Kirchnerismo sofre o mais duro revés após as eleições presidenciais

Kirchnerismo sofre o mais duro revés após as eleições presidenciais

Cássio Faeddo*

16 de novembro de 2021 | 05h00

FOTO: JUAN MABROMATA/AFP

Na Argentina, assim como no Brasil, a perpetuação do modelo econômico de um país exportador de commodities, que sofre com variação global de preços, amarrou o crescimento do país.

Tudo indicava que Alberto Fernandez e Cristina Kirchner estavam indo muito mal na condução da Argentina.

Logo no começo do governo, Cristina Kirchner estava mais preocupada em retaliar e aparelhar o Poder Judiciário do que cuidar de uma mudança estrutural. Na Argentina, assim como no Brasil, a perpetuação do modelo econômico de um país exportador de commodities, que sofre com variação global de preços, amarrou o crescimento do país.

Com isto, a reação de setores de centro e da direita foi imediata, conduzindo aos movimentos de rua denominados “banderazos”. Milhares de pessoas foram para as ruas, sem cuidados ou distanciamento, e isso logo no início da pandemia. Todo o esforço do lockdown argentino foi por água abaixo.

Retração econômica, inflação nas alturas, herança de crise Macrista, a “vacinação VIP” – escândalo pelo qual figurões ligados ao governo furaram a fila e tiveram prioridade na vacinação, levaram a saída de Ginés González García do Ministério da Saúde e caíram como uma bomba no governo de Alberto Fernandez/Cristina Kirchner. Tudo isso sem deixar de mencionar a vacinação claudicante, ainda que as primeiras doses da Vacina Sputnik V tenham chegado em 2020, porém em poucas unidades.

Agora os argentinos renovaram metade da Câmara e um terço do Senado, e o “Juntos por el Cambio”, ou Juntos pela Mudança, coalizão política do Kirchnerismo, foi derrotado. Como nada mudou para o povo argentino, a coalizão foi duramente golpeada pelos eleitores.

O governo vem produzindo pouco, sofrendo, inclusive nas mãos da extrema direita, como a que se materializa em Javier Milei, ex-roqueiro, um líder de extrema-direita que certamente aparecerá na disputa presidencial de 2023.

Ocorre que Fernández foi eleito para a presidência da Argentina para mudar a condição do povo argentino, mas as mudanças sociais necessitam também de profundas alterações estruturais econômicas, produtivas e sociais. Nada foi feito.

Nem Macri, nem a extrema direita, muito menos, conseguirão resolver a situação argentina que é tão caótica quanto a brasileira. Todos vivemos um circulo vicioso de populismo de direita à esquerda sem que ninguém abra mão de privilégios e de governar apenas para grupos situacionais, burocráticos, gastadores, que se assenhoram do país em ciclos.

O quórum de Fernandez e Cristina Kirchner no Senado caiu. Terão que governar com um senado desfavorável e com uma derrota nas costas para as próximas eleições presidenciais. Na Câmara houve um empate, e as coalizões futuras ainda são imprevisíveis.

O quadro atual indica que os próximos meses até a eleição presidencial serão mais turbulentos do que o kirchnerismo poderia desejar e sem muitas perspectivas para o povo argentino.

*Cássio Faeddo, advogado. Mestre em Direito. MBA em Relações Internacionais – FGV/SP

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