Lei e pizza

Lei e pizza

Ricardo Viveiros*

10 de julho de 2020 | 11h51

Ricardo Viveiros. Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, 10 de julho, é o Dia Mundial da Lei e, também, o Dia Mundial da Pizza.

O Código de Hamurabi, escrito na Babilônia (antiga Mesopotâmia, hoje Iraque) por volta do ano 1700 a.C., é tido como o mais antigo conjunto de leis da história da humanidade. O objetivo era manter a ordem pública e disciplinar a conduta social do povo.

A criação da escrita permitiu tal avanço na organização da recém criada vida em comum, estabelecendo o que seria certo e errado. No começo só deveres, sem direitos. O crime era punido com outro crime, na base do “olho por olho, dente por dente”. Exemplo de castigo previsto no Código de Hamurabi: “Se um filho espanca seu pai, deve-se decepar as suas mãos” (Artigo 195).

Passados mais de dois séculos, acredita-se que em 1447 a.C., Moisés, profeta hebreu, criaria um dos mais importantes conjunto de leis já escrito: “Os Dez Mandamentos”. Até hoje direcionando a vida de bilhões de pessoas em todo o Planeta.

Lei é para ser cumprida. Quando não é boa ou se torna obsoleta, deve ser extinta ou atualizada. Mas, enquanto vigorar, a lei deve ser obedecida. As punições precisam ser firmes e executadas, caso contrário não há respeito.

Três séculos antes de Cristo, os fenícios, conhecidos como grandes navegadores, já cobriam finas camadas de pão com carne e cebola. Em tempos medievais, turcos e muçulmanos faziam o mesmo. As cruzadas levaram para a Itália, além do derramamento de sangue e dor, o que se tornaria a pizza.

O talento culinário italiano presente em Rafaelle Espósito, por meados do século XIX, acrescentou à massa delgada, até então apenas com simples cobertura, um belo molho de tomates (recém chegados da América, trazidos pelos espanhóis) e ervas finas, regando tudo com puro azeite de oliva. Ele ofereceu a iguaria ao rei Umberto I e à rainha Margherita, que se deliciaram. Tanto que Rafaelle denominou um tipo de pizza, imitando as cores da bandeira italiana, com o nome da monarca.

As leis chegaram ao Brasil com os portugueses, em 1500. E a pizza, com os italianos, na década de 1870.

Hamurabi, rei babilônico, e Rafaelle Espósito, padeiro napolitano, jamais poderiam imaginar que suas criações, milhares de anos depois, iriam se juntar em ação nada legal e muito menos gastronômica dos brasileiros.

Comemorar no mesmo 10 de julho o Dia Mundial da Lei e o Dia Mundial da Pizza, no Brasil não é mera coincidência.

Aqui, infelizmente, o cumprimento da lei muitas vezes “acaba em pizza”…

*Ricardo Viveiros, jornalista, escritor e professor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) e autor, entre outros, dos livros: “A vila que descobriu o Brasil” (Geração), “Justiça seja feita” (Sesi) e “Educação S/A” (Pearson).

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