Jucá ‘porta de entrada’ pegou R$ 4 mi por resolução contra a ‘guerra dos Portos’, dizem delatores

Jucá ‘porta de entrada’ pegou R$ 4 mi por resolução contra a ‘guerra dos Portos’, dizem delatores

Executivos da Odebrecht contaram à força-tarefa da Lava Jato que em 2012, senador do PMDB por Roraima, hoje líder do Governo no Senado, era considerado o caminho para a defesa dos interesses do grupo

Isadora Peron, de Brasília

14 de abril de 2017 | 20h50

Romero Jucá. Foto: Estadão

Romero Jucá. Foto: Estadão

Segundo relatos de delatores da Odebrecht, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), teria recebido R$ 4 milhões em propina por ter ajudado a aprovar uma resolução no Congresso para acabar com a chamada ‘guerra dos Portos’, em 2012. O caso será investigado em um dos cinco inquéritos abertos contra o peemedebista pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A atuação de Jucá na aprovação da medida foi mencionada nos depoimentos do empresário Marcelo Odebrecht, do ex-diretor de Relações Institucionais Cláudio Melo Filho e do ex-presidente da Braskem Carlos Fadigas.

Coube a Melo Filho as negociações com Jucá sobre a matéria, que unificou as alíquotas do ICMS para acabar com a disputa fiscal entre os Estados para aumentar os desembarques em seus portos.

Segundo o delator, o fato de Jucá ter sido “líder de vários governos”, fez com que a Odebrecht visse nele “a porta de entrada” para a defesa dos interesses da empresa no Senado. Após a aprovação da resolução, porém, Jucá apresentou a fatura e pediu ajuda para o processo eleitoral.

Melo Filho disse que os R$ 4 milhões foram pagos “em espécie, sem dúvida nenhuma, porque o setor de operações estruturadas só trabalha assim”.

Ele também afirmou que, durante o tempo que esteve à frente da diretoria, Jucá deve ter embolsado mais R$ 15 milhões em pagamentos da Odebrecht. “Eu sempre tive uma certeza: todo apoio desenvolvido pelo senador, teria, nos momentos de campanha, uma conta a ser paga. As insinuações não deixavam duvidas de que no momento certo eu seria demandado pelo parlamentar”, afirmou no anexo apresentado durante o processo de delação.

O diretor também disse acreditar que Jucá não era apenas uma liderança política do PMDB, mas que ele “concentrava a arrecadação e distribuição dos recursos destinados ao partido”, e atuava em parceria com os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Eunício Oliveira (PMDB-CE).

Segundo relatos, a preferência dada a Jucá na interlocução sobre a guerra dos portos deixou um outro parlamentar “chateado”: o então senador Delcídio Amaral (ex-PT-MS). Ele teria procurado interlocutores na Odebrecht para entender por que não havia sido “contemplado na discussão”. Após o movimento, Delcídio teria recebido um pagamento de R$ 500 mil.

Executivo. O contato com ministros do governo, porém, ficou sob a responsabilidade de Marcelo Odebrecht. Para conseguir acabar com a “guerra dos portos”, ele procurou os então ministros Guido Mantega (Fazenda) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior). O empresário também tratou do assunto em um reunião com a ex-presidente Dilma Rousseff.

Em um de seus depoimentos gravados, o empresário diz que esse foi um dos temas “que ocupou grande espaço” em sua agenda, e que, pela relação que tinha com o governo, ele “acabava sendo um dos interlocutores mais constantes do Guido nesse tema”.

COM A PALAVRA, JUCÁ

Em nota, Romero Jucá afirmou que sempre esteve e sempre estará à disposição da Justiça para prestar qualquer informação.Também disse que, durante as campanhas eleitorais, sempre atuou dentro da legislação e teve todas as contas aprovadas. O Estado não conseguiu contato com o advogado de Delcídio Amaral.

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