Lacan ainda

Lacan ainda

José Renato Nalini*

25 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Instigante o livro que Betty Milan escreveu: “Lacan ainda – testemunho de uma análise”. Louve-se a coragem de se despir de qualquer constrangimento e narrar sua experiência em Paris, de 1973 a 1977, com o famoso psicanalista, algo que não a “curou definitivamente da angústia”, mas de fato mudou sua vida”.

O período em que Betty visitou Lacan e pagou seus duzentos francos por encontros às vezes encerrados inesperadamente, era uma fase de profunda transformação na França. Pouco antes, em 1968, os universitários de Nanterre se indignaram com a separação sexual dos dormitórios e demoliram valores tradicionais. Foi o ano em que Martin Luther King e Robert Fitzgerald Kennedy foram assassinados. Ano da guerra do Vietnã e, no Brasil, autoritarismo galopante. Zuenir Ventura escreveu “1968, o ano que não terminou”.

A França ainda regurgitava os efeitos da revolução axiológica e pontificavam Foucault, Michel Serres, Gilles Deleuze, Jacques Derrida. Lacan estava no auge e seus seminários na Faculdade de Direito atraíam multidões.

Com cara e coragem, Betty Milan enfrentou o psicanalista que não respeitava as normas técnicas da Associação Internacional de Psicanálise, da qual foi convidado a sair vinte anos antes. Para ele, o protagonismo do analisando era mais importante do que o formalismo das sessões. Este é que deveria descobrir os enigmas labirínticos de sua mente. Não pensasse em respostas prontas do analista.

Os encontros com Lacan duraram até 1977 e quatro anos depois, Lacan falecia. Betty não conseguiu de imediato narrar o que se passara durante esses quatro anos. Enfrentou-os, de certa maneira, ao escrever “O papagaio e o doutor”, um de seus primeiros livros. Agora, madura, vinte anos após a morte de Lacan, ela o homenageia com um pungente relato.

Seu contato com o mestre fora à distância. Exatamente no ano emblemático de 1968. Constituiu um grupo para decifrar os “Escritos”, “meta que obviamente só atingíamos com dificuldade, imaginando que era por se tratar da língua francesa, quando era pela língua de Lacan”. Ele praticamente inventou uma língua nova, formulando o conceito “lalangue”, que é a língua particular de cada um e esta é a que realmente importa para que se possa aproveitar uma análise.

Depois de tentar telefonar para Lacan, sem obter êxito, Betty foi até seu consultório sem avisar. Disse que era do Brasil para a secretária e Lacan a recebeu com simpatia. Indagou de onde era, se seus antepassados também eram brasileiros. Ao responder que eram libaneses, ela se sentiu “autorizada a ser neta de imigrantes, podendo dizer a verdade sobre as minhas origens que, desde a adolescência, eu procurava não revelar”.

Poucas palavras no segundo encontro, impondo-se o mantra do “volte amanhã”. Todavia, a cabeça de Betty fervilhava e extraía consequências. Propôs-se a voltar a Paris para se encontrar com ele depois de terminar seu doutorado e à despedida, Lacan mostrou que ela fora aceita: “Sobretudo, não deixe de me escrever”.

Ela compreendeu que o tempo cronológico não importava. Nos três encontros preliminares, esteve com Lacan durante vinte minutos na primeira vez e menos de dez nas duas outras. “Como os poetas, Lacan se valia do tesouro da língua para fazer muito com pouco”.

Betty sabia que fizera medicina para satisfazer seu pai, também médico. Ele a ensinara “a cultivar o corpo e a vencer competições”, sem descuidar dos estudos.

Quando voltou a Paris, telefonou para Lacan e disse que chegara. A resposta dele: “E daí?”. Provocou-a a dizer: “Quero fazer análise!”. Voltou no dia seguinte, foi a terceira a ser chamada com o incisivo “Venha”. Dentro do consultório, ouviu o “Diga” que se repetiria ao longo dos contatos.

Para poder aproveitar melhor as sessões, devotou-se ao aprimoramento do francês. Lia de forma incessante. Não esmoreceu. Domina o idioma e a pronúncia. Ainda assim, decorridos os quatro meses que pretendera permanecer em Paris, voltou ao Brasil. Mas logo decidiu retornar. Foi ao consultório de Lacan sem aviso. Depois de um breve diálogo, ele manda que ela volte amanhã.

Betty extraía das sessões um manancial de ideias que a auxiliaram a se conhecer melhor, a indagar por que estranhara, quando menina, o tom de sua pele, a sua feminilidade, o desejo de ser mãe.  Betty se tornou outra pessoa. Confiante e segura, talentosa para encarar a literatura feminina com reconhecimento e prestígio, respeitada profissional da psicanálise. Não deixa de atribuir muito disso a Jacques Lacan, um analista que “não desperdiçava o tempo. Cortava a sessão assim que isso se impunha, no momento oportuno. Por outro lado, sabia dar tempo ao tempo prque confiava no analisando. Assim, ele abria o caminho para cada um se tornar o que de fato era”.

É muito bom ler esse testemunho. Ajuda a conhecer melhor Jacques Lacan, uma das pessoas mais influentes do século XX, na versão agradável dessa grande mulher e melhor escritora, Betty Milan.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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