Lava Jato vê recado de Cunha a PMDB, em contratação de advogado de delatores

Apesar de assombrar o Planalto e a cúpula do partido, possibilidade de acordo com ex-deputado preso por Moro encontra resistência

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo, Julia Affonso e Mateus Coutinho

24 Outubro 2016 | 10h01

Cláudiz Cruz visitou o marido Eduardo Cunha na prisão com advogado Marlus Arns. Foto: RPC/TV Globo

Cláudiz Cruz visitou o marido Eduardo Cunha com advogado Marlus Arns. Foto: RPC/TV Globo

A contratação de um escritório de advocacia especializado em delações premiadas pelo ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – preso preventivamente na quarta-feira, 19, por ordem do juiz federal Sérgio Moro – foi interpretada por investigadores da Operação Lava Jato como um recado ao partido. Após ser preso, na quarta-feira passada, o ex-presidente da Câmara incluiu em sua equipe de defensores o advogado Marlus Arns, que já negociou a colaboração de executivos da construtora Camargo Corrêa.

O PMDB, segundo as denúncias da força-tarefa, é o segundo na linha de comando político do esquema de cartel e corrupção, sistematizado na Petrobrás a partir de 2004, nos governos do PT – que gerou um rombo de mais de R$ 40 bilhões, segundo estimativa da Polícia Federal.

A possibilidade de um acordo de colaboração de Cunha com a força-tarefa assombra o Planalto e a caciques do PMDB, mas enfrentará resistências na Lava Jato. Investigadores – de Curitiba e da Procuradoria Geral da República – consideram que as revelações do peemedebista podem não ser suficientes para justificar uma redução de pena. E parte deles, defende punição exemplar ao investigado.

Com dois anos e meio de apurações, a força-tarefa dá por elucidado o esquema de corrupção e fraudes na Petrobrás, o que reduz as possibilidades de oferta de novos crimes a serem revelados por Cunha em um acordo no processo em que foi preso.

Citado por delatores como recebedor de propinas da Petrobrás, investigadores ouvidos pelo Estadão consideram o papel de Cunha secundário no comando do esquema central de corrupção na estatal.

“Identificamos até aqui indícios muito mais de recebimentos por quase extorsão praticada por ele, do que por sua influência em contratos”, revelou, em reservado, um membro da força-tarefa.

Cunha é acusado na Lava Jato de receber propinas de contrato da Petrobrás na África e em construção de plataformas, via Diretoria Internacional – cota do PMDB, no esquema de fatiamento político da estatal que envolvia ainda PT e PP. Responde ainda por lavagem de dinheiro, ocultação de contas secretas na Suíça e tentativa de obstrução às investigações.

Responsável pela homologação de mais de 50 acordos de colaboração da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro afirmou em palestra, em Curitiba, um dia depois de prender Cunha, que investigações de crimes de corrupção são complexas e muitas vezes “não há como prescindir do auxílio” de criminosos. “Crimes não são cometidos no céu, nem nos conventos, como regra, então não podemos chamar anjos ou freiras como testemunhas desses casos criminais envolvendo a administração pública.”

Para o magistrado, o rastreamento do caminho da propina tem como “regra antiga a utilização de um criminoso como testemunha contra seus pares”. “Preferivelmente um criminoso menor para chegar em um criminoso menor, ou um grande criminoso para vários outros grande criminosos em uma espécie de efeito dominó”, afirmou sem citar nomes.

O lobista Lucio Funaro. Foto: Divulgação

O lobista Lucio Funaro. Foto: Divulgação

Políticos. Ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-líder do PMDB na Casa durante o governo Dilma Rousseff, o potencial de suas revelações teria maior impacto nos repasses de propinas e caixa 2 para parlamentares da bancada e envolver nome de ministros do atual governo, acredita a força-tarefa. Seus segredos, poderiam levar a novas descobertas também sobre pagamentos ilícitos de empresas por projetos e medidas no Congresso.

Cassado por quebra de decoro parlamentar, no dia 12 de setembro, Cunha perdeu o poder, mas mantem relação próxima com o lobista Lúcio Bolonha Funaro – outro risco ao PMDB. Pelo menos 12 membros do partido são alvos de inquéritos e ações penais da Lava Jato – a maior parte, no Supremo Tribunal Federal (STF) por envolver alvos com foro privilegiado. Na lista estão o presidente do Senado, Renan Calheiros, o senador Romero Jucá, o ex-presidente José Sarney e o ex-ministro Edison Lobão.

Se um dia tentar colocar em prática os planos de virar delator, a saída para Cunha será buscar um acordo com a equipe da Lava Jato da Procuradoria Geral da República, responsável pelas acusações contra deputados, senadores e ministros. A relação tempestuosa de Cunha com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e com o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), desde que foi afastado da Câmara, em maio, deve pesar em eventual tratativa de um acordo, em Brasília.

Risco. A prisão de Cunha na quarta-feira, pela Polícia Federal, em Brasília, o risco de uma delação – mesmo que incerta, agora – atemorizou o Congresso e o Planalto. A tensão aumentou quando, um dia depois, o criminalista Marlus Arns se apresentou à imprensa como um dos defensores do mais novo preso do juiz Sérgio Moro.

“Esse tema (delação) não foi discutido, nem está em pauta”, declarou Arns.

Natural de Curitiba, Arns foi responsável pelo acerto dos acordos de colaboração dos empreiteiros Dalton Avancini, Eduardo Leite e Paulo Augusto Santos, da Camargo Corrêa, e do lobista João Bernardi Filho, acusado de operar propinas para a Odebrecht. Nesta sexta-feira, foi o advogado que levou a mulher de Cunha, a jornalista Cláudia Cruz, para vê-lo na cadeia. Ré em outro processo aberto por Moro, ela também passou a ser representada pelo criminalista.

Para lideranças do PMDB, só uma tentativa de livrar a família de uma pena de prisão justificaria a busca de uma delação por Cunha – que disse considerar sua prisão “absurda”.

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