José Eugênio Soares (1938-2022)

José Eugênio Soares (1938-2022)

José Renato Nalini*

06 de agosto de 2022 | 15h20

Jô Soares. FOTO: EPITACIO PESSOA/ESTADÃO

Assim como eram múltiplos os seus personagens, o José Eugênio também era muitos. Conheci mais de perto um deles: o acadêmico Jô Soares, que desde 2016, passou a integrar a Academia Paulista de Letras, ocupando a Cadeira 33, que foi de Altino Arantes, na sucessão a Francisco Marins.

Mostrou-se fiel cumpridor dos rituais da Instituição. Enquanto pode, frequentou as sessões das quintas-feiras. Iniciada a fase da pandemia, fez-se presente online, até que a saúde o permitiu. Era sempre um dos primeiros a votar nas sucessões, pois – paradoxalmente, a vida das Academias depende da morte dos seus integrantes. Fazia questão de explicar o motivo da escolha. Justificava por escrito sua opção.

Gostava de lembrar que sua primeira visita à APL, assim que eleito, confundiu Paulo Nathanael Pereira de Souza com Paulo Bomfim. O “Príncipe dos Poetas Brasileiros” estava ausente nessa tarde, o que era excepcional. Jô derramou-se em elogios à sua poesia, ao seu amor por São Paulo e lembrou que a primeira exposição de suas obras artísticas fora na galeria de Emy Bomfim, esposa do poeta. Ninguém teve coragem de dizer que o Paulo presente era outro!

Na quinta-feira seguinte, ele voltou e comentou a gafe. Dizia que estava arquitetando um livro sobre a Academia Paulista de Letras, assim como escrevera “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras”, pois o convívio com a Casa de Cultura do Largo do Arouche fornecera abundante material para outro romance.

Celebridade festejada no Brasil inteiro, era uma personalidade terna e doce, de incrível fragilidade afetiva. Impressionou-se com o título de um livro meu, o “Pronto Para Partir?”, reflexões jurídico-filosóficas sobre a morte e sempre iniciava nossas frequentes conversas, ultimamente por telefone, com essa pergunta: “Querido: está pronto para partir?”. Dizíamos juntos: “Eu não!”.

Perguntava se eu pensava diariamente que aquele dia poderia ser o último em minha vida. Falava da perda do filho autista, em 2014. Interessava-se pela vida brasileira e ficava pasmo com o que nosso país estava apresentando ao planeta, um cenário verdadeiramente surreal: “Como é que passamos da confortável situação de promessa verde para a descarbonização do mundo, à miserável condição de pária ambiental?”.

Suas ligações eram à noite. Percebi que estava solitário, sentia as atribulações de precário estado de saúde e queria conversar. Há pouco mais de um mês, enquanto dava aulas, vi que meu celular recebera seis ligações sucessivas de um telefone fixo. Eram recusadas, pois não podia interromper o diálogo com meus orientandos. Mas assim que terminei o encontro liguei para o número das chamadas. Quem atendeu pediu minha identificação e repetiu meu nome em voz alta. Imediatamente o Jô tomou o telefone: “Querido: queria dizer que não estou pronto para partir e não quero abrir vaga!”.

Eu respondi que ele nunca abriria vaga. Era imortal de verdade. Por tudo aquilo que fez com que o Brasil descobrisse em termos de talento e riqueza humana. Suas entrevistas eram reveladoras de quanto potencial existia nesta nação, quanta gente a trabalhar por causas nobres, quantos tesouros que restariam escondidos se ele os não revelasse.

Retrucava brincando: “Mas nossa querida Lygia Fagundes Telles não diz que somos imortais porque não temos onde cair mortos?”. Ríamos dessa fala da queridíssima que também nos deixou em abril deste fatídico 2022. Quando insisti com ele, várias vezes, que ao menos voltasse a aparecer na telinha, pois estávamos “morrendo de saudades”, dizia que estava “tomando fôlego”. Iria se recuperar e logo mais estaria conosco. E que suas saudades também eram “infinitas”…

Jô vai permanecer conosco durante o termo final de nossa existência. Estes dias já comprovaram o que existe de incomensurável em seu legado. Trechos de entrevistas, frases, a criatividade e o ecletismo que o tornaram único, inconfundível, insubstituível. Mas farão falta os telefonemas, a profusão de beijos com que se despedia, ao vivo ou por e-mail. A delicadeza com que tratava assuntos escabrosos, que hoje não faltam a este país, o carinho e a ternura tímida de um domador de emoções, tudo isto é irrecuperável. Não há refil para seres como Jô Soares!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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