Lava Jato investiga se delator-bomba da Petrobrás omitiu crimes

Lava Jato investiga se delator-bomba da Petrobrás omitiu crimes

Operação Sem Limites, fase 57, aponta propinas a executivos da gerência de Marketing e Comercialização da estatal, subordinada à Diretoria de Abastecimento, chefiada entre 2004 e 2012 pelo engenheiro Paulo Roberto Costa - primeiro colaborador que entregou deputados e senadores, mas pode ter ocultado outros detalhes do esquema

Jullia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

05 Dezembro 2018 | 12h45

Costa é o primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O delegado de Polícia Federal Filipe Hille Pacce afirmou nesta quarta-feira, 5, que a Operação Lava Jato apura se o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, o primeiro delator da investigação, omitiu fatos relativos a outros capítulos do esquema de corrupção e cartel na estatal. A Operação Sem Limites, fase 57 da Lava Jato, investiga gigantes do mercado internacional de petróleo por suspeita de pagamento de propinas milionárias a executivos da Petrobrás em troca de vantagens na aquisição de derivados.

“O curioso é que o Paulo Roberto Costa não narrou esse esquema no momento da sua colaboração. Se tivermos indícios de omissões dolosas, terá que haver talvez alguma medida contra ele, ouvido novamente. É uma questão que vai ser objeto de diligência aqui nesta investigação”, declarou o delegado da PF.

Entenda a nova fase da Lava Jato

Paulo Roberto Costa chefiou a diretoria de Abastecimento entre 2004 e 2012.

O engenheiro foi o primeiro delator-bomba da Lava Jato. Em março de 2014, quando a grande operação saiu às ruas pela primeira vez, ele foi preso por ordem do então juiz federal Sérgio Moro. Os investigadores descobriram US$ 23 milhões de Paulo Roberto em contas na Suíça.

Em agosto de 2014, ele firmou acordo de colaboração e revelou bastidores do esquema de lavagem de dinheiro e corrupção na Petrobrás. Apontou nomes de deputados e senadores que teriam recebido propinas.

“Eventualmente, se caracterizada a omissão dolosa em relação a esse ponto, ele perde os benefícios do acordo. Isso será apurado, aprofundado nas investigações e as medidas, se necessárias, serão adotadas”, afirmou o procurador da República, Athayde Ribeiro Costa.

A Lava Jato 57 suspeita que, entre 2011 e 2014, as empresas Vitol, Trafigura e Glencore pagaram propinas para intermediários e funcionários da Petrobrás nos montantes, respectivamente, de US$ 5,1 milhões, US$ 6,1 milhões e US$ 4,1 milhões, relacionadas a mais de 160 operações de compra e venda de derivados de petróleo e aluguel de tanques para estocagem. A Sem Limites apura o pagamento total de pelo menos US$ 31 milhões em propinas para funcionários da Petrobrás, entre 2009 e 2014.

Os investigadores da Lava Jato afirmam que os subornos beneficiavam funcionários da gerência executiva de Marketing e Comercialização, subordinada à diretoria de Abastecimento. Segundo o Ministério Público Federal, as operações de trading e de locação que subsidiaram os esquemas de corrupção foram conduzidas pelo escritório da Petrobrás em Houston, no estado do Texas, EUA, e pelo centro de operações no Rio de Janeiro.

As maiores traders de petróleo do mundo optaram por não comentar as suspeitas que pairam sobre as companhias.  Procurada pelo Estado, a Trafigura indicou que “não comenta assuntos legais” e disse não ter nada a dizer ao ser questionado se ela foi alvo de buscas também na Suíça. A Glencore indicou também apontou que, por enquanto, não teria nada a dizer.

A reportagem está tentando localizar os citados. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO JOÃO MESTIERI, QUE DEFENDE PAULO ROBERTO COSTA

“O Sr. Paulo Roberto Costa narrou de forma ampla e irrestrita todos os fatos dos quais teve conhecimento, sendo inquestionável a total eficácia da sua colaboração.

João Mestieri”

COM A PALAVRA, A PETROBRÁS

COM A PALAVRA, A PETROBRÁS

A Petrobras reafirma e reforça sua tolerância zero em relação à fraude e à corrupção. A deflagração da 57ª Fase da Operação Lava Jato, nesta quarta-feira, é mais uma clara demonstração da estreita e constante cooperação da companhia com as autoridades. Especificamente no caso desta fase da investigação, as equipes do Jurídico e da área de Apuração de Denúncias da companhia, com apoio de outras áreas da empresa, forneceram informações que serviram e continuarão a servir de subsídios, tanto para as investigações da Polícia Federal, quanto para as do Ministério Público Federal, nos processos penais dos indivíduos implicados e na responsabilização das empresas envolvidas.

A Petrobras continuará a atuar como assistente de acusação e a cooperar com as investigações em curso conduzidas pela PF e pelo MPF, fornecendo toda a informação e documentação necessárias, como ocorre nesta nova fase da Operação Lava Jato. A Petrobras tem sido reiteradamente reconhecida, tanto por autoridades brasileiras quanto no exterior, como vítima dos malfeitos descobertos pelas investigações da Força Tarefa. Por este motivo, já conseguiu recuperar mais de R$ 3 bilhões desviados.

A Petrobras trabalha intensamente para prevenir desvios, e, se houver, para que sejam detectados no menor prazo possível. A despeito de eventuais indivíduos que insistem em desrespeitar regras e normas, burlando controles internos e utilizando infraestrutura alheia à companhia para obter vantagens pessoais, a companhia tem empenhado todos os esforços para aperfeiçoar seus controles internos e seu programa de Compliance, com o objetivo de identificar eventuais irregularidades e promover punições, quando necessário.

Confirmando sua política de tolerância zero, os empregados contra quem existem fortes evidências de envolvimento em irregularidades apuradas no âmbito da 57ª Fase da Operação Lava Jato foram demitidos na data de hoje, por justa causa. Paralelamente, a companhia está em contato com as autoridades e já iniciou um profundo trabalho de análise das informações constantes das investigações nesta etapa da operação. Uma equipe interna, com membros seniores das áreas de Auditoria e de Apuração de Denúncias, incluindo o líder de cada uma dessas áreas, foi destacada para investigar o caso e identificar as causas raiz das irregularidades cometidas, para tomar as ações corretivas e preventivas o mais rapidamente possível.

Com base nas informações prestadas até o momento pelas autoridades, a organização criminosa responsável pelos ilícitos identificados na 57ª fase da Operação Lava Jato utilizou-se de artifícios para evitar sua detecção. Isto reforça a importância do trabalho conjunto da companhia com a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, a Corregedoria Geral da União, o Tribunal de Contas da União e demais autoridades de segurança pública e órgãos de controle, favorecendo a detecção de desvios, da fraude e da corrupção.

A partir das evidências constantes das investigações das autoridades, a Petrobras promoverá nova avaliação para revisão do Grau de Risco de Integridade (GRI) das empresas implicadas e, onde se fizer necessário, e de acordo com seu processo de Due Diligence de Integridade, reclassificá-las.