‘Testa de ferro’ de Youssef afirma que doleiro operava também para o PSDB

Leonardo Meirelles, proprietário do laboratório Labogen, diz que personagem central do esquema atuava para sigla da oposição, além do PT, PMDB e PP

Redação

21 de outubro de 2014 | 14h36

Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

sergioguerraestadao

Proprietário formal do laboratório Labogen, Leonardo Meirelles declarou nessa segunda-feira, 21, à Justiça Federal que o doleiro Alberto Youssef – alvo central da Operação Lava Jato – operava também para o PSDB. Ele disse que testemunhou conversa do doleiro, por telefone, com um interlocutor, que sugere ser o tucano Sérgio Guerra, morto em março de 2014.

Meirelles é apontado como “testa de ferro” do esquema de lavagem do dinheiro comandado por Youssef, que seria, segundo a Polícia Federal, o verdadeiro dono do Labogen. No depoimento, o laranja afirmou acreditar que o doleiro tinha ainda relação com “outro parlamentar” que era um “padrinho antigo com origem na mesma região” que a do doleiro – Londrina, interior do Paraná.

“Em uma das ocasiões eu estava na sala, teve um contato telefônico do Alberto Youssef quando do qual surgiu o nome (Sérgio Guerra)”, declarou Meirelles ao juiz Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato.

Meirelles foi ouvido na condição de réu no caso de suspeitas sobre a refinaria Abreu e Lima, empreendimento da Petrobrás que está em fase de obras em Pernambuco. Em seus depoimentos no dia 8, no mesmo processo, Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmaram que PT, PMDB e PP lotearam as diretorias da estatal para cobrar até 3% de propina nos grandes contratos a fim de abastecer o caixa 2, em especial da campanha de 2010.

OUÇA O DEPOIMENTO DE LEONARDO MEIRELLES QUE CITA O PSDB (A PARTIR DE 21 MIN)

Reforço. As declarações de Meirelles prestadas na segunda-feira, 20, – diferentemente de Costa e Youssef, ele está solto – reforçam a suspeita de que o esquema mantido pelo doleiro e pelo ex-diretor da Petrobrás envolvia benefícios a partidos da base aliada dos governos Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva e também a legendas da oposição.

O nome do ex-presidente nacional do PSDB foi citado pela primeira vez por Costa na delação premiada que fez e que está sob o crivo do Supremo Tribunal Federal por envolver políticos com foro privilegiado. O ex-diretor da estatal afirmou que foi procurado em 2009 pelo tucano, que cobrou R$ 10 milhões para esvaziar a CPI da Petrobrás, aberta naquele ano.

Guerra ocupava uma das três cadeiras da oposição, na comissão composta por onze parlamentares. A CPI apurava fraudes na Abreu e Lima. Segundo o delator, o dinheiro foi pago em 2010 pela Queiroz Galvão para um emissário do grupo.

Ao ser indagado durante a oitiva de segunda pelo próprio advogado, Haroldo Cesar Nater, se Youssef trabalhava para outros partidos políticos, além do PT, PMDB e PP, Meirelles declarou: “Sim, acredito eu que o PSDB e, eventualmente, algum padrinho político do passado e provável conterrâneo da região do senhor Alberto (Youssef).”

Ele não citou o nome de parlamentar que seria um “padrinho político”, já que o processo que envolve políticos corre no Supremo. Na época da CPI, em 2009, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que é da região de Londrina, também integrava a CPI da Petrobrás.

OUÇA A PRIMEIRA PARTE DO DEPOIMENTO DE LEONARDO MEIRELLES

OUÇA A ÚLTIMA PARTE DO DEPOIMENTO DE LEORNARDO MEIRELLES À JUSTIÇA FEDERAL

Ainda no depoimento, Meirelles disse que Youssef é o “malfeitor, o mentor da organização criminosa”. “Tinha um fluxo grande de políticos do PP, ele (Youssef) mesmo dizia que o partido tinha uma grande soma, grande quantia em aberto com ele, acho que saldo de financiamento de campanha de 2010”, disse, referindo-se à movimentação no escritório de Youssef.

O advogado do doleiro, Antônio Figueiredo Basto, disse que vai acionar o Ministério Público Federal para investigar “influência estranha” e “interesse eleitoral” na Lava Jato. “Acho estranho que ele (Meirelles) foi interrogado antes nos autos da Labogen (outro processo da Lava Jato), teve oportunidade de falar, não falou e agora quer vincular o PSDB”, disse Basto.

“É um fato gravíssimo. Eu tenho convicção de que tem influência estranha nesse processo, de terceiro, que tem interesse eleitoral.” Figueiredo Basto disse que “desafia” Meirelles a provar a relação de Youssef com o PSDB. O criminalista destaca que no dia 25 de março – oito dias depois da deflagração da Lava Jato –, Meirelles afirmou à Polícia Federal que conheceu Youssef em 2012. “Ou seja, em 2009, época da CPI da Petrobrás, ele (Meirelles) não conhecia o Beto (Youssef). Ou ele mentiu na polícia ou mentiu na Justiça Federal. Isso sugere uma manipulação política.”

COM A PALAVRA, A DEFESA

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse nessa segunda em Campo Grande (MS) que, se for confirmado o envolvimento de integrantes do partido no esquema de corrupção na Petrobrás, eles não serão tratados como heróis. “Se houver, amanhã, alguém do PSDB que cometeu alguma ilicitude, há que responder por ela”, disse Aécio, que preside o PSDB nacional. “Não vamos transformá-los em heróis como fez o PT com aqueles que foram condenados pelo mensalão.”

O senador reeleito Álvaro Dias (PSDB) confirmou que sua campanha contratou, em 1998, a empresa Táxi Aéreo San Marino, que pertencia ao doleiro Alberto Youssef. “Houve contratação de horas de voo para a equipe de campanha, mas não para o meu uso”, afirmou Dias, deixando claro que nunca utilizou avião fretado pelo doleiro investigado.

Apesar de sua campanha ter contratado a empresa, ele afirma que nunca teve relação com Youssef. “Conheço como todas as pessoas o conhecem atualmente, à distância”, afirmou.

Ele ainda relembrou sua atuação para a coleta de assinaturas e a criação das CPIs na Câmara e mista (envolvendo deputados e senadores) no Congresso, bem como o fato de ter ido à Procuradoria-Geral da República protocolar 18 representações contra supostas irregularidades Petrobrás e rechaçou a hipótese de que poderia ser o “padrinho” de Youssef ao qual Meirelles faz referência.

“Eu não tenho nenhuma relação com ele, nunca tive, eu seria um péssimo padrinho porque fiz oposição todos esses anos. Esse padrinho num sei quem é, não tenho ideia de quem possa ser, mas seguramente não sou eu”, disse

O filho do ex-presidente da sigla Sérgio Guerra, que morreu em março deste ano, afirmou que ele e sua família defendem “o legado dele, mas não podemos responder por alguém que já faleceu”, disse Francisco Guerra. Ele também afirmou ser favorável às investigações. “Também nos interessamos que as investigações se aprofundem”, disse.

 

 

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