Juiz lembra ‘pressão’ de Geddel sobre Calero

Juiz lembra ‘pressão’ de Geddel sobre Calero

Em novembro, ex-ministro de Temer - preso nesta segunda-feira, 3, em Salvador - ‘tentou persuadir’ o então ministro da Cultura a liberar um empreendimento de luxo onde tinha um apartamento em área histórica de Salvador

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fábio Serapião

03 Julho 2017 | 18h35

Geddel Vieira Lima. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Na decisão que mandou prender o ex-ministro Geddel Vieira Lima o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal, reacendeu um capítulo recente do governo Temer, envolvendo o embate entre o aliado muito próximo do presidente e o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero. O magistrado destacou a ‘pressão’ de Geddel sobre o ex-ministro para conseguir a liberação das obras de um apartamento de luxo em área histórica de Salvador. Segundo o magistrado, Geddel ‘tenta persuadir pessoas’.

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A prisão de Geddel não está relacionada ao empreendimento de alto padrão La Vue Ladeira da Barra, onde o ex-ministro tem um apartamento. O caso provocou uma crise no Governo Temer. Em novembro do ano passado, o então ministro Calero denunciou supostas pressões do peemedebista para que a Pasta liberasse a construção. Geddel acabou deixando o governo.

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Marcelo Calero. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O ex-ministro foi preso na tarde desta segunda-feira, 3, na Bahia, no âmbito da Operação Cui Bono?, por supostamente tentar obstruir investigação que apura irregularidades na liberação de recursos da Caixa Econômica Federal. Ao mandar capturar Geddel, o juiz citou o episódio do apartamento em Salvador, mas deixou claro que o caso não está relacionado com a investigação da Cui Bono?

“Não é a primeira que Geddel Vieira tenta tem persuadir pessoas ou pressioná-las, conforme explana a autoridade policial ao mencionar episódio ocorrido há pouco tempo, embora não relacionado com os fatos: “Outrossim, Geddel Vieira Lima já deu exemplo de ser capaz de utilizar sua influência política para tentar seu favorecimento indevido, como ocorreu recentemente no episódio que envolveu o ex-ministro Marcelo Calero, em que Geddel, então secretário de Governo da República, valeu-se de sua pública e notória influência para obter decisão administrativa que beneficiaria empreendimento em que havia adquirido imóvel particular, nada impedindo que volte a exercê-la, agora em questão até mais grave”.”, destacou o magistrado.

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A prisão de Geddel é de caráter preventivo e tem como fundamento informações fornecidas em depoimentos recentes do doleiro Lúcio Bolonha Funaro, do empresário Joesley Batista e do diretor jurídico do grupo J&F, Francisco de Assis e Silva. Os executivos da controladora da JBS falaram em suas delações premiadas.

No pedido enviado à Justiça, a Procuradoria da República, no Distrito Federal, afirmaram que o político tem agido para atrapalhar as investigações. O objetivo de Geddel seria evitar que o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o próprio Lúcio Funaro firmem acordo de colaboração com o Ministério Público Federal. Para isso, segundo os investigadores, tem atuado para assegurar que ambos recebam vantagens indevidas, além de ‘monitorar’ o comportamento do doleiro para constrangê-lo a não fechar o acordo.

O juiz Vallisney aponta para risco ‘iminente’ se Geddel ficar solto.

“O risco é iminente de prejuízo ao processo e ao inquérito, sobretudo no estágio das investigações desta Operação Cui Bano e na fase instrutória judicial do processo em que são réus presos Eduardo Consentino da Cunha, Lúcio Bolonha Funaro e Henrique Eduardo Alves, além dos réus soltos Fábio Ferreira Cleto e Alexandre Margotto”, anotou o magistrado.

“É que em liberdade, Geddel Vieira Lima, pelas atitudes que vem tomando recentemente, pode dar continuidade a tentativas de influenciar testemunhas que irão depor na fase de inquérito da Operação Cui Bano, bem como contra pessoas próximas aos coinvestigados e réus.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO GAMIL FÖPPEL, QUE DEFENDE GEDDEL

A defesa técnica do Senhor Geddel Vieira Lima vem registrar sua incompreensão em relação ao absolutamente desnecessário decreto de prisão preventiva. Decerto, diante da ausência de relevantes informações para sua decisão, inexplicavelmente não relatadas na representação policial, a autoridade judiciária infelizmente laborou em erro. Dessa forma, acabou por não considerar que, desde o momento em que o Senhor Geddel Vieira Lima se viu injustamente enredado no bojo da “Operação Cui Bono”, colocou-se à disposição das autoridades constituídas, para apresentar os documentos que lhe fossem solicitados, assim como comparecer a todos os chamados que eventualmente lhe fossem formulados, inclusive abrindo mão dos seus sigilos bancário e fiscal, assim como do seu passaporte. Assim, em que pese tenha sucessivamente se disponibilizado a prestar depoimento, inacreditavelmente, até o presente momento, jamais foi intimado para tanto, revelando uma preocupação policialesca muito mais voltada às repercussões da investigação para grande imprensa, do que efetivamente a apuração de todos os fatos. Ademais, deixou de ser relatado que, mesmo no depoimento prestado à Procuradoria-Geral da República, Joesley Batista foi enérgico em pontuar que jamais pagou propina (ou qualquer tipo de vantagem indevida) ao Senhor Geddel Vieira Lima. Enfim, diante da ausência de relevantes informações, acabou-se por não apreciar os substanciais elementos que comprovavam a inadmissibilidade da prisão preventiva no caso concreto. Sabedor da sua inocência e confiante na altivez do Poder Judiciário, o Senhor Geddel Vieira Lima segue inabalável na reparação do cerceamento às suas liberdades fundamentais, registrando que, estando custodiado, deposita sua integridade física nas mãos da autoridade policial.