Juíza nega indenização a criança que levou mordida de coleguinha na creche e diz que ‘sofrimento faz parte do crescimento’

Juíza nega indenização a criança que levou mordida de coleguinha na creche e diz que ‘sofrimento faz parte do crescimento’

Vanessa de Oliveira Cavalieri Felix, da Comarca de São Gonçalo (RJ), considera que 'adultos infantilizados sobrecarregam o Poder Judiciário com ações infundadas'

Pedro Prata

01 de novembro de 2019 | 18h42

A juíza Vanessa de Oliveira Cavalieri Felix, do Fórum de São Gonçalo (RJ), negou indenização de uma creche a uma mulher cujo filho de dois anos foi mordido no braço por um coleguinha da mesma idade.

A magistrada criticou que chamou de ‘adultos infantilizados que sobrecarregam o Poder Judiciário com ações infundadas, cujo cerne é nada mais que um inconformismo com a infelicidade’.

Durante o processo, a análise da agenda escolar da criança mostrou que, em outras ocasiões, a mordida do pequeno ‘agressor’ teria sido reação a arranhões, mordidas e agressões da ‘vítima’. Foto: Pixabay/@wjgomes/Divulgação

Vanessa escreveu que ‘ser mãe é padecer no paraíso’.

Ela também anotou que é ‘como se existisse um direito absoluto à felicidade e como se o juiz tivesse o poder de garantir essa felicidade permanente e irrestrita a todas as pessoas’.

“Deste modo, a única resposta que o Estado-Juiz tem a dar para o autor e sua genitora é que a vida, e a infância, e a maternidade, são feitas de momentos bons e maus, felizes e tristes, alegrias e aborrecimentos, expectativas frustradas e superadas. Faz parte do crescer. Faz parte do maternar.”

Vanessa deu uma sugestão para resolver o problema da mãe da criança que levou a mordida. “E, por fim, se não se tem confiança na escola escolhida para o filho, o melhor caminho é escolher outra em que se consiga estabelecer esse sentimento tão importante.”

Vanessa de Oliveira Cavalieri Felix: ‘ser mãe é padecer no paraíso’. Foto: Pixabay/@fancycrave1/Divugalção

A mãe pedia indenização de R$ 20 mil da creche. Na sentença, a juíza afirmou que não há no conjunto probatório fato que ‘extrapole o absolutamente rotineiro’ ao dia a dia de crianças de dois anos de idade que convivem em uma creche.

“Crianças dessa idade frequentemente adotam comportamentos que seriam inadmissíveis para crianças mais velhas ou adultos. Choram quando contrariadas, empurram, batem, gritam. E mordem.”

Durante o processo, a análise da agenda escolar da criança mostrou que, em outras ocasiões, a mordida do pequeno ‘agressor’ teria sido reação a arranhões, mordidas e agressões da ‘vítima’.

“De fato, dói no coração da mãe receber o bebê no fim do dia com uma marca de mordida no seu bracinho”, considerou a juíza Vanessa. “Certamente, a mãe da outra criança também sofreu ao ser informada de que o autor havia batido, ou arranhado, ou mordido seu filho. Mas o sofrimento faz parte do crescimento. Já diz o ditado: ser mãe é padecer no paraíso.”

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