Justiça bloqueia bens de acusados por obra da pista de Congonhas onde morreram 199

Justiça bloqueia bens de acusados por obra da pista de Congonhas onde morreram 199

Segundo Procuradoria da República, entre 2001 e 2002, empresa recebeu recursos sem concluir serviços; irregularidades têm relação com acidente ocorrido em 2007

Julia Affonso e Fausto Macedo

16 de maio de 2016 | 15h38

Acidente deixou 199 mortos. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Acidente deixou 199 mortos. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A Justiça Federal em São Paulo determinou o bloqueio de bens de sete pessoas e uma empresa suspeitas de irregularidades em obras na pista de pouso e no pátio de aeronaves do Aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista, iniciadas em 2001. A decisão liminar atende pedido do Ministério Público Federal, que ajuizou em abril uma ação de improbidade administrativa contra os investigados. Segundo a Procuradoria da República, as irregularidades não só causaram danos ao erário, como também proporcionaram as condições que levaram ao acidente com o Airbus A-320 da TAM em julho de 2007, no qual 199 pessoas morreram.

As informações foram divulgadas nesta segunda-feira, 16, pelo Ministério Público Federal em São Paulo. Os serviços de ampliação e recuperação da pista de pouso principal de Congonhas e reforma do pátio de estacionamento das aeronaves foram solicitados pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) em 2001.

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A companhia Talude Comercial e Construtora Ltda., dos empresários Paulo Arthur Borges e Shinko Nakandakari, foi a vencedora da concorrência pública para a execução das obras, com previsão de entrega para setembro de 2003.

Um ano antes do prazo final, em setembro de 2002, a Talude notificou a Infraero sobre a conclusão dos serviços e a entrega da obra. No entanto, segundo a Procuradoria, ao se avaliar o resultado, constataram-se várias irregularidades técnicas e inconsistências nos pagamentos efetuados à empresa. Embora os serviços estivessem inacabados, a companhia já havia recebido R$ 5,96 milhões até julho de 2002, valor superior em R$ 500 mil ao inicialmente pactuado.

A autorização dos repasses por serviços não concluídos ou realizados em desacordo com o contrato gerou prejuízos aos cofres públicos superiores a R$ 1,2 milhão, em valores atualizados. “O pagamento dissonante do cronograma, sem a efetiva execução dos serviços, esvaziou o valor do contrato antes do encerramento da tarefa, inviabilizando a conclusão da obra”, diz trecho da ação do MPF.

Após uma série de aditamentos e tentativas de solução das pendências, o contrato foi encerrado em 2004. Ainda assim, estudos técnicos indicaram diversas falhas estruturais nas obras, como índices de atrito inferiores aos adequados e empoçamento de água na pista. Com base nesses dados, a Infraero promoveu uma nova licitação em 2006 para regularizar as instalações. Porém, o Tribunal de Contas da União (TCU) detectou falhas que comprometiam a competição e a isonomia no certame e determinou o cancelamento do edital.

As obras só foram retomadas em maio de 2007, com a contratação emergencial do consórcio OAS/ Camargo Corrêa/ Galvão, que já realizava reformas em outras áreas do aeroporto. Passados 45 dias, a pista principal entrou novamente em operação, sem passar por inspeção após o término dos trabalhos. Segundo relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), houve diversos relatos de pilotos sobre pista escorregadia após o dia 15 de julho, quando voltou a chover em São Paulo. O acidente com o Airbus da TAM ocorreu no dia 17.

O consórcio responsável pela obra emergencial e funcionários da Infraero já são alvo de outra ação civil pública, ajuizada em 2009. Nela, o MPF pede o ressarcimento por diversas irregularidades não só nos serviços realizados na pista principal, mas também na pista auxiliar e no terminal de passageiros. O processo tramita na 25ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo.

RÉUS. Além da Talude e de seus representantes, são réus na nova ação os empregados da Infraero então responsáveis por gerir e inspecionar o cumprimento do contrato. A primeira comissão de fiscalização era formada pelos engenheiros Rommel Albino Clímaco, Marcelo Pissara Bahia e Carlos Eduardo Russo, que atestaram serviços não realizados e possibilitaram o pagamento das quantias à empresa contratada.

Já a segunda comissão tinha como integrantes Cecília Helena dos Santos Alzuguir e Carlos Roberto dos Santos. Cecília era gerente de engenharia da Infraero e, diante das irregularidades constatadas, deixou de tomar as medidas cabíveis, como a rescisão do contrato e a penalização da Talude. Não bastasse essa omissão, ela e Carlos Roberto registraram em 2005 que os serviços haviam sido executados dentro dos padrões e das normas técnicas estabelecidas, apesar de as pendências permanecerem insolúveis.

Ao todo, os réus tiveram R$ 2,43 milhões em bens bloqueados, valor referente aos recursos necessários para o ressarcimento dos prejuízos e o pagamento de multa, caso sejam condenados ao final do processo. Na ação, o MPF pede também que a Justiça Federal determine a perda da função pública que os envolvidos eventualmente ocupem, a suspensão de seus direitos políticos por oito anos e a proibição de que firmem contratos com o Poder Público ou recebam incentivos fiscais e creditícios por cinco anos.

A Talude, seus sócios e os funcionários da Infraero que participaram das irregularidades são réus também em outro processo, movido pela Infraero, para o ressarcimento dos danos ao erário. A ação foi ajuizada em janeiro deste ano, e todos já foram citados para que apresentem defesa.

A reportagem procurou a Talude. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A CAMARGO CORRÊA

A Construtora Camargo Corrêa não participou das obras emergenciais da pista do Aeroporto de Congonhas.

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