Lava Jato apura propina de Duque na Diretoria de Internacional

Lava Jato apura propina de Duque na Diretoria de Internacional

Investigadores receberam documento de Mônaco que apontam movimentação bancária suspeita entre offshore de ex-diretor de Serviços da Petrobrás com suposto 'sócio' de Jorge Zelada

Redação

08 de julho de 2015 | 05h24

Renato Duque (à esq.) e Fernando Baiano. Fotos: André Dusek/Estadão e Geraldo Bubniak/AGB

Renato Duque (à esq.) e Fernando Baiano. Fotos: André Dusek/Estadão e Geraldo Bubniak/AGB

Por Fausto Macedo, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

Investigadores da Operação Lava Jato acreditam ter encontrado pistas do suposto recebimento de US$ 2 milhões pelo ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque – cota do PT no esquema de desvios da estatal – em contratos fechados na Diretoria de Internacional – cota do PMDB.

Em 2011, uma offshore controlada por Duque, a Milzart Overseas Holdings Inc., recebeu US$ 2 milhões de outra offshore do empresário Raul Schmidt Fellipe Junior – espécie de “sócio” do ex-diretor de Internacional Jorge Zelada – preso na 15ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Conexão Mônaco.

A descoberta teve com base documentos fornecidos pelas autoridades do Principado de Mônaco, onde foram congeladas contas dos ex-diretores de Internacional Jorge Zelada e de Serviços Renato Duque, com 11 milhões de euros e 20 milhões de euros, respectivamente.

Zelada é suspeito de ter recebido propina em dois contratos de navios-sondas assinados em 2008 e 2009, com empresas internacionais, o ENSCO DS-5 e o Titanium Explorer.

O esquema seria continuidade dos acertos de corrupção adotados por seu antecessor da diretoria, Nestor Cerveró, com ajuda do lobista Fernando Antonio Falcão Soares, e Fernando Baiano – ambos braços do PMDB e presos em Curitiba – em dois contratos de 2006 e 2007, em que houve pagamento de US$ 3o milhões de propina, segundo a Lava Jato.

Caminho. Os valores que teriam chego a Duque transitaram por uma conta de Raul Schmidt, a Goodal Trade Inc, e depois pela conta Judas Azuelo, também do “sócio” de Zelada.

Seguindo a trilha do dinheiro, os investigadores chegaram a ligação entre Raul Schmidt e Duque. A movimentação bancária envolveu ainda um contrato de mútuo entre as offshores e a devolução de valores, informa o MPF.

Os valores teriam relação com um contrato de comissionamento envolvendo os navios- sonda. “No dia 15 de abril de 2011, a Samsung depositou US$ 3 milhões na conta bancária da Goodall do Banco Julius Baer de Mônaco. Na sequência, em 27 de abril de 2011, a Goodall transferiu U$ 4 milhões para Judas Azuelo, identificado como sendo um empresário francês”, informa a força-tarefada da Lava Jato.

“A transferência da Goodall em favor de Judas Azuelos foi legitimada em um contrato de mútuo firmado entre a Goodall e Judas no dia 26 de abril de 2011.”

As autoridades de Mônaco informaram que “logo em seguida”, no dia 26 de junho, a “Judas Azuelos depositou U$ 2 milhões na conta do Julius Baer de Mônaco da offshore panamenha Milzart, cujo beneficiário econômico final era o ex-diretor da área de serviços da Petrobrás”.

O MPF descreveu a triangulação financeira ao juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato – da seguinte forma, ao pedir a de prisão de Zelada e o bloqueio de USS 7 milhões de Raul Schmidt. “Em suma, a Samsung transferiu U$ 3 milhões para Raul Schmidt Fellipe que recebeu por intermédio da offshore Goodall. Esta empresa transferiu U$ 4 milhões a Judas Azuelos a título de um contrato simulado de mútuo.”

“Judas, por sua vez, certamente atendendo a pedido da Raul Schmidt Fellipe, depositou U$ 2 milhões referentes à devolução parcial do empréstimo na conta da Milzart, cujo beneficiário final era Renato Duque.” Os procuradores da Lava Jato registram ainda que na sequência, a Judas “devolveu U$ 2 milhões a Goodal”, de Raul Schmidt. “A fim de conferir um mínimo de verossimilhança ao contrato de empréstimo.”

trecho renato duque operaçao com raul schmidt

A devolução ocorreu em 21 de agosto de 2011, “depositando na respectiva conta-corrente da offshore no banco Julius Baer sob a justificativa de devolução da “parte” restante do empréstimo.”

Para os nove procuradores da Lava Jato,  “tudo isso levanta severas suspeitas que Judas Azuelos foi utilizado por Raul Schmidt Felippe para a realização de um pagamento de propina em favor de Renato Duque, utilizando do expediente de empréstimo simulado como estratagema de lavagem de capitais”.

COM A PALAVRA, A DEFESA

RAUL SCHMIDT FELIPPE JUNIOR

Em nota, o criminalista Leonardo Muniz, advogado de Raul Schmidt Felippe Júnior, informou:

“O sr. Raul Schmidt não intermediou nenhum pagamento ao sr. Renato Duque.”

Em nota anterior, quando foi decretada a prisão de Zelada, Raul Schmidt informou que não atua mais no setor petrolífero desde 2007. “Atualmente, é sócio e membro do conselho da TVP Solar, empresa do setor de energia solar, que tem sede na Suíça e fábrica na Itália”, informou, via advogado de defesa, Leonardo Muniz.

O empresário afirma ainda que atua como investidor em companhias “start-ups” na área de tecnologia de ponta “principalmente em empresas ligadas a energias limpas”.

O criminalista afirma que a única relação comercial mantida pelo cliente com Zelada “se dá na TVP Solar”. O empresário afirma ser co-fundador da norueguesa Sevan Marine e que mora há 10 anos fora do Brasil.

“Em relação a projetos específicos em que tenha atuado, está impedido de prestar qualquer informação devido a cláusulas de confidencialidade nos contratos.”

“Todas as vezes em que recursos foram transferidos para o Brasil houve registro no Banco Central brasileiro. Todas as suas atividades são regulares e legais”, informa o advogado.

O criminalista Eduardo de Moraes, que defende Zelada, classificou de “absolutamente desnecessária” a prisão do ex-diretor e que não há ilegalidades.

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