Laudato Si’: cuidando da ‘casa comum’

Laudato Si’: cuidando da ‘casa comum’

Marta Barroso*

22 de dezembro de 2020 | 12h35

Marta Barroso. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma impressionante carta encíclica de um surpreendente Papa.

Justamente por não deixar de ser Francisco … atenta para o meio ambiente.

Tudo está conectado.

A ecologia tem uma dimensão social, ética, política incentivando à uma “cidadania ecológica”.

Normalmente, nas cartas encíclicas são citados Santos, Papas e Doutores da Igreja.

Nessa encíclica, tem-se a citação de Dante, Paul Ricoeur e até um Sufi (autoridade islâmica) além do Patriarca Bartolomeu.

Laudato Si´ é um marcante documento da Igreja para todos os habitantes da Terra.

Vejamos, em apertada síntese:

Devemos atentar para os “ninguéns”

Devemos acolher os deserdados pela Vida.

Devemos resgatar os desabrigados da História.

Epistemologia da Encíclica:

  • Suma Ecológica

Trata-se de uma síntese de tudo o que se discute em ecologia atualmente.

  • Degradação ambiental

… está intimamente relacionada com a degradação humana, ética e social.

Não existem duas crises,  mas apenas uma crise ambiental.

  • Conjuga sempre o clamor da natureza (ecologia) com o clamor dos pobres (justiça).
  • Perspectiva sistêmica da ecologia

– ecocentrismo

– ecologismo dos pobres

– justiça ambiental

– economia ecológica

Quatro linhas básicas sociais e ecológicos

(cf. Evangelium Gaudium 221-37)

– “o todo é superior às partes”

– “o tempo é superior ao espaço”

– “a realidade é superior à ideia”

– “a unidade prevalece sobre o conflito”

Objetivos:

Proporcionar uma apresentação da Carta Encíclica Laudato Si´.

Sobre o cuidado com a Casa Comum em vista de compreender sua relevância e  contribuição ao atual debate sobre os grandes desafios da crise ambiental hoje.

Fomentar o debate sobre o cuidado da nossa Casa Comum, identificando  compromissos e responsabilidades no enfrentamento dos desafios ambientais atuais, tendo em vista uma sociedade mais respeitosa com os ecossistemas e comprometida com uma visão ecocêntrica do mundo.

ECOmenismo ambiental

“O verdadeiro humanismo é aquele que vai dizer que eu reconheço em todo o ser vivo ao mesmo tempo um ser semelhante e diferente de mim” (Morin, 2015)

Não é um período de simples mudanças.

É sim, uma transição de épocas: uma grande transformação.

“Vivemos em uma civilização onde as normas da tecnociência, bem como o imperativo da primeira pessoa do singular, impuseram uma nova forma do existir humano a todos os campos da nossa atividade, fazendo emergir o enigma de uma civilização avançada na sua razão técnica mas dramaticamente indigente na sua razão ética”.

Há uma série de coisas que não se consegue mais ignorar e/ou esconder – dolorosa consciência.

Se nos reconhecemos como “Nossa Casa”, como parte da Criação, como Uno e Múltiplo – tomamos dolorosa consciência e “ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar”.

O que está acontecendo com a “Nossa Casa”:

  1. Poluição e mudanças climáticas

– implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas.

  1. b) A questão da água

– disponibilidade decrescente dos recursos hídricos, da água e da qualidade da água.

  1. c) Perda da biodiversidade

– imediatismo econômico e da atividade comercial e produtiva.

– desaparecimento de espécies vegetais e animais.

– irmandade das diferentes formas de vida (sinergias dos ciclos e cadeias)

  1. d) Deteriorização da qualidade da vida humana e degradação social.

– pela degradação ambiental, modelo de desenvolvimento e cultura do descarte.

– pela forte urbanização (desmedida e descontrolada)

– pelo efeito de algumas inovações tecnológicas e meios digitais (era para ser desenvolvimento e não, degradação

  1. e) Desigualdade planetária

– abordagem ecológica = abordagem social

– clamor da Terra e clamor dos pobres

– crise sistêmica (necessidade de uma ecologia integral)

  1. f) Fraqueza das reações

Interesse econômico prevalece sobre o Bem Comum (ecologia superficial)

“A justa distribuição dos frutos da Terra e do trabalho humano não é mera filantropia.    É um dever moral”

“A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em  função das necessidades das pessoas”.

“Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas  mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto e terra) e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem”

“A falta de reações diante desses dramas é um sinal de perda do sentido de  responsabilidade pelos nossos semelhantes”

Linhas de análise

VER (CAP. I)

JULGAR (CAPS. II e III)

AGIR  (CAPS. IV, V e VI)

Eixos temáticos

  1. A relação entre os pobres e a fragilidade do planeta;
  2. A convicção de que no mundo … tudo está interligado;
  3. A crítica ao paradigma e às formas de poder que derivam da tecnologia;
  4. O convite a buscar outras maneiras de compreender a economia e o progresso;
  5. O valor próprio de cada criatura;
  6. O sentido humano da ecologia;
  7. A necessidade de debates francos e honestos;
  8. A grave responsabilidade da política internacional e local
  9. A cultura do descarte
  10. A proposta de um novo estilo de vida

Divisão dos sete capítulos que compõem a Encíclica

  • Introdução
  • Capítulo I: o que está a acontecer com a nossa “Casa Comum”
  • Capítulo II: o Evangelho da Criação
  • Capítulo III: a raiz humana da crise ecológica
  • Capítulo IV: uma ecologia integral
  • Capítulo V: algumas linhas de orientação e ação
  • Capítulo VI: educação e espiritualidade ecológicas

Capítulo I

Os problemas ambientais estão muito ligados à cultura do descarte.

“As mudanças climáticas são problemas globais com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios da humanidade”

A questão do uso indiscriminado da água:

“Os impactos ambientais poderiam afetar milhões de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais possa transformar-se numa das principais fontes de conflitos desse século”

“Especialmente sobre os pobres, fracos e vulneráveis recai todas as consequências da degradação ambiental”

Capítulo II

“Na tradição judaico-cristã, dizer ‘criação’ é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projeto do Amor de Deus, em que cada criatura tem um valor e um significado”

Capítulo III

“A vida passa a ser uma rendição às circunstâncias condicionadas pela técnica, entendida como o recurso principal para interpretar a existência.

A realidade concreta que nos interpela, aparecem vários sintomas que mostram o erro tais como a degradação ambiental, a perda do sentido da vida e a convivência social.

Assim se demonstra uma vez mais que a ‘realidade é superior à ideia’”.

Capítulo IV

Tudo está interligado.

– a ecologia ambiental

a ecologia econômica

– a ecologia social

a ecologia cultural

– a ecologia espiritual

“É a cultura – entendida não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo, que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente”

“É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de engajamento e o nosso sentimento de “estar em casa”.

“Todos os seres humanos são sujeitos de direitos fundamentais”.

“Toda sociedade e nela, especialmente, o Estado tem a obrigação de defender e promover o bem comum”

“Que necessidade tem de nós esta Terra? 

Trata-se de um drama para nós mesmos porque isso chama em causa o significado de nossa passagem por esta Terra”

Capítulo V

“Há vencedores e vencidos entre todos os países, onde se devem identificar as diferentes responsabilidades”

“A Igreja aprecia a contribuição ‘do Estado e das aplicações da biologia molecular e da genética’, mas isso não deve levar a uma indiscriminada manipulação genética que ignore os efeitos negativos destas intervenções”

Capítulo VI

“É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias”

“O Amor Social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeia toda a sociedade”

Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade de solidariedade global que brota do mistério da Trindade”

“Cada criatura ‘testemunha que é Deus é pleno’”.

“No coração deste mundo, permanece presente o Senhor da Vida que tanto nos ama.

Não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque se uniu definitivamente à nossa Terra e ao seu Amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos”.

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Prece inspiradora:

“Deus onipotente, que estais presente em todo o universo e na menor das criaturas.

Vós que envolveis com vossa ternura tudo o que existe, derramai em nós a força do vosso Amor para cuidarmos da vida e da beleza.

Inundai-nos de paz, para que vivamos como irmãos e irmãs sem prejudicar ninguém.

Ó Deus dos Pobres, ajudai-nos a resgatar os abandonados e esquecidos desta Terra que valem tanto aos vossos olhos.

Curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos para que semeemos beleza e não poluição nem destruição.

Tocai os corações daqueles que buscam apenas benefícios à custa dos Pobres da Terra.

Ensina-nos a descobrir o valor de cada coisa, a contemplar com encanto, a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas no nosso caminho para a vossa Luz Infinita.

Obrigado porque estais conosco todos os dias.

Sustentai-nos, por favor, na nossa luta pela justiça, pelo amor e pela paz”

Amém.

*Marta Barroso é advogada em Brasília. Sócia do escritório Barroso & Palhares Advocacia especializado em Mediação e Arbitragem com sede em Brasília – Distrito Federal

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