Juiz da Lava Jato põe doleira Nelma Kodama no banco dos réus por falso testemunho

Juiz da Lava Jato põe doleira Nelma Kodama no banco dos réus por falso testemunho

Segundo Procuradoria, ‘Dama do Mercado’ teria mentido em depoimentos nos autos de investigação sobre policiais federais que teriam fabricado dossiê com dados funcionais sigilosos e inverídicos sobre a Operação Lava Jato

Pedro Prata e Luiz Vassallo

20 de setembro de 2019 | 16h37

O juiz federal Luiz Antonio Bonat, da 13.ª Vara Federal Criminal de Curitiba, recebeu denúncia contra a doleira Nelma Kodama, a ‘Dama do Mercado’, por suposto falso testemunho em 2015.

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A denúncia foi apresentada pela força-tarefa do Ministério Público Federal, no âmbito de uma investigação de policiais que teriam fabricado dossiê com dados funcionais sigilosos e inverídicos sobre a Operação Lava Jato.

Ao acolher a denúncia e tornar Nelma ré, o juiz Bonat ponderou que ‘a denúncia funda-se, basicamente, em informações constantes das declarações prestadas pela denunciada e pelas testemunhas, como antes indicado, o que permite concluir pela presença de indícios da existência de crime e de sua autoria.’

Nelma Kodama, a ‘Dama do Mercado’. Foto: Divulgação

Em 15 de abril de 2015, Nelma teria feito o reconhecimento fotográfico do delegado de Polícia Federal Rivaldo Venâncio e teria ‘prestado declarações falsas, ocasião em que declarou que ‘por volta de abril/maio de 2013 até a transferência da depoente em 11 de junho de 2014, referida pessoa constantemente frequentava o corredor em frente às celas de Alberto Youssef (cela 3), mantendo contato com o mesmo, sem conseguir ouvir o teor da conversa (pelo tom de voz baixo, exceto quanto às risadas e palavras de cumprimento rotineiro)’.

Ela ainda teria dito que ‘referido sujeito não trajava terno, mas roupa social ou traje informal, sendo que estava lá em diferentes horários, desde períodos noturnos, diurnos e às vezes aos finais de semana.’

Em depoimento, o delegado Rivaldo Venâncio informou que apenas comparecera uma vez ao presídio, em inspeção do Ministério Público Federal. Outras testemunhas corroboraram sua versão, como o responsável pela carceragem Paulo Romildo Rossa Filho.

Nelma teria mentido, também, sobre a participação do escrivão Cleverson Ricardo Hartmann no esquema que pretendia atrapalhar a Lava Jato, a partir de uma conversa que teve com uma delegada de polícia.

Questionada, Nelma ressaltou que ‘estava em um estado de nervosismo muito grande, sob grande pressão, e novamente ressalva que fez o referido depoimento como forma de precaução e não pretendia em nenhum momento denegrir a imagem profissional do escrivão Hartmann.’

Seguiu dizendo que ‘não foi induzida nem pressionada a dar o referido depoimento em relação a Hartmann, que também acrescenta que não pretendia denegrir a imagem profissional do delegado Rivaldo, apenas informar as pessoas que frequentavam a carceragem como um todo e que não possui nenhuma prova ou conhecimento do envolvimento dos referidos policiais em atividades contra a Operação Lava Jato.’

Nelma já postou foto no Instagram com vestido vermelho, sapato Chanel e a tornozeleira eletrônica. Reprodução/Instagram

NA CALCINHA

A doleira foi presa no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos/Cumbica, na madrugada de 15 de março de 2014, quando tentava embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros escondidos na calcinha.

Em julho último, Nelma publicou uma foto em seu perfil no Instagram com vestido vermelho, sapato ‘Chanel’ e a tornozeleira eletrônica.

Ela teve extinta sua pena de 15 anos de prisão decretada na Operação Lava Jato, graças ao indulto natalino concedido no final de 2017 pelo ex-presidente Michel Temer.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ADIB ABDOUNI, QUE DEFENDE NELMA

Eu vejo que não tem justa causa para se manter uma ação penal nesse sentido mesmo porque na fase de inquérito existe a possibilidade da retratação e ela foi feita.

No momento em que ela foi acusada, ou chegou a falar sobre a presença do delegado na carceragem foi como se ele tivesse passando por ali, mas não que de forma intencional ou dolosa ela quisesse acusar o delegado.

Como ela estava em cárcere, sofria uma depressão muito grande. Tomava remédios, fazia acompanhamento psiquiátrico. E estava sofrendo uma uma pressão muito grande porque a todo momento queriam que ela fizesse uma delação.

A pessoa com doenças e diversas situações não tem o valor jurídico necessário para o delegado utilizar.

Também não teve nenhum prejuízo para esse delegado”.

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