Justiça põe José Serra e filha no banco dos réus da Lava Jato por lavagem de dinheiro transnacional

Justiça põe José Serra e filha no banco dos réus da Lava Jato por lavagem de dinheiro transnacional

Juiz Diego Paes Moreira, da 6ª Vara Criminal Federal, recebeu denúncia da força-tarefa do Ministério Público Federal que atribui ao senador tucano recebimento de propinas da Odebrecht em troca de benefícios nas obras do Rodoanel Sul; pagamentos teriam sido ocultados com uso de offshores constituídas por Verônica Serra

Paulo Roberto Netto

29 de julho de 2020 | 19h01

O senador e ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB-SP) e sua filha, Verônica Serra, se tornaram réus na Operação Lava Jato nesta quarta, 29, após o juiz Diego Paes Moreira, da 6ª Vara Criminal Federal, aceitar denúncia apresentada pela força-tarefa bandeirante no último dia 3.

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O tucano é acusado de receber propinas da Odebrecht entre 2006 e 2007 em troca de benefícios para a empreiteira nas obras do Rodoanel Sul. A Lava Jato SP apontou que os pagamentos foram ocultados por meio de transações financeiras envolvendo offshores constituídas por Verônica Serra e o empresário José Amaro Ramos, apontado como operador do esquema.

“José Serra e Verônica Allende Serra, entre 2006 e, ao menos, 2014, ocultaram e dissimularam, por meio de numerosas operações bancárias, a natureza, a origem, a localização e a propriedade de valores sabidamente provenientes de crimes, notadamente de corrupção passiva e ativa, de fraudes à licitação e de cartel, praticando, assim, atos de lavagem de capitais”, resumem os procuradores da Lava Jato na denúncia.

Os procuradores apontam que Serra solicitou o pagamento de propina de R$ 4,5 milhões da Odebrecht e indicou que gostaria de receber o montante no exterior, por meio de offshore da José Amaro Ramos.  A empreiteira efetivou a solicitação do tucano e realizou, entre 2006 e 2007, ‘numeras transferências’ no total de 1.564.891,78 euros para a empresa do operador . Do total, 936 mil euros chegaram à Dortmund International Inc, offshore que, segundo a Lava Jato, era controlada por Verônica Serra.

O ex-ministro José Serra, alvo da Lava Jato São Paulo por lavagem de propina. Foto: Evaristo Sá / AFP

Registros das transações ao tucano foram registradas em planilhas do Setor de Operações Estruturadas sob o codinome ‘vizinho’, em referência ao fato de Serra morar próximo do doleiro Alvaro Novis, que transportava propinas para a Odebrecht. A denúncia da Lava Jato indica ainda que o valor foi pago pela empreiteira ‘supostamente para fazer frente a gastos de suas campanhas ao governo do estado de São Paulo’.

Segundo a Lava Jato, o esquema de ocultação dos valores de propina foi realizado em três etapas: a primeira eram as transferências das contas da Odebrecht para offshores controladas pela empreiteira. A segunda consistia nos repasses desses valores para offshores de José Amaro Ramos que, em sua última etapa, encaminhava os valores para as empresas de Verônica Serra.

Um dos repasses investigados pela Lava Jato é a transferência de 326 mil euros da offshore Hexagon, de José Amaro Ramos, para a Dortmund, de Verônica Serra, para a compra e venda de ‘quatro portinaris’, referência ao artista Cândido Portinari. A Procuradoria também apura compras e vendas de ações pela Dortmund como forma de dissimular e lavar o dinheiro da propina da Odebrecht.

“Neste contexto, realizaram numerosas transferências para dissimular a origem dos valores, e os mantiveram em uma conta de offshore controlada, de maneira oculta, por Verônica Serra até o final de 2014, quando foram transferidos para outra conta de titularidade oculta, na Suíça”, indicou a Lava Jato São Paulo.

A denúncia contra Serra foi montada a partir da delação de dez executivos da Odebrecht, incluindo o ex-presidente Marcelo Odebrecht, da Andrade Gutierrez e da OAS.

COM A PALAVRA, O SENADOR JOSÉ SERRA
A reportagem fez contato com a defesa do senador José Serra. O espaço está aberto para manifestação.

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