Lava Jato denuncia Dr. Helio, ex-prefeito de Campinas

Lava Jato denuncia Dr. Helio, ex-prefeito de Campinas

Investigadores apontam que político do PDT, que foi apoiado pelo PT em 2004, teria recebido para sua campanha recursos obtidos pelo Partido dos Trabalhadores por meio de um empréstimo do Banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai que teria sido destinado à sigla

Mateus Coutinho, Ricardo Brandt e Julia Affonso

18 de outubro de 2016 | 20h11

O ex-prefeito de Campinas Hélio de Oliveira Santos

O ex-prefeito de Campinas Hélio de Oliveira Santos

Os procuradores que integram a força-tarefa Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba apresentaram, nesta terça-feira, 18, denúncia contra o ex-prefeito de Campinas (SP) Helio de Oliveira Santos, também conhecido como Dr. Helio (PDT); o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares; o ex-presidente do Banco Schahin Sandro Tordin; os publicitários Giovane Favieri e Armando Peralta e o empresário Natalino Bertin.

Eles são acusados de lavagem de dinheiro envolvendo cerca de R$ 4,2 milhões, provenientes de um empréstimo fraudulento no valor total de R$ 12 milhões, concedido formalmente em outubro de 2004  pelo Banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai, mas que foi, de fato, para o pagamento de dívidas do Partido dos Trabalhadores, segundo a Lava Jato.

A denúncia é um desdobramento das investigações sobre a operação financeira, que já rendeu duas ações penais na Lava Jato. Desta vez, a força-tarefa identificou que parte dos R$ 12 milhões teria sido utilizada para quitar gastos de campanha do então candidato à prefeitura de Campinas Dr. Helio, em 2004. Apesar de ser do PDT, naquele ano ele foi apoiado pelo PT após o nome da sigla ser derrotado na disputa e, segundo a Lava Jato, parte dos recursos obtidos pelo partido via Bumlai fora usados para pagar empresas de publicidade que prestaram serviços para Dr. Helio no segundo turno das eleições.

O empréstimo no Banco Schahin nunca foi pago por Bumlai, sendo que como contrapartida a Schahin obteve um contrato de US$ 1,6 bilhão para operação de um navio-sonda da Petrobrás. Esta operação já rendeu a Bumlai uma condenação de nove anos e 10 meses de prisão por gestão fraudulenta de instituição financeira e corrupção.

Caminho do dinheiro. A partir das investigações, a força-tarefa identificou que após a liberação do empréstimo, Bumlai começou a repassar os valores aos beneficiários finais por meio de operações que tinham por objeto ocultar a origem ilícita do dinheiro. Para isso, teria contado com a cooperação de Natalino Bertin, que emprestou as contas interpostas do Frigorifico Bertin para dificultar o rastreamento do destino final do dinheiro, já que esta empresa movimentava elevadas quantias em negócios lícitos.

Do Frigorífico Bertin, aponta a Lava Jato, metade dos valores,seguiram para a Remar Agenciamento e Assessoria Ltda, de Oswaldo Rodrigues Vieira Filho, empresário do Rio de Janeiro que teria se incumbiu de direcionar o valor ao empresário de Santo André Ronan Maria Pinto, episódio já denunciado pela força-tarefa, em abril de 2016 e atualmente sob julgamento do juiz Moro.

Outra parte dos valores, segundo o MPF teria sido direcionada pelo Frigorífico Bertin a credores do Partido dos Trabalhadores. Nesse contexto, a empresa Núcleo de Desenvolvimento de Comunicação (NDEC), pertencente a Peralta e Favieri, recebeu R$ 3.405.000,00.  O pagamento foi como contraprestação pelos serviços prestados a Helio de Oliveira Santos (PDT), mais conhecido como Dr. Hélio, no segundo turno da campanha a prefeito de Campinas em 2004.

Naquele ano, Dr Helio foi o candidato apoiado pelo Partido dos Trabalhadores após a derrota do candidato oficial da sigla, Eustáquio Luciano Zica,  no primeiro turno. Houve ainda a destinação de R$ 500 mil para pagamento da empresa Omny Par Empreendimentos Consultoria e Partcipações, que era credora dos publicitários Giovane Favieri e Armando Peralta.

Proveniente do mesmo empréstimo do Banco Schahin, o valor de R$ 95 mil teria sido usado para pagamento da King Graf, também por serviços prestados ao Partido dos Trabalhadores na campanha de 2004. Outra parcela, de R$ 150 mil, foi utilizada para pagamento de honorários do advogado de Laerte Arruda Correa Júnior, empresário relacionado a Delúbio Soares, então detido na operação Vampiro.

Uma parcela dos valores obtidos por Bumlai, de aproximadamente R$ 1,8 milhão, segue sem destino conhecido.

Outras denúncias relacionadas. A primeira denúncia de gestão fraudulenta do Banco Schahin pelo empréstimo a Bumlai foi apresentada em dezembro de 2015. Já a acusação de lavagem de dinheiro de outra parcela do mesmo mútuo, de cerca de R$ 6 milhões, que teve o empresário Ronan Maria Pinto como destinatário final, foi oferecida em abril de 2016. A denúncia apresentada agora é, justamente, um desdobramento dos fatos apurados anteriormente.