Lava Jato investiga Wassef por repasses e lavagem de R$ 2,6 milhões em recursos desviados da Fecomércio do Rio; advogado diz que delator mente

Lava Jato investiga Wassef por repasses e lavagem de R$ 2,6 milhões em recursos desviados da Fecomércio do Rio; advogado diz que delator mente

O Ministério Público Federal identificou repasses de ao menos R$ 2,6 milhões feitos em benefício do escritório de Wassef por parte de um outro escritório de advocacia que teria desviado cerca de R$ 4,4 milhões do Senac e do Sesc do Rio, entre dezembro de 2016 e maio de 2017

Pepita Ortega, Rayssa Motta, Fausto Macedo e Ricardo Galhardo

09 de setembro de 2020 | 10h25

Foto: Reprodução/MPF

Ao pedir a expedição de mandados de busca e apreensão contra dois endereços ligados ao advogado Frederick Wassef, a força-tarefa da Lava Jato no Rio apontou fortes elementos da prática de atos de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-defensor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) no caso das rachadinhas e dinheiro desviado da Fecomércio. O Ministério Público Federal identificou repasses de ao menos R$ 2,6 milhões feitos em benefício do escritório de Wassef por parte de um outro escritório de advocacia que teria desviado cerca de R$ 4,4 milhões do Senac e do Sesc do Rio, entre dezembro de 2016 e maio de 2017.

Ex-advogado de Flávio é um dos alvos da Operação E$quema S, deflagrada pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pela Receita para investigar suposta estrutura irregular de pagamento a escritórios de advocacia e possíveis desvios de até R$ 355 milhões entre 2012 e 2018 das seções fluminenses do Serviço Social do Comércio (Sesc-RJ), do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-RJ) e da Federação do Comércio (Fecomércio/RJ). Em meio ao fogo cerrado que ameaça sua estrutura e seu futuro, a Lava Jato dá seu passo mais audacioso dos últimos tempos. A Operação E$quema S é uma ofensiva arrojada que mira advogados que detêm currículos importantes, sobretudo em Brasília, e que carregam no sobrenome suas maiores credenciais, filhos de ministros de tribunais.

No caso de Wassef, a Procuradoria solicitou autorização para diligências em endereço ligado ao advogado em São Paulo e ainda em seu escritório em Atibaia – local onde o ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, apontado como suposto operador financeiro do esquema de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro enquanto deputado estadual no Rio, foi preso no âmbito da Operação Anjo.

O advogado Frederick Wassef, defensor do presidente Jair Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Na representação enviada ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, a Lava Jato fluminense apontou que entre dezembro de 2016 e maio de 2017, foram desviados ao menos R$ 4.475.000,00 da Fecomércio do Rio e seus órgãos subordinados (Sesc e Senac), mediante pagamentos de honorários advocatícios ao escritório da advogada Luiza Eluf – ex-procuradora do Ministério Público de São Paulo e ex-subprefeita do bairro da Lapa, na capital paulista -, por serviços que efetivamente não foram prestados. “Os elementos colhidos até o momento revelam repasses sequenciais de tais recursos a Márcia Zamperon e Frederick Wassef, ocultando a sua origem e distanciando o dinheiro de sua origem ilícita”, apontaram.

Segundo o delator Orlando Santos Diniz, ex-presidente da Fecomércio, o escritório contratado no caso, Eluf Santos Sociedade de Advogados foi, na verdade, uma maneira dissimulada de contratar Wassef. O primeiro foi o ‘recebedor ostensivo do dinheiro’ e ocultou ‘os reais proprietários dos valores, em típica atividade de lavagem de capitais’, segundo os procuradores.

“Tão logo os valores relativos a honorários advocatícios devidos pela Fecomércio/SESC/SENAC RJ foram depositados na conta de escritório ELUF, a maior parte deles foi reiterada e sequencialmente destinada a duas principais contrapartes: o escritório Wassef &Sonnerburg Sociedade de Advogados e Marcia Carina Castelo Branco Zampiron”, frisou a força-tarefa da Lava Jato.

A Procuradoria da República fluminense ainda apontou que entre janeiro de 2015 e abril de 2017 – abrangendo período em que foram realizadas as transferências do Eluf Santos Sociedade de Advogados vinculadas aos desvios da Fecomércio do Rio – , o escritório de Wassef recebeu mais de R$ 4 milhões de empresas ligadas a Maria Cristina Boner Leo, sua ex-mulher que, até mês passado, defendia e prestava consultorias à família Bolsonaro. Segundo os procuradores, tais movimentações indicam que ‘o uso de pessoa interposta para recebimento de valores por Wassef mostra-se como prática reiterada e forma de atuação para prática de lavagem de dinheiro’.

Em nota divulgada na tarde desta quarta-feira, Wassef disse que  Orlando Diniz foi orientado por advogados a mentir em delação premiada sobre sua participação na estrutura investigada pela operação E$quema S. ‘Denunciei no ano passado a uma autoridade pública o esquema e uma engenharia criminosa que estava sendo montada para usar o delator para me atingir e já existe uma investigação em curso apurando tais fatos’, disse o advogado em nota sem, no entanto, informar qual é a autoridade mencionada.

Wassef diz ainda que Diniz foi orientado por advogados a mentir para favorecer um outro ‘cliente em comum’ mas também não diz que seria este cliente. ‘O delator Orlando Diniz está deliberadamente mentindo a meu respeito a mando de advogados inescrupulosos que estão usando-o como míssil teleguiado para me atingir visando atender o interesse de um outro cliente em comum’, diz o texto.

A residência de Wassef no bairro do Morumbi e os escritórios dele em São Paulo e Atibaia – Fabrício Queiroz foi preso em junho – foram alvo de busca e apreensão nesta quarta-feira. O advogado disse que nada foi apreendido e negou ter prestado qualquer serviço para a Fecomércio-RJ.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FREDERICK WASSEF

“No dia de hoje foi cumprido um mandado de busca e apreensão em minha residência no Morumbi assustando meus pais idosos que moram comigo e não podem ter contato com ninguém pela questão da pandemia . Nenhuma irregularidade foi encontrada e, por consequência, não houve a apreensão de nada . O mesmo se sucedeu em meu escritório de advocacia: nada foi apreendido.

Não fui denunciado como os demais advogados e nada tenho que ver com nenhum esquema de Fecomércio . Jamais fui contratado pela Fecomércio ou recebi pagamentos desta entidade . Fui contratado por um renomado escritório de advocacia criminal de São Paulo que tem como dona uma conhecida procuradora do Ministério Público de SP e que sua biografia é um exemplo de integridade , retidão e honestidade, além de ter dedicado sua vida no combate ao crime como atuante promotora e procuradora de justiça que foi .

Todos os meus serviços , de todos os clientes, foram prestados. Meus honorários foram declarados à Receita Federal e todos os impostos pagos na totalidade . Após dois anos e meio de investigação não fui denunciado . Jamais em minha vida pratiquei qualquer irregularidade e nunca fui investigado ou respondi a qualquer processo . Sou aprovado pelo rigoroso compliance de todos os Bancos e de meus clientes .

O delator Orlando Diniz está deliberadamente mentindo a meu respeito a mando de advogados inescrupulosos que estão usando-o como míssil teleguiado para me atingir visando atender o interesse de um outro cliente em comum.

Denunciei no ano passado a uma autoridade pública o esquema e uma engenharia criminosa que estava sendo montada para usar o delator para me atingir e já existe uma investigação em curso apurando tais fatos.”

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