Lava Jato investiga corrupção em ‘área de influência’ de senador do PMDB na BR Distribuidora

Lava Jato investiga corrupção em ‘área de influência’ de senador do PMDB na BR Distribuidora

Inquérito foi aberto com base na delação do ex-diretor financeiro da subsidiária da Petrobrás Nestor Cerveró, que atribui a Valdir Raupp indicação de fornecedoras do setor

Julia Affonso e Ricardo Brandt

05 de outubro de 2016 | 05h05

Valdir Raupp foi citado na Lava Jato. Foto: André Dusek/Estadão

Valdir Raupp foi citado na Lava Jato. Foto: André Dusek/Estadão

A Operação Lava Jato abriu inquérito para investigar suposto esquema de corrupção na BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás. A Polícia Federal apura se houve irregularidades na contratação de empresas pela área de Tecnologia da Informação.

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A investigação tem base na delação premiada do ex-diretor da Petrobrás (Internacional) e ex-diretor financeiro da BR, Nestor Cerveró. Ele afirmou que o senador Valdir Raupp (PMDB/RO) tinha influência na indicação de fornecedores da área de TI da subsidiária da estatal petrolífera.

Neste novo inquérito, Raupp não é investigado porque detém foro privilegiado perante o Supremo Tribunal Federal.

“Instaurar Inquérito Policial para apurar possível ocorrência dos delitos previstos nos artigos 317 e 333 do Código Penal, dentre outros, tendo em vista o contido no Termo de Colaboração nº 18 de Nestor Cuñat Cerveró o qual trata de esquema de corrupção na contratação de empresas de Tecnologia da Informação pela BR Distribuidora”, determinou o delegado federal Roberto Biasoli, em Portaria de 19 de setembro de 2016.

Documento

O depoimento de Cerveró, anexado ao novo inquérito, foi dado em 8 de dezembro de 2015.

Cerveró relatou à Lava Jato que assumiu o setor financeiro da BR em 2008 e que ‘a gerência de TI havia sido recentemente colocada’ em sua diretoria.

Segundo o delator, as áreas de sua diretoria eram a de Tecnologia da Informação (TI), contabilidade, tributária e financeira.

Cerveró declarou que a área de TI é ‘fundamental na BR e qualquer paralisação do sistema na BR para a empresa’.

“Sabia que havia empresas contratadas pela BR, na área de TI, que eram mandadas pelo senador Valdir Raupp”, afirmou Cerveró. “Sabe que há uma pessoa chamada Itamar que seria o operador do Raupp na área de TI da BR.”

O ex-diretor da BR e da Petrobrás apontou Nelson Cardoso à Lava Jato, em 2012 gerente executivo da subsidiária. “Nelson recebia propina dos contratos de TI e acertava com Itamar a parte que caberia a Valdir Raupp.”

Cerveró declarou que ‘sabia disso pela maneira que Nelson agia e porque algumas vezes havia algumas situações que indicavam isso’, mas que nunca quis entrar no ‘mérito da propina em varejo’.

O delator disse que achava que não ‘valeria e pena’ enfrentar um problema por ‘RS 20 mil ou R$ 30 mil’.

De acordo com o executivo, ‘eram dezenas de empresas contratadas pela área de TI da BR’ indicadas entre 2008 e 2014.

“No período todo em que o declarante ficou lá na diretoria da BR, Nelson sempre foi o gerente executivo da área de TI; que o declarante conheceu o Itamar, o intermediário de Valdir Raupp; que Itamar era alto, tinha trinta e poucos anos; que Itamar frequentava a BR Distribuidora; que ele era magro, compridão”, relatou Cerveró.

O delator contou ainda que Valdir Raupp recorreu ao então ministro de Minas e Energia Edison Lobão para evitar a demissão do seu afilhado Nelson Cardoso.

Segundo Cerveró, em 2012, o então presidente BR Distribuidora José Lima de Andrade Neto teria demonstrado ‘interesse’ em substituir Cardoso, mas foi ‘forçado a mantê-lo por determinação’ de Lobão, que estaria sendo ‘pressionado’ por Raupp.

Em outra investigação, em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), Valdir Raupp foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República pelo suposto recebimento de propina de R$ 500 mil desviados de contratos da Petrobrás.

O senador, que desfruta de foro privilegiado perante a Corte máxima, é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

Segundo informações das delações premiadas do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa (Abastecimento) e do doleiro Alberto Youssef, o dinheiro chegou aos cofres da campanha do peemedebista por meio de uma doação legal feita pela construtora Queiroz Galvão e pela Vital Engenharia.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO SENADOR VALDIR RAUPP (PMDB/RO)

Por meio de sua assessoria de imprensa, o senador Valdir Raupp (PMDB/RO) negou indicação de fornecedores à área de TI da BR Distribuidora.

“O senador Valdir Raupp informa que jamais indicou empresas de tecnologias da informação para prestação de serviços na BR Distribuidora. São acusações infundadas que fazem parte da chamada ‘indústria da delação’ que se instalou no país.

Brasília 04 de Outubro de 2016

Senador Valdir Raupp”

COM A PALAVRA, A BR DISTRIBUIDORA

NOTA

Em  resposta ao “Estado de S. Paulo”, a Petrobras Distribuidora informa que
colabora  com  investigações  da Operação Lava-Jato e que está à disposição das  autoridades  para  fornecer  quaisquer  informações sobre os contratos
citados.