Lava Jato revela como Beto Richa lavou propina de R$ 2,7 mi

Lava Jato revela como Beto Richa lavou propina de R$ 2,7 mi

Rastreamento dos procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná mostra que ex-governador do Paraná adquiriu apartamento em Balnerário Camboriú, terreno em bairro de alto padrão e conjuntos comerciais em Curitiba em nome da Ocaporã Administradora de Bens, formalmente em nome da mulher, Fernanda Richa, e de seus filhos

Igor Moraes, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

25 Janeiro 2019 | 11h13

Beto Richa. FOTO: Denis Ferreira Netto/ESTADÃO

Os investigadores da Operação Integração, fase 58 da Lava Jato, rastrearam como o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB) lavou propina de R$ 2,7 milhões supostamente recebida de concessionárias de rodovias federais durante seu mandato. No pedido de prisão do tucano, os procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal indicam detalhadamente o destino do dinheiro – compra de imóveis de alto padrão em nome da empresa Ocaporã Administradora de Bens.

Nesta sexta, 25, a Polícia Federal prendeu Beto Richa e seu ‘homem de confiança’, o contador Dirceu Pupo Ferreira, por ordem do juiz Paulo Sérgio Ribeiro, da 23.ª Vara Federal de Curitiba.

A Lava Jato descobriu que a Ocaporã, formalmente, está registrada em nome da mulher do ex-governador, Fernanda Richa, e dos filhos do casal, mas, na realidade, era controlada pelo próprio Beto Richa.

Os procuradores apontam evidências de que parte da propina, R$ 142 mil, foi lavada mediante depósitos feitos diretamente em favor da Ocaporã.

O restante dos recursos, aproximadamente R$ 2,6 milhões, foi lavado pelo ex-governador com o auxílio do contador Pupo Ferreira, por meio da aquisição de imóveis, diz a Lava Jato.

“Os bens foram comprados com propinas e colocados em nome da empresa Ocaporã Administradora de Bens”, afirma a Procuradoria.

Para ocultar a origem ilícita dos recursos, Pupo solicitava aos vendedores dos imóveis que lavrassem escrituras públicas de compra e venda por um valor abaixo do realmente pactuado entre as partes.

A diferença entre o valor da escritura e o acordado era paga em espécie, de forma oculta, com propinas, afirma a Procuradoria.

Os investigadores rastrearam pelo menos três imóveis pagos em espécie pelo contador em favor da Ocaporã.

E-mails apreendidos durante a investigação comprovaram que Beto Richa tinha a palavra final sobre as atividades da empresa relacionadas à compra e venda de imóvel.

Em 20 de outubro de 2010, Beto Richa comprou – via Ocaporã – apartamento em Balneário Camboriú pelo valor declarado de R$ 300 mil, que foi pago integralmente em espécie por Pupo Ferreira ao vendedor de forma parcelada durante o ano de 2011. O laudo de avaliação do apartamento demonstrou que o imóvel valia na época R$ 700 mil O vendedor reconheceu o recebimento de R$ 300 mil adicionais ‘por fora’, em espécie.

Em 31 de outubro de 2012, o tucano fez a aquisição de um terreno no bairro Santa Felicidade, em Curitiba. O valor real de venda era de R$ 1,93 milhão. Na escritura, a aquisição foi declarada por R$ 500 mil, correspondentes a uma suposta permuta com dois lotes em Alphaville.

O vendedor reconheceu que, além dos lotes dados como parte do pagamento, o ‘homem de confiança’ de Beto Richa entregou R$ 930 mil em espécie, que foram ocultados nos documentos da transação. Posteriormente, o mesmo imóvel foi vendido pela empresa da família Richa por R$ 3,2 milhões.

A terceira transação comercial com o dinheiro da propina supostamente recebida pelo ex-governador ocorreu em 12 de novembro de 2013. Sempre por meio da Ocapoprã, Richa adquiriu conjuntos comerciais no Edifício Neo Business em Curitiba, com valor declarado de R$ 1,8 milhão na escritura pública, mas que, segundo o corretor que intermediou o negócio, contou com o pagamento de R$ 1,4 milhão adicionais ‘por fora’, que foram ocultados.

COM A PALAVRA, A ADVOGADA ANTONIA LELIA NEVES SANCHES, QUE DEFENDE BETO RICHA

A defesa de Carlos Alberto Richa esclarece que:

Os fatos que conduziram à prisão do ex-Governador são antigos. Sobre eles, todos os esclarecimentos foram por ele devidamente esclarecidos, não restando qualquer dúvida quanto à regularidade de todas as condutas praticadas, no exercício de suas funções.

Mais do que isso. Os fatos ora invocados já foram anteriormente utilizados, na decretação das medidas cautelares expedidas contra o ex-Governador. Cumpre registrar que o Supremo Tribunal Federal, ao julgar referidas medidas, reconheceu a flagrante ilegalidade na ordem prisão decretada.

Na realidade, a prisão requerida pelo Ministério Público Federal afronta o quanto decidido pelo Supremo Tribunal Federal, com o evidente objetivo de desrespeitar os julgamentos proferidos pela Suprema Corte, sobre o tema.

No mais, o pedido se lastreia em ilações do MPF, exclusivamente suportadas em falsas e inverídicas informações prestadas em sede de colaboração premiada, por criminosos confessos.

Em síntese, a prisão se baseia em fatos absolutamente requentados, carentes de qualquer comprovação e sobre os quais o Supremo Tribunal Federal já decidiu, no sentido de que os mesmos não justificam a decretação de prisão.

A defesa confia que o Poder Judiciário reverterá a ordem de prisão, que não atende a qualquer dos pressupostos exigidos em.

COM A PALAVRA, EDUARDO SANZ, QUE DEFENDE FERNANDA E ANDRÉ RICHA

“A operação federal desencadeada hoje baseia-se em fatos antigos e já esclarecidos na investigação estadual do GAECO. Há evidente conflito entre as duas investigações que versam sobre os mesmos fatos. A empresa OCAPORÃ não é, nem nunca foi, administrada formal ou informalmente por Carlos Alberto Richa. Não há qualquer fato que ligue a empresa OCAPORÃ ou seus sócios a qualquer fato ilícito sob investigação. Fernanda e André Richa estão, como sempre estiveram, à disposição da justiça, do Ministério Público e da polícia. É notório, inclusive, que ambos já prestaram depoimentos e responderam a todos os questionamentos que lhes foram feitos”.

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