Juros maiores lá fora impactam a nossa economia. Gostem ou não

Juros maiores lá fora impactam a nossa economia. Gostem ou não

Roberto Dumas Damas*

10 de março de 2021 | 06h00

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

A semana de 1.º a 5 de março/2021 foi agitada nos mercados financeiros. Os paladinos da preguiça intelectual sempre usam o mesmo argumento falacioso: A taxa básica de juros (SELIC) está baixa, então a única alternativa de investimento é a bolsa de valores. Sim, a Selic está baixa e, não, existem outras alternativas de investimentos, principalmente no exterior.

É bem verdade que as bolsas no exterior continuam batendo recordes, principalmente o S&P500. O analista Poliana Brasilis sempre acaba vendo um mundo melhor. Muitos não analisam, apenas torcem, mas são míopes em suas autoavaliações. “This is just too much money”. Existe muito dinheiro emitido pelas autoridades monetárias, como forma de minimizar os impactos contracionistas da pandemia. Depois do afrouxamento monetário conduzido pelo FED e a expansão fiscal de US$5 trilhões pelo governo dos EUA, a curva de juros dos EUA começou a inclinar, aumentando os retornos, refletindo maiores expectativas inflacionárias naquele país e eventualmente uma antecipação do fim do afrouxamento monetário. Talvez devêssemos considerar avaliar investimentos em TIPS (Treasury Inflation Protected Securities). Títulos do governo dos EUA atrelados à inflação, como o nosso NTN-B. Aproxima-se a hora que o barril de chopp seja retirado da festa ou o Prosecco (mais chique) pare de ser servido?

Nesse caso alguns pontos merecem atenção:

  1. Maiores taxas de juros de longo prazo pioram o valuation das empresas, que os analistas utilizam como taxa livre de risco. Nem a Selic e nenhuma outra taxa de curto prazo deve ser considerada na determinação da taxa de desconto dos fluxos de caixa das empresas, em um processo de valuation. Ação é um investimento de longo prazo;
  2. Maiores taxas de juros lá fora, dado o nosso risco fiscal, maior a possibilidade de saída de capitais, o que levaria a uma depreciação da nossa moeda. Aliás só a expectativa de saída de capitais já leva a nossa moeda se depreciar. Nesse ponto já passamos a entender o porquê de o câmbio chegar a bater 5.73;
  3. A relação entre os dividendos das empresas que fazem parte US S&P500 com o preço das respectivas ações (dividend yield) já encostou no retorno dos UST.Bond de 10 anos. Há, portanto, de se considerar um início de migração da renda variável para renda fixa nos EUA, com óbvios impactos no nosso câmbio e na nossa bolsa;
  4. Maior virulência da segunda onda da pandemia tem levado estados e municípios a decretarem lockdowm. Muitos desavisados acabam defendendo o indefensável argumentando que distanciamento social e lockdowns não funcionam, mas relevam as aglomerações clandestinas onde o poder público sequer pode intervir sob o risco de gritos histéricos dos negacionistas. Paciência;
  5. Maiores níveis de desemprego estrutural. A pandemia nos ensinou que o home-office e o ensino hibrido funcionam, e bem. Ora, o que deverá acontecer com todos aqueles trabalhadores e microempresários que viviam da presença física dos colaboradores, alunos, professores, e que agora tendem a trabalhar de casa pelo menos 1 vez por semana? Esses empregos perdidos dificilmente serão repostos com a pratica de home-office, ensino hibrido e o acelerado processo de digitalização das empresas. Tudo isso acaba impactando negativamente nas expectativas dos agentes econômicos e no consumo das famílias.

Como as sinapses macroeconômicas e financeiras se desenrolam, maior depreciação cambial aqui, maior inflação de alimentos resultante, maior IGPM e inflação (IPCA) fora da meta, beliscando os 4% para os próximos 12 meses. Do lado do Banco Central (BACEN), nada mais justo de que um aperto monetário de pelo menos 0.5% agora na próxima reunião do COPOM em março, talvez deixando a Selic atingir entre 4.5% e 5% no final de 2021.

Mas como permitir isso politicamente se esperamos uma contração do PIB no primeiro trimestre (entre 0.8% e 1%) e muito provavelmente no segundo trimestre (0.5%) também? Pode isso, Arnaldo? Não vai prejudicar a popularidade do presidente? Petrobras foi um aviso.

Ps. Cuidado: Quando você ouvir que determinado economista, banco ou instituição financeira dizer que o PIB em 2021 vai crescer 4%, não se esqueça que 3.6% praticamente refere-se à herança estatística (crescimento zero). E aí vem mais essa do BACEN começar a subir juros? Guerra de declarações populistas e narrativas nos esperam.

*Roberto Dumas Damas, consultor independente da Ohmresearch e professor de economia do Insper

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