Justiça põe Ricardo Salles no banco dos réus por ‘deteriorar’ busto de Carlos Lamarca

Justiça põe Ricardo Salles no banco dos réus por ‘deteriorar’ busto de Carlos Lamarca

Ministério Público de São Paulo atribui a ministro do Meio Ambiente suposto crime contra o Patrimônio Cultural relacionado à determinação que deu, em 2017, enquanto secretário do governo de São Paulo, para retirada da estátua do guerrilheiro

Pepita Ortega

05 de dezembro de 2019 | 11h36

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante evento em Brasília. Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

A juíza Gabriela de Oliveira Thomaze, da 1ª Vara de Jacupiranga, aceitou denúncia do Ministério Público de São Paulo nesta segunda, 2, e colocou o ministro Ricardo Salles no banco dos réus por ter, enquanto Secretário do Meio Ambiente do Estado, ‘inutilizado e deteriorado’ o busto do guerrilheiro de esquerda e ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, que ficava no Parque Estadual Rio Turvo, no Vale do Ribeira.

A Procuradoria atribui ao chefe da pasta de Meio Ambiente do governo Bolsonaro crime contra o Patrimônio Cultural.

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Segundo a denúncia, em agosto de 2017, durante visita ao parque, Salles determinou que a estátua, seu pedestal e um painel contendo fotografias e informações acerca da passagem de Lamarca pelo Vale do Ribeira fossem retirados do local. Os objetos estavam ali desde 2012, por decisão do Conselho do Parque.

Foto: Reprodução

Ex-capitão do Exército Brasileiro, Lamarca liderou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização de luta armada que combateu a ditadura militar (1964-1985). Ele foi condenado pelo Superior Tribunal Militar como desertor e caçado pelo regime. Comandou assaltos a bancos e o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher no Rio, em 1970, em troca da libertação de 70 presos políticos.

Entre 1969 e 1970, Lamarca e outros 16 guerrilheiros fizeram treinamento de guerrilha em grutas no meio da Mata Atlântica, no Sítio Capelinha, onde hoje fica o parque. Em 2017, o site da Secretaria do Meio Ambiente, indicava que a passagem do guerrilheiro pelo local era um ‘grande atrativo histórico’ do parque.

Busto de Lamarca antes de ser retirado do parque, em Cajati. Foto: Reprodução / Facebook

Após determinar a retirada do busto do Parque, em 2017, Salles informou à reportagem do Estado, por meio de nota: “Narrar fatos é uma coisa. Erguer bustos com dinheiro público e em parque público é bem diferente. Carlos Lamarca foi um guerrilheiro, desertor e responsável pela morte de inúmeras pessoas. A presença desse busto no local inadmissível”.

Nomeado para a pasta do Meio Ambiente em 2016 pelo ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), Salles deixou o cargo dias depois da visita a Cajati.

Em dezembro de 2017, quase cinco meses após a determinação, a Promotoria instaurou um inquérito para apurar se o ex-secretário havia cometido improbidade administrativa ambiental.

Após o início da investigação, Salles informou que já havia prestado as informações ao Ministério Público e indicou: “Recurso de compensação ambiental não foi feito para colocar busto em parque, como fizeram lá. Ainda mais de uma pessoa que era um criminoso, independentemente do lado ideológico. Seria o mesmo que uma comunidade como a da Rocinha, no Rio, usar dinheiro público para fazer uma estátua do Fernandinho Beira-Mar. Seria usar o dinheiro público de forma inadequada. Mesmo não sendo mais o secretário, continuo achando que não é a melhor coisa ter um busto de Lamarca num parque público.”

COM A PALAVRA, O MINISTRO RICARDO SALLES

A reportagem entrou em contato, por e-mail, com a Assessoria de Imprensa do Ministério do Meio Ambiente. O espaço está aberto para manifestações.

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