai bem além dos morros cariocas. Também aparecem muitos nomes conhecidos e suas estreitas ligações com milicianos e assassinos de aluguel.

Em algumas passagens do livro de Malu, tive nojo; em outras do livro de Bruno, tive medo.

Mas são leituras que recomendo, sem hesitar, para tentar entender o Brasil que vivemos.

*Luiz Henrique Lima é auditor substituto de conselheiro do TCE-MT

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