Lava Jato apura papel de suposto sócio de Zelada em negócios de navios-sondas

Lava Jato apura papel de suposto sócio de Zelada em negócios de navios-sondas

Raul Schmidt, com R$ 7 milhões de bens bloqueados por ordem judicial, é investigado por recebimento de US$ 3 milhões de estaleiro que pagou US$ 30 milhões de propina para Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobrás

Redação

06 de julho de 2015 | 16h32

Jorge Zelada, preso pela Polícia Federal, no Rio

Jorge Zelada, preso pela Polícia Federal, no Rio

Atualizada às 20h06

Por Fausto Macedo, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O empresário Raul Schmidt Fellipe Filho, suposto sócio do ex-diretor de Internacional da Petrobrás Jorge Luiz Zelada – preso na Operação Conexão Mônaco, no dia 2 -, é investigado pela força-tarefa da Lava Jato pelo recebimento de “comissão” em contratos de navios-sondas da coreana Samsung Heavey Industries.

Zelada é administrador da TVP Solar Brasil, empresa de Raul Schmidt, segundo a Receita Federal. A informação sobre a parceria entre Raul Schmidt e Zelada consta de manifestação do Ministério Público Federal em pedido de prisão do ex-diretor da estatal.

“Jorge Luiz Zelada aparece como administrador da empresa TVP
Solar Brasil. Ao que tudo indica, a TVP Solar Brasil é subsidiária da empresa TVP Solar, uma sociedade de tecnologia ligada à utilização de energia solar térmica, sediada em Genebra (Suíça) com o seguinte endereço e telefone: +41 22 5349087 – 36 Place du Bourg-de-Four, 1204 Geneva, Switzerland. Na TVP Solar, Jorge Luiz Zelada é sócio de Raul Schmidt Felippe Junior”, afirma a força-tarefa da Lava Jato.

No mesmo documento, o MPF registra que eles não são sócios na TVP Solar Brasil.  “Para fins de bloqueio, deve-se incluir os ativos financeiros das empresas em que o investigado é sócio e administrador, as quais, segundo as informações da Receita Federal”, requereu a Procuradoria. O pedido inclui a TVP Solar Brasil.

“Raul Schmidt Fellipe também possuía ligação com a Samsung, estaleiro responsável pela construção dos navios-sonda Petrobrás 10000 (que segundo a auditoria da Petrobrás teve pelo menos U$ 11,9 milhões de superfaturamento) e Vitória 100000, cuja aquisição pela estatal foi objeto de denúncia pelo MPF”, registra a força-tarefa da Lava Jato em pedido de prisão de Zelada.

Pelo menos US$ 3 milhões da Samsung passaram por uma conta aberta em nome da offshore Goodal Trade Inc, das Ilhas Virgens Britânicas, que segundo autoridades do Principado de Mônaco seria controlada por Raul Schmidt. 

“Na documentação enviada por Mônaco consta um contrato de comissionamento envolvendo a Samsung como contratante e duas empresas sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas como contratadas, a Barvella Holding Corp. e a Goodal Trade Inc – esta última é uma offshore de propriedade de Raul Schmidt Fellipe, enquanto o proprietário da primeira ainda é ignorado”, informou o MPF ao juiz Sérgio Moro.

Os contratos da Samsung com a Petrobrás foram assinados em 2006 e 2007, na gestão do ex-diretor de Internacional Nestor Cerveró, antecessor de Zelada. Eles previam a construção dos navios-sondas Petrobras 10.000 e Vitória 10.000, ambos superfaturados. 

Cerveró e o lobista do PMDB Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, são acusados de receberem US$ 30 milhões de propina em contratos de navios-sonda. Os dois foram presos pela Lava Jato.

Nestor Cerveró e Fernando Baiano. Fotos: Estadão e AGB

Nestor Cerveró e Fernando Baiano. Fotos: Estadão e AGB

A Procuradoria considera ter comprovado nesse caso o pagamento de US$ 30 milhões em propina a Cerveró e ao lobista Fernando Baiano, por meio do lobista Julio Gerin Camargo, delator da Lava Jato com elos com integrantes do PT.

Camargo confessou ao juiz Sérgio Moro ter pago os US$ 30 milhões por intermédio de Fernando Baiano para Cerveró. O processo em que os três são réus por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa está em fase final, na Justiça Federal, em Curitiba.

Descobertas. A força-tarefa da Lava Jato considera peculiar o papel de Raul Schmidt nesses negócios e está aprofundado a coleta de dados. O empresário, que vive na Suíça, é investigado como elo de Zelada na lavagem de dinheiro supostamente desviado por ele da Petrobrás em dois outros navios-sondas, que sucederam os fechados por Cerveró, com a Samsung.

Zelada teria recebido propina nos contratos com a Pride International, de 2008, para construção do ENSCO DS-5, e com a Vantagem Deepwater Company, em 2009, para o Titanium Explorer.

Nas buscas por dados desses contratos, a Lava Jato chegou a Raul Schmidt. O alvo foi gerente da Braspetro Oil Service, em Angola, e representante da norueguesa Sevan Marine, no Brasil.

Documentos enviados por Mônaco revelam ainda a existência de um contrato de comissionamento de US$ 20 milhões, assinado e 18 de outubro de 2007, pela Pride Internacional – vencedora do contrato do ENSCO DS-5 – como origem dos US$ 3 milhões pagos ao suposto sócio de Zelada. 

O contrato “previa uma comissão de broker para a intermediação de um contrato de construção de navio-sonda com a Pride International, a qual negociava uma contratação pela Petrobrás”, registra a força-tarefa.

A partir desse contrato é que autoridades de Mônaco identificaram o depósito de de US$ 3 milhões, no dia 15 de abril de 2011, da Samsung para a conta da Goodal, no Banco Luius Bär, no Principado de Mônico, que seria de Raul Schmidt.

TRECHO RAUL SCHMIDT

Elos. “Há indicativos de que a parceria entre Raul Schmidt Fellipe e Jorge Luiz Zelada é utilizada para lavagem de dinheiro obtido ilicitamente por intermédio de contratos com a Petrobrás”, afirma a Procuradoria no pedido de prisão de Zelada.

Além de ter relação direta com os desvios supostamente cometidos por Zelada, a Lava Jato quer saber qual foi o papel de Raul Schmidt na intermediação entre os dois primeiros contratos de navios-sondas da Samsung, assinados na gestão Cerveró, e os dois contratos feitos com Zelada, em especial o terceiro, de 2008, com a empresa Pride.

COM A PALAVRA, A DEFESA

Raul Schmidt informou que não atua mais no setor petrolífero desde 2007. “Atualmente, é sócio e membro do conselho da TVP Solar, empresa do setor de energia solar, que tem sede na Suíça e fábrica na Itália”, informou, via advogado de defesa, Leonardo Muniz.

O empresário afirma ainda que atua como investidor em companhias “start-ups” na área de tecnologia de ponta “principalmente em empresas ligadas a energias limpas”.

O criminalista afirma que a única relação comercial mantida pelo cliente com Zelada “se dá na TVP Solar”. O empresário afirma ser co-fundador da norueguesa Sevan marine e que mora há 10 anos fora do Brasil.

“Em relação a projetos específicos em que tenha atuado, está impedido de prestar qualquer informação devido a cláusulas de confidencialidade nos contratos.”

Em nota divulgada após o pedido de prisão de Zelada, o investigado afirmou que “todas as suas transações financeiras respeitam as legislações pertinentes dos países onde são realizadas”.

“Todas as vezes em que recursos foram transferidos para o Brasil houve registro no Banco Central brasileiro. Todas as suas atividades são regulares e legais”, informa o advogado.

O criminalista Eduardo de Moraes, que defende Zelada, classificou de “absolutamente desnecessária” a prisão do ex-diretor e que não há ilegalidades.

ÍNTEGRA DA NOTA DE RAUL SCHMIDT FELLIPE FILHO

Em nota, o advogado Leonardo Muniz, que representa Raul Schmidt Felippe Júnior, informou:

“O sr. Raul foi empregado da Petrobrás por 17 anos. Deixou a empresa em 1997 e desde 2007 não atua como executivo no setor petrolífero. Atualmente, é sócio e membro do conselho da TVP Solar, empresa do setor de energia solar, que tem sede na Suíça e fábrica na Itália. Seus outros interesses de investimento incluem avaliações de participação em “start-ups companies” na área de tecnologia de ponta, principalmente em empresas ligadas a energias limpas além de atuar na comercialização e exposições de mobiliário de design brasileiro moderno e contemporâneo na Europa.

O empresário conheceu o sr. Jorge Zelada, o sr. Renato Duque assim como outros empregados da Petrobrás quando lá trabalhou. É equivocado o relato que o sr. Raul tenha apresentado o sr. Zelada e o sr. Duque para o banco Julius Baer, em Monaco. Em relação a esta e outras atitudes tomadas pelo banco, sr. Raul já está tomando as devidas providências visando obter as devidas reparações desta instituição financeira e preservar seus direitos.

A única relação comercial do sr. Raul com o sr. Zelada se dá na TVP Solar. O sr. Zelada após sua saída da Petrobras, foi convidado a atuar como membro do board da TVP, há três anos. A empresa não tem e não fez negócios no Brasil até o momento, apesar de estar tentando já há algum tempo prospectar estes negócios na sua área de atuação.

O sr. Raul foi executivo e consultor de grandes empresas (a norueguesa Sevan, do qual é co-fundador, da americana Reading & Bates Falcon, da inglesa ConocoPhillips, entre outras) na época em que atuou no setor de petróleo. Há praticamente 10 anos ele reside fora do Brasil. Todas as suas transações financeiras respeitam as legislações pertinentes dos países onde são realizadas.

Todas as vezes em que recursos foram transferidos para o Brasil houve registro no Banco Central brasileiro. Todas as suas atividades são regulares e legais. Com relação a outras afirmações feitas via imprensa, cabe acrescentar: o sr. Raul não intermediou nenhum pagamento ao sr. Renato Duque e não tem nem nunca teve apartamento em conjunto com o sr. Jorge Zelada.

Raul Schmidt trabalhou na Petrobras até 1997 e foi gerente geral da Brasoil, subsidiária da Petrobras em Angola. Seguiu trabalhando no segmento de petróleo e gás, tendo se tornado CEO da empresa Sevan Marine no Brasil e no Reino Unido. Em relação a projetos específicos em que tenha atuado, está impedido de prestar qualquer informação devido a cláusulas de confidencialidade nos contratos.”

 

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