Justica condena treinador por homofobia

Justica condena treinador por homofobia

Hélio dos Anjos terá de indenizar atleta por declaração sobre 'paixão desenfreada' em 1992; na ocasião, ele disse que 'homossexual vai ser o grande problema do futebol brasileiro no futuro’

Julia Affonso

14 de junho de 2016 | 16h30

Hélio dos Anjos. Foto: Divulgação

Hélio dos Anjos. Foto: Divulgação

O treinador de futebol Hélio dos Anjos foi condenado pela Justiça de Santa Catarina a indenizar moralmente, por declaração homofóbica, um de seus atletas durante entrevista coletiva, ao final de uma partida. O técnico especulou, em outubro de 1992, sobre a existência de envolvimento entre o jogador e um comentarista esportivo local.

A sentença foi confirmada nesta semana pela 1ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça e divulgada na segunda-feira, 13.

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De acordo com os autos, o treinador estava desgostoso com as reiteradas críticas do radialista, que cobrava a presença do atleta entre os titulares da equipe. Todos os demais jogadores que atuavam naquela posição, sustentou o técnico, eram alvo de ácidos comentários do radialista. O treinador insinuou, então, que o atleta mantinha uma relação com o comentarista.

Na decisão, o desembargador substituto Gerson Cherem II, relator da apelação, citou o jornal A Notícia de Joinville, datada, de 28 de novembro de 1992. Na ocasião, a publicação relatou o caso.

“Joinville – Revoltado com as críticas feitas ao time por um comentarista de rádio, o técnico do Joinville, Hélio dos Anjos, denunciou ontem em entrevista coletiva um “envolvimento homossexual” entre o comentarista (ele não citou o nome) e o meio-campista Edmílson Paulista, que na partida de Lages ficou na reserva”, informou o jornal.

“Hélio fez questão de frisar que o comentarista deve ter uma “paixão desenfreada” pelo atleta, pois fica criticando em demasia os jogadores que atuam na posição de Edmílson Paulista. “Para tecer tantas críticas à equipe, o comentarista só pode ser pederasta ou homossexual. Eu já disse para o atleta que este tipo de relacionamento é prejudicial”, afirmou o treinador. Na opinião de Hélio, o homossexual vai ser o grande problema do futebol brasileiro no futuro. Ele disse que tomou a decisão de tornar o caso público por não admitir que alguém da imprensa tripudie em cima de atletas devido a uma paixão. “Ninguém é inocente com 24 anos. O jogador deve saber o que é bom para ele ou não”, disse Hélio referindo-se ao meia.”

Gerson Cherem II afirmou, na decisão, que a declaração maculou a imagem do atleta na carreira, e os danos sofridos oriundos da declaração foram incontestáveis.

“Com efeito, resulta estreme de dúvidas que o apelante excedeu-se em suas respostas às críticas de um comentarista de rádio contra o time (…), do qual aquele era técnico. Ademais, as diatribes dirigidas à equipe fazem parte do cotidiano do mundo esportivo, e jamais deveriam ensejar o contra-ataque do réu, que de forma vexatória apontou o autor ¿ à época jogador de futebol ¿ como homossexual” , destacou.

A câmara promoveu apenas uma reforma pontual na sentença, para adequar os valores dos juros moratórios, que incidirão de 0,5% ao mês, desde o evento danoso, até a data de entrada em vigor do novo Código Civil, quando o encargo elevar-se-á ao patamar de 1% ao mês. A indenização, em valor original, foi arbitrada em R$ 2 mil. A decisão foi unânime.

A reportagem entrou em contato com o escritório do advogado que defendeu Hélio dos Anjos no caso e foi informada que o defensor não estava. O espaço está aberto para manifestação.

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