Juíza condena torcedor por tuitar ‘escureceu ainda mais a torcida’ contra campanha do Corinthians a favor de crianças negras

Juíza condena torcedor por tuitar ‘escureceu ainda mais a torcida’ contra campanha do Corinthians a favor de crianças negras

Renata William Rached Catelli, da Vara de São Paulo, impôs dois anos e quatro meses de reclusão em regime aberto ao torcedor que alegou estar embriagado quando fez a postagem; cabe recurso ao acusado

Wesley Gonsalves

23 de agosto de 2021 | 16h59

A 21ª Vara Criminal Central de São Paulo condenou um torcedor do Corinthians por comentários racistas na internet. Nas redes sociais, o réu atacou uma campanha do time, de 2016, que trazia crianças negras refugiadas para acompanhar partidas de futebol do time paulista. Decisão cabe recurso.

Torcida da Corinthians na Arena em Itaquera Foto: Rahel Patrasso/Reuters

De acordo com os autos, à época do crime, no Twitter, o autor das ofensas reagiu a uma foto do clube de Itaquera com quatro crianças negras para a campanha #TimeDosPovos, responsável por receber 80 refugiados de 10 países que acompanhariam uma partida do clube. “@Corinthias @A_Corinthias que merda. Só preto nessa porra. Escureceu ainda mais a torcida. Ainda bem que lá no Allianz a torcida é mais bonita”, escreveu o réu em resposta à publicação.

Após a repercussão do comentário racista feito no microblog, o Ministério Público denunciou Rodrigo Ferreira da Silva pelos comentários preconceituosos. No processo, o acusado alegou que estava bêbado quando fez as publicações. Ele também se defendeu afirmando que tem amigos negros e vive há 10 com sua companheira, uma mulher negra. O usuário teve a conta suspensa no Twitter por violar as regras de uso da rede social. Ainda conforme a ação, ao ser inquirido, o investigado confirmou ser o autor das postagens, explicando que no dia do crime ele estaria “chapado”.

Ao analisar o caso, a juíza Renata William Rached Catelli ressaltou que não se poderia admitir a versão do torcedor de estar embriagado como uma justificativa para a discriminação cometida. “O tom usado foi agressivo e hostil, inclusive pelo uso de palavras de baixíssimo nível, classificando a louvável conduta da Agremiação esportiva de acolher refugiados como “merda”, indicando que o ato “escureceu ainda mais a torcida”,em tom de nítida eugenia e discriminação racial”, avaliou. “Primeiramente,a embriaguez voluntária não exclui a imputabilidade penal. Pouco importa que o réu estivesse embriagado ao postar seu comentário, justamente por ter bebido deveria ter ficado longe de suas redes sociais”, salientou.

Para a magistrada, o acusado trouxe à tona o parentesco e amizade com pessoas negras para justificar que não seria racista, o que para a juíza seria a defesa usual daqueles que cometem crimes de racismo. “Como já assinalado na manifestação da representante do Ministério Público, invocar a existência de familiares ou amigos negros é a defesa usual de pessoas acusadas de racismo, como se isso os isentasse de atitudes racistas”, sustentou Renata ao condenar o réu.

O tribunal fixou a pena de dois anos e quatro meses de reclusão em regime aberto. A sentença foi convertida em prestação de serviços à comunidade pelo mesmo período da condenação, além do pagamento de dois salários mínimos a instituições destinadas ao combate do preconceito racial.

COM A PALAVRA, RODRIGO FERREIRA DA SILVA

A reportagem busca contato com Rodrigo Ferreira da Silva. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O CORINTHIANS

O Estadão pediu manifestação do Corinthians. O espaço está aberto

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