Justiça viu mensagens de brasileiros a hacker português e decretou quebra de sigilo de e-mails

Justiça viu mensagens de brasileiros a hacker português e decretou quebra de sigilo de e-mails

Decisão foi deferida após a Polícia Federal apresentar conversas de três investigados no País com o hacker 'Zambrius', preso pela Polícia Judiciária portuguesa neste sábado, 28; Operação Exploit conduziu buscas em Minas Gerais e São Paulo

Paulo Roberto Netto, Fausto Macedo, Pepita Ortega/SÃO PAULO, Idiana Tomazelli e Vinícius Valfré/BRASÍLIA

28 de novembro de 2020 | 20h22

A 1ª Zona Eleitoral do Distrito Federal decretou a quebra do sigilo dos e-mails dos três brasileiros investigados por auxiliar um hacker português no ataque contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no primeiro turno das eleições. A decisão foi deferida após a Polícia Federal apresentar mensagens trocadas pelo grupo com o responsável pela invasão. O trio foi alvo de buscas e apreensões em Minas Gerais e São Paulo neste sábado, 28, na Operação Exploit.

O hacker identificado como Zambrius foi preso pela Polícia Judiciária portuguesa. Ele é o líder do Cyberteam, grupo que reivindicou a autoria de ataques ao TSE, ao Ministério da Saúde e ao Tribunal Regional da 1ª Região (TRF-1). Por ser estrangeiro, a decisão judicial brasileira não alcançou ‘Zambrius’.

Segundo o Estadão apurou, a decisão que autorizou buscas e quebra de sigilo foi baseada em elementos apresentados pela Polícia Federal envolvendo a troca de mensagens entre os brasileiros e o português. Segundo os investigadores, Zambrius teria tentado acessar o site do TSE ao menos em duas ocasiões, nos dias 15 e 19 de novembro, sem sucesso.

As buscas determinadas pela Justiça miraram aparelhos eletrônicos, como notebooks, computadores, pen-drives, smartphones, tablets e roteadores de internet. Os três investigados no Brasil estão proibidos de manter contato um com o outro. A decisão atendeu manifestação da Polícia Federal, que teve aval do Ministério Público.

A prisão do trio não foi solicitada pois desde a última terça, eleitores de cidades onde há segundo turno não pode ser presos, com exceção em casos de flagrante. Os investigados brasileiros têm entre 19 e 24 anos.

Fachada do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Portugal. Zambrius estava em prisão domiciliar e usava uma tornozeleira eletrônica. Conhecido pela polícia de Portugal, foi detido pela primeira vez em 2017, aos 16 anos de idade. Segundo o jornal português Diário de Notícias, o hacker já foi alvo da operação ‘Caretos’, deflagrada pela Polícia Judiciária contra um grupo de hackers que atacaram diversos órgãos do Estado, incluindo a própria corporação e a Procuradoria-Geral da República entre 2015 e 2016.

Em conversas com o Estadão feitas por e-mail, nos dias 17 e 18 deste mês, Zambrius disse que não tinha a intenção de ajudar a impulsionar teorias conspiratórias contra a urna eletrônica. A troca de mensagens ocorreu num momento em que ele ainda era apenas suspeito de envolvimento nas invasões do site do tribunal. “Eu não sou um criminoso, sou uma boa pessoa que se preocupa com todas as outras, principalmente com o bem estar do mundo”, afirmou.

Resposta. A PF agiu para dar alguma resposta à sociedade antes do segundo turno das eleições, segundo investigadores. A avaliação era a de que seria importante apresentar o resultado de apurações antes de os eleitores irem novamente às urnas.

Em nota, a corporação ressaltou que ‘não foram identificados quaisquer elementos que possam ter prejudicado a apuração, a segurança ou a integridade dos resultados da votação’.

Embora os ataques ao TSE tenham ficado restritos ao vazamento de informações com pouca relevância e a uma instabilidade momentânea na consulta a serviços, a investida alimentou toda uma narrativa contra a segurança do processo eleitoral.

Nas redes sociais, internautas buscaram atrelar os eventos cibernéticos, registrados na manhã do dia 15, com a demora na divulgação dos resultados, ocorrida à noite. O atraso, porém, se deu por conta de um problema na inteligência artificial do computador que faz a totalização dos votos. A pandemia impediu que a máquina chegasse a tempo de passar por todos os testes.

Parlamentares bolsonaristas são apontados como alguns dos principais responsáveis por disseminar a versão enganosa. Quatros deputados estão citados em representação que tramita na Procuradoria-Geral da República.

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