‘Encontrei meu marido lá no IML, todo varado de bala’

‘Encontrei meu marido lá no IML, todo varado de bala’

Leia no relato do repórter Luiz Vassallo a história do auditor da Receita José Antônio Sevilha, executado há quase 15 anos em Maringá, supostamente a mando de um empresário autuado em R$ 100 milhões; o caso será julgado nesta terça, 3

Luiz Vassallo

02 de março de 2020 | 05h00

Um corpo no IML. É Sevilha, cinco balaços

José Antônio Sevilha. Foto: Acervo Pessoal

“Encontrei meu marido lá no IML, todo varado de bala, e eu estava tão desesperada que nem isso eu vi. Eu só consegui olhar para o rosto dele, e ver o rosto dele, com uma lágrima, e com a boca aberta, e então eu achei que ele estava tentando respirar, que se eu conversasse com ele, pedisse, ele iria voltar”.

O choro de Mariângela Gasparro Sevilha ainda é desesperado, como se tivesse acabado de deixar o Instituto Médico Legal, mas foi há 14 anos e meio que ela reconheceu o corpo de seu marido, José Antônio Sevilha, então próximo de completar 46 anos, chefe da seção aduaneira da Receita Federal de Maringá, assassinado com cinco tiros à queima roupa.

O caso é o primeiro da história do júri na Justiça Federal da cidade, competente para crimes contra agentes públicos federais no exercício do cargo, e será julgado nesta terça, 3.

No banco dos réus, está o executivo de uma grande importadora de brinquedos, Marcos Oliveras Gottlieb, acusado de ser o mandante – ele admitiu ter chegado a cogitar propinas de R$ 200 mil à vítima, e a Procuradoria o acusa de matar o auditor em razão de investigações sobre sua empresa. Seus advogados levantam a tese de que detetives pagos pela mulher do auditor para desvendar uma amante poderiam ter cometido o crime.

Banco do Fiat Brava de José Antonio Sevilha manchado de sangue após execução

O empresário foi preso na reta final do processo sob suspeita de se esquivar de intimações da Justiça.

Um ex-policial civil de São Paulo, Jorge Luís Talarico, acusado de executar o crime morreu na prisão, em 2018, após sequestrar o dono de uma gigante empresa de ônibus da capital paulista que chegou a ser sua testemunha de defesa no processo – no cativeiro, ele relata ter sido ameaçado com uma serra elétrica.

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Um atirador responde na prisão, e um quarto executor sumiu do mapa. Um intermediário se defende em liberdade.

Office boy, injeções e os bichanos

Foto: Acervo Pessoal

Nascido em 1959, José Antônio Sevilha começou a trabalhar aos 10 anos, em Americana (SP), quando seu pai foi embora, e a mãe ficou com a guarda dele e dos dois irmãos.

Aos 12, era balconista de uma farmácia em São Paulo e já aplicava até injeções nos clientes. Aos 14, office boy na Sabesp. Aos 17, entrou para a Volks. Estudava num turno, trabalhava noutro. Só aos 38, em 1997, entrou para a Receita.

O primeiro encontro com Mariângela foi na casa dela. “E eu abri a porta e entrei, quando vi meu marido deitado, dormindo, na minha cama”. É que a irmã dela havia tido um filho, e Antônio era irmão do pai do recém nascido. Estava apenas hospedado na casa da família dela.

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“Eu lembro até a roupa. Ele estava com uma jaqueta de couro preta, uma camiseta marrom clarinha, uma calça jeans e botas”.

Ele acordou e, na primeira conversa, se entenderam. Um ano depois, estavam casados.

Gostava de resgatar animais nas ruas. Chegou a subir no telhado de garagens para resgatar gatinhos. Pelo apartamento de Sevilha e Mariângela, com quem teve três filhos, teriam passado 25 bichanos. “A gente levava, castrava todos os gatos, deixava no lugar e ficamos até o último dia de vida deles”, diz a viúva.

O fiscal

Placa em homenagem a José Antônio Sevilha

Em 2005, já na chefia da fiscalização de importações e exportações da Receita em Maringá, havia voltado a fumar, estava preocupado. Acreditava que os telefones estavam grampeados, trancava sua sala quando se ausentava, mandava auditores gravarem suas diligências.

Uma vez, com a filha, atendeu um telefonema, mas não alardeou. “Não é nada, filha, não se preocupa que o pai é safo.” Haviam o mandado tomar ‘cuidado’. Cogitou comprar uma arma.

Naquele ano, flagrou um colega com 25 anos de carreira no Fisco surrupiando CDs e um HD apreendidos em uma investigação.

Em seus próprios procedimentos comprou briga com gente grande. Levantou o tom com o executivo Marcos Gottlieb, dono da Gemini, em plena sede da Receita: “Você não é contribuinte, é bandido!”, ouviram dele colegas que presenciaram a cena.

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À época, a empresa era uma das maiores fornecedoras de brinquedos da Disney no Brasil, e era alvo de 12 procedimentos de investigação que poderiam suspender seu CNPJ – na prática, o fechamento.

Seu dono fazia questão de falar com Sevilha pessoalmente.

Chega um rádio

Sevilha teria contado a auditor que donos da Gemini seriam intimados de devassa no dia 30; ele morreu um dia antes

No Natal de 2004, meses antes da desavença, Sevilha estava em viagem, e sua mulher recebeu das mãos de entregadores um aparelho de som. Quando voltou, ele teria dito que não o comprou, e não sabia de onde viera a entrega, mas ficou com o aparelho.

Meses depois, toca o telefone na Receita em Maringá. Do outro lado da linha, uma pessoa denunciava que a Gemini havia enviado o aparelho de som ao auditor.

Sevilha foi convocado a se explicar, um procedimento disciplinar chegou a ser aberto. Como um neto teria chutado um botão do equipamento, o auditor comprou um novo, e Gottilieb foi chamado à Receita para a devolução do presente. A apuração foi arquivada.

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Hoje, Gottlieb assume que mandou o aparelho como ‘um agrado’ após Sevilha liberar uma carga da Gemini, e se disse surpreso com a devolução. Já colegas no Fisco contam que o auditor se revoltou com o episódio, disse que lidava com ‘bandidos’ e que ‘temia’ por sua família.

O telefonema que denunciou o suposto ‘presente’ veio da empresa Ocean. Estava em nome de uma funcionária que atribui o uso do número aos donos da empresa.

Gemini e Ocean tinham em comum, além de investigações tocadas por Sevilha, um advogado que é ex-delegado da Receita em Maringá, Arcanjo Valério de Lima.

Gottlieb alega que Arcanjo recebeu de Sevilha os dados para a entrega do aparelho, que foi feita por dois funcionários da Gemini.

O advogado e ex-delegado da Receita também teria questionado o auditor sobre o motivo da demora e a diferença entre o aparelho enviado e aquele que fora devolvido. A colegas, Sevilha reagia e dizia que as empresas armaram a entrega do rádio para ‘queimá-lo’.

Festa na chácara

Empresário da Gemini admite negociação com contador para fisgar Sevilha com propina

As investidas não teriam parado. Marcos Gottilieb admite que Arcanjo teria contato com um contador que teria acesso a Sevilha. Teriam planejado festa com prostitutas em uma chácara, e propina de R$ 200 mil. Em depoimento, o empresário conta que perguntou ao contador se ‘cinquenta pau resolve’.

“Não, ô, Marcão. Cinquenta não. (…) E ele falou: “Ó, cem pau e a gente já fez coisa muito menor que a tua. Bem menor”. (…). “Ah, ah. Duzentos pau, vamo?”, “Vamos ver”. Foi bem assim. (…) Aí ele começou a argumentar: não sou seu, que é Benjamin que vai estar envolvido, mas ter que somar o Benjamin no meio da ponte, o Gerson vai ter que ganhar também, o Sevilha você sabe que pra dobrar ele não é barato…”, relatou o empresário à Justiça.

A lógica, segundo ele, era simples. “O meu auto vai ser trezentos e sessenta mil, vou ter a cassação do CNPJ e trezentos e sessenta mil. Aí veio a proposta: você quer pagar trezentos e sessenta e já montar outra empresa, ou você quer pagar duzentos mil e ficar todo mundo amigo? Duzentos mil e “Fica todo mundo amigo””.

O dinheiro não chegou a ser oferecido, mas o auditor disse à época, a colegas na Receita, que já havia sido abordado pela Gemini por uma suposta ‘conversa para fazer um acerto’.

Se no trabalho não ia bem, em casa, o casamento também ia mal. Sevilha morava com os pais, mas ainda frequentava a casa de sua mulher e filhos. É que Mariângela contratou um detetive e o flagrou com a amante, com quem saía desde um ano antes. “Ele vinha todos os dias na minha casa. Ele só ia para a casa da mãe dele dormir. Porque quando eu descobri, eu falei: olha, você resolva essa situação e volte logo para casa”.

‘Cuide das crianças’

Pneu do carro de José Antonio Sevilha foi parte do plano para emboscá-lo

No dia 29 de setembro de 2005, Mariângela foi submetida a uma cirurgia no hospital São Marcos, em Maringá. Sevilha a acompanhou naquela manhã até o centro cirúrgico. Havia risco, já que meses antes ela teve uma parada cardíaca em outra cirurgia, em razão da anestesia.

“Na porta, eu falei: se acontecer uma coisa comigo, cuide das crianças, por favor. Ele me abraçou, me deu um beijo e falou: eu vou antes de você, fique tranquila”, conta.

“Quando eu saí, ele estava ali fora me esperando, e nós fomos para o quarto, e ele me perguntou se queria alguma coisa. Eu falei: eu quero sim, eu quero um chocolate, porque eu estou desde ontem sem comer. Eu tenho vontade de comer um chocolate. Ele saiu, comprou um Suflair, que era o que eu gostava, e comprou um Diamante Negro, porque ele gostava e ele trouxe. Ele ficou ali, as crianças chegaram, ele foi para a Receita, mas não demorou. Foi rápido. Voltou, ficou comigo”, relata.

Em seguida, Sevilha deixaria o hospital para voltar à casa da mãe e, em seguida, na mesma noite, retornaria para buscar Mariângela e os filhos.

Do lado de fora do hospital, Maria Izabel Zacarelli, a amante, consumida por ciúmes, o seguia.

Segundo ela, eles já teriam se encontrado duas vezes, naquele mesmo dia, quando o auditor não estava no hospital.

Ela voltava do cursinho, onde estudava para também ser auditora, e passou no hospital, onde sabia que ele acompanhava sua esposa. Foi quando viu dois sujeitos, um deles possivelmente armado, pelo volume de um suposto coldre em sua calça, mexendo no pneu do carro de Sevilha.

Maria Izabel os seguiu com seu automóvel, mas eles apertaram o passo, e, olhando para trás, desconfiados, desapareceram em meio às ruas. De volta ao hospital, chegou a ver Sevilha sair rapidamente, entrar no carro, e partir para a casa da mãe.

Não o alcançou, mas dirigiu atrás do auditor até a casa de sua mãe, onde ele parou o carro na rua. À Polícia, ela diz que, quando ele descia do carro, o alertou de que era seguido. Ele desconversou, queria falar somente sobre seu relacionamento. Ela o deixou e foi para casa.

A moto vermelha

Maria Izabel, a amante, narra que seguiu bandidos que estavam atrás de Sevilha

Por volta das 20h, enquanto Mariângela ligava para seu marido repetidas vezes, do hospital, em frente à casa da mãe do auditor, uma vizinha ouviu um forte ronco de motor. Olhou pela janela e viu, em frente à sua casa, uma moto vermelha. Em cima dela, um homem alto, moreno, com o rosto coberto pelo capacete.

O motoqueiro não parava de acelerar, lembra ela. O telefone tocou, Suellen atendeu, perdeu a cena de vista.

Quando voltou à janela, a moto havia sumido, Sevilha já estava morto dentro do carro. Ela não ouviu os tiros.

Em frente à sua casa, o Fiat Brava estava parado, sem o freio de mão puxado, com os vidros abertos, com a chave ainda na ignição, virada para a posição de ‘desliga’.

Cinco tiros de 7.65, Sevilha está morto

Fiat Brava de José Antônio Sevilha após execução

Os pneus estavam rasgados, as janelas, abertas, deixando à mostra o corpo de Sevilha, atingido no coração, no tórax, no braço e no ombro – cinco tiros calibre 32 disparados por uma pistola 7.65 milímetros. Outras cinco cápsulas repousavam no asfalto, ao lado do carro.

A Polícia e o Samu foram chamados às 20h23, mas já encontraram o auditor fiscal morto. Nada foi roubado – celular, carteira com dinheiro, cartões, documentos foram deixados para trás. De cara, policiais suspeitaram de uma execução premeditada.

Maria Izabel voltou à casa da mãe de Sevilha, queria falar sobre o futuro do relacionamento – do qual esperava até filhos. Quando chegou à rua, viu as viaturas e ouviu as sirenes da Polícia, o brilho azul e vermelho do giroflex. O corpo já havia sido retirado.

Mariângela, por outro lado, foi informada sobre a morte depois de muito insistir. O dia que se iniciou com uma cirurgia terminou no IML, reconhecendo o corpo do marido. “Eu sei que ele vai voltar”, ela dizia. Mas ele não voltou.

A PF assume o caso

Relatório da Polícia Federal descarta atuação da família no crime. (nome de testemunha preservado)

Por se tratar de um crime contra a vida de um agente da Receita, a investigação coube à Polícia Federal. Nenhuma possibilidade foi descartada, de início.

Foram investigados a fundo um servidor municipal de Maringá, a família de Sevilha, e até o auditor que ele flagrou afanando mercadoria apreendida.

A outra hipótese, que viria a prosperar, era a de que a motivação do assassinato seria o incômodo causado por Sevilha a empresas que ele fiscalizava.

A PF interrogou familiares sobre o caso extraconjugal.

Maria Izabel disse que a mulher do auditor chegou a ameaçá-los, quando os flagrou caminhando num parque, mas que jamais cometeria o crime, já que no próprio dia da morte de Sevilha, recebeu uma ligação, às 23h30, de Mariangela. Dela, teria recebido o convite para ir à sua residência para homenagear o marido, já que ela teria sido também ‘importante na vida dele’.

A quebra de sigilo dos detetives que flagraram o relacionamento de Sevilha e Maria Izabel mostrou que o serviço particular foi pago pela esposa meses antes, e o sigilo telefônico mostra que nem os investigadores privados, nem pessoas próximas a ele estavam perto do auditor no dia do crime.

Os diálogos, de acordo com a PF, mostram que o pagamento da mulher do auditor aos detetives era o mesmo de outros clientes, e que suas rotinas, com outros contratos, era normal, sem qualquer envolvimento ou proximidade com o assassinato.

Os detetives chegaram a ser presos em uma investigação que mirava supostas extorsões contra pessoas que eles seguiam.

No entanto, de acordo com a Polícia Federal, foi apurado que, além de terem parado de falar com a mulher do auditor meses do assassinato, os detetives estavam, no dia do crime, seguindo a mulher de um advogado, que os teria contratado para descobrir, também, um caso fora do casamento.

Uma agenda foi apreendida pelos investigadores. Nela, os detetives faziam registros pessoais, e narravam estar, no dia do crime, e até alta madrugada seguinte, seguindo a mulher do advogado, que foi ouvido e confirmou tê-los contratado para fazer o serviço nesses dias.

PF encontra em agenda de detetives registro de que faziam outro serviço no dia do assassinato de Sevilha (nome do advogado, que não é alvo da investigação, preservado)

Eles foram presos temporariamente, e acabaram investigados somente por extorsões contra pessoas que seguiam, mas a PF não identificou qualquer referência a uma possível extorsão contra o auditor da Receita.

A PF também descartou a desavença de trânsito, em que um servidor da Prefeitura foi condenado em processo administrativo a reparar o carro da Receita. Ele disse não ter inimizade e admite culpa no acidente que se envolveu com o auditor nas ruas de Maringá.

Para a PF, o agente pego em flagrante com os HDs e CDs apreendidos não tinha rancor de Sevilha já que o auditor não o escolheu a dedo para flagrá-lo, e, sim, foi designado a apurar a ocorrência. No fim, ele mesmo admite que pegou indevidamente o material confiscado.

No rastro dos alvos de Sevilha

Do estacionamento, na Avenida Herval, dava para ver um Celta e uma Fiorilo em tocaia, próximos da Receita

A Polícia Federal já seguia o rastro de empresas que tiveram o cerco fechado por Sevilha. Contra a Gemini, recaíam o episódio do rádio, as desavenças em frente a colegas, além do procedimento que fulminaria a empresa.

Havia animosidade, não provas de envolvimento, mas o fio da meada veio a partir de um funcionário do estacionamento em frente à Receita Federal.

Segundo ele, durante toda a manhã do dia em que o auditor foi assassinado, três homens estacionaram um carro e ficaram sob a marquise do Ministério Público Estadual em Maringá, vizinho da sede da Receita. Eles estavam em uma Fiat Fiorino, e, 15 dias antes, inauguraram aquela rotina em um Celta. Depois do crime, sumiram.

Ele era amigo de um funcionário de uma empresa que ficava próxima do estacionamento, e do local da possível tocaia, e chegou a obter gravações das câmeras de segurança do estabelecimento – as imagens pegam os carros e suas placas.

Em consulta às placas, a Receita constatou que a Fiorino pertencia a Joel Ranea, contrabandista que havia sido preso em 2000, em Ourinhos, no interior de São Paulo, com um ônibus. Já o Celta estava em nome de Osvaldo Faraoni, funcionário da Gemini, apontado como ‘testa de ferro’ de Gottlieb, que estava registrado como o ‘condutor’ do veículo nos papéis de sua locação.

O empresário cai no grampo

Gottlieb cai no grampo com Jorge Talarico, policial da banda podre de São Paulo

A essa altura, Gottlieb não era apenas investigado pela morte do auditor, mas também por supostas fraudes que culminaram com a lacração da Gemini. Segundo a PF, mesmo depois de ser suspensa, a Gemini abria CNPJs em nomes de laranjas para continuar a operando.

O empresário foi grampeado com o ex-policial civil de São Paulo Jorge Luís Talarico, que prestava serviços à Gemini.

Eles combinavam um encontro em uma boate da qual o ex-policial era proprietário. O elo entre Talarico e o dono da Gemini aproximava o dono da Fiorino do crime.

Joel Ranea é cunhado do ex-agente de segurança, que já tinha uma condenação por estelionato, e havia chefiado o 99.ª DP, na Zona Sul de São Paulo.

Talarico era tido como ‘banda podre’ da polícia. Além de ser dono de casas de prostituição, prestava serviços de segurança privada, e já acumulava investigações sobre seu patrimônio, incompatível com a função de policial.

Em grampo, a prima do ex-policial, Donizete, que trabalhava em uma de suas boates, perguntava onde ficava Maringá e se ela havia ouvido falar sobre o assassinato de um auditor.

Uma testemunha que se manteve em anonimato ainda havia dito aos investigadores que, além de articular a morte de Sevilha, a mando de um empresário chamado ‘Marcos’, ‘do ramo de brinquedos’, ele também estaria envolvido na morte do dono de uma empresa de viação de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, a mando de um concorrente.

No cruzamento de dados de estações rádio-base – centrais de controle de telefonia -, a PF identificou que os celulares de Talarico, seu sobrinho, Fernando Ranea, e o funcionário da Gemini Moacyr Macedo, estavam todos em Maringá no dia do assassinato do auditor.

Também estavam próximos, e à distância de metros do percurso que o auditor fez, naquele dia, entre o hospital e a casa da mãe. Após o horário em que o auditor foi assassinado, deixaram a cidade. Às 23h, já estavam em Assis, na divisa entre Paraná e São Paulo.

A Operação Davi

Foto: Reprodução/Sindicato dos Delegados da Polícia Federal

Com as informações, em 2006, a Polícia Federal deflagrou a Operação Davi, que levou, em novembro de 2006, Gottlieb à cadeia. À época, a empresa foi multada em R$ 100 milhões e toneladas de brinquedos foram apreendidas.

Na ação, foram apreendidas provas que estreitam o elo entre os investigados e o assassinato do auditor.

Com Talarico, foram encontrados cartuchos de balas do mesmo calibre daquelas que atingiram Sevilha. Com seu irmão, um capacete que foi identificado pela vizinha da mãe na cabeça do motoqueiro que teria atirado no auditor.

Também foi apreendida uma faca com resíduo semelhante ao das rodas do carro do auditor, que haviam sido rasgadas.

A PF indiciou o empresário, Talarico, Fernando Rea, Moacyr Macedo, e Wilson Rodrigues da Silva, em 2007. O detalhado relatório do delegado Ronaldo de Góes Carrer parte da cena do crime até o fio da meada que chegou aos suspeitos. Wilson desapareceu sem deixar rastro.

Em 2011, três procuradores da República em Maringá assinaram a denúncia contra eles.

Segundo a Procuradoria, Marcos Gottlieb era o mandante do crime, e Talarico, Fernando e Moacyr foram seus executores. Eles respondem por homicídio qualificado. Em agosto de 2013, o juiz federal de Maringá, Cristiano Aurélio Manfrim pronunciou os acusados a júri popular.

A maior parte dos casos de júri está na Justiça Estadual. Nas Varas Federais, sequer há áreas especializadas para conduzir casos de crimes contra a vida. A Justiça Federal de Maringá tem 26 anos, e o assassinato de Sevilha é o primeiro a ser julgado por um júri federal.

Na instrução processual, Talarico admitiu que dentro da Fiorino que ficava estacionada na Receita era transportada uma moto. A testemunha do estacionamento reconheceu Fernando Rea, Talarico e Wilson. Já a amante do auditor apontou Talarico como sendo o homem que viu perto do hospital no dia do crime.

O dono da Fiorino, Joel Ranea, admitiu ter emprestado seu carro a Talarico. Nos hotéis pelos quais passaram até Maringá, a Polícia descobriu que utilizaram identidades falsas.

Gottlieb assumiu ter contratado Talarico, mas não para pistolagem. Ele disse que queria uma investigação privada sobre uma funcionária da Gemini.

A pronúncia

Juíza cita quebra de sigilo e enriquecimento de Jorge Luís Talarico após execução de Sevilha

Ao pronunciar os réus a júri, no entanto, o juiz constatou que ‘os telefones celulares de Fernando [Rea] Jorge [Luís Talarico] não registraram o uso de quaisquer antenas de telefonia móvel localizadas nas proximidades da empresa Gemini, mas sim o uso daquelas instaladas nas imediações do prédio da Delegacia da Receita Federal em Maringá (ERB instalada à Avenida Duque de Caxias, 264, zona 01, Maringá/PR, por exemplo) e da casa da mãe de Sevilha (como as antenas da Avenida Nildo Ribeiro da Rocha, data 09, quadra 49, e da Avenida Cerro Azul, 572, ambas em Maringá/PR)’.

Segundo o magistrado, também há indícios de Fernando, Jorge e Wilson tiveram ‘evolução patrimonial’, o que pode representar um suposto pagamento pelo assassinato.

Em meio ao processo, o ex-policial Jorge Luís Talarico arrolou, como sua testemunha Belarmino de Ascenção Marta, dono da Sambaíba, viação responsável pelo transporte público na Zona Norte de São Paulo, contratada pela Prefeitura. Ele chegou a dizer que contratava Talarico para serviços de segurança.

Talarico tenta provar que era apenas segurança privado, e não pistoleiro.

Anos depois, em 2006, o ex-policial sequestrou a própria testemunha de defesa. Em outubro de 2016, ele foi preso por participar do sequestro de Belarmino para suposta extorsão de sua família. O crime teria contado com outros quatro partícipes. Eles teriam levado um Rolex, dois celulares e R$ 6 mil.

Dono de empresa de ônibus relata ataque com serra elétrica em cativeiro

Os sequestradores abordaram o empresário no Frango Assado da rodovia Anhanguera, perto de Louveira, no interior de São Paulo, portando distintivos da Polícia, e o enfiaram dentro do carro. Belarmino foi levado a um cativeiro em Parelheiros (Zona Sul), onde os sequestradores chegaram a ligar para seus familiares, exigindo R$ 20 milhões. Relatou à Polícia que chegou a ser ameaçado com uma serra elétrica, quando sentiu ‘pânico imenso’.

Talarico foi preso preventivamente, e morreu na cadeia, em 2018, após ter um infarto.

Gottlieb respondia em liberdade, mas acabou preso em maio de 2019. Para a Justiça, ele tentava se esquivar de notificações no processo, e foi detido no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Sua defesa impetrou habeas corpus, que têm sido negados pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, sediado em Porto Alegre, com jurisdição em Maringá.

Advogados culpam detetives

Em alegações finais no processo, a defesa de Marcos Gottlieb e Fernando Ranea afirma que a Polícia Federal descartou de maneira infundada a hipótese de que os detetives contratados por Mariângela não teriam cometido o crime.

Segundo os advogados, ‘descobriu-se que Rudnei [Afonso] era o chefe dos detetives (fls. 499 dos autos da interceptação), sendo em determinada interceptação a polícia gravou essa pessoa afirmando que seu homem havia matado o fiscal da Receita Federal (fls. 512 da interceptação)’. “Seu homem, conforme apurado, era ADRIANO, vulgo “Negão”. Alcunha de Negão decorria do fato, quase que óbvio, de ser uma pessoa negra e alta. Ora, escuro e alto era o piloto da motocicleta, segundo dito pela única testemunha ocular deste caso”.

“O curioso é que a polícia, ao realizar busca e apreensão na casa do pai dessa pessoa (fls. 514 e 515), logrou encontrar uma moto tipo CG da cor vermelha e um capacete tipo “pinico” na cor preta. Ora Juiz, a moto vista pela testemunha ocular era desse modelo e dessa cor, aliás, o capacete também corresponde ao que ela viu”, afirmam os advogados Santiago André Schunk e Alexandre Castanha.

De acordo com os defensores, os detetives teriam ligações com outros policiais, e poderiam estar extorquindo Sevilha por um segundo caso extraconjugal. Também reafirmaram que Talarico e Ranea foram contratados para fazer uma investigação interna sobre a Gemini. Segundo eles, funcionários narraram, em depoimento, a preocupação de Gottlieb de apurar desvios dentro da empresa.

Já o advogado Tadeu Teixeira Neto afirma que seu cliente, Moacyr, ‘só foi denunciado pelo fato de haver apresentado Marcos à pessoa de Jorge, e pelo fato de que, no fatídico dia do homicídio, foram registradas ligações telefônicas entre um número de celular registrado em seu nome, e o celular de Jorge Talarico’.

“Excelência, o fato do denunciado, na qualidade de funcionário (Auditor) da empresa manter contatos telefônicos eventuais com prestadores de serviço, não pode lhe implicar qualquer presunção ou ilação de ordem criminosa”, afirma.

Família pede condenação do empresário

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil paga os custos processuais para que a viúva de José Antonio Sevilha, acompanhe o processo como assistente de acusação. Ela é representada pelo advogado Odel Mikael Jean Antun.

Segundo o advogado, ‘ainda que se admitisse que Marcos Gottlieb desconfiava’  de uma de suas funcionárias, ‘não é menos inverossímil a alegação de que Talarico e os demais teriam vindo a Maringá para investigá-la’. “Afinal, não fazia o menor sentido que, para investigar Rosinete, os executores permanecessem unicamente nas imediações dos locais onde José Sevilha se encontrava”.

“De fato, no dia 29/09/2005 Jorge Talarico, Fernando Ranea e Wilson Rodrigues não chegaram nem perto das dependências da empresa Gemini, como bem demonstrado pelo rastreamento de seus telefones celulares. Ao contrário, durante todo o tempo estiveram próximos à vítima”, lembra.

Antun ainda ressalta que ‘ao se assinalar em um mapa de Maringá a localização da Gemini, bem como das antenas de telefonia móvel utilizadas pelos celulares de Talarico, Ranea e Wilson no dia 29 de setembro de 2005, percebe-se que a distância entre elas é de tal magnitude que mal podem ser representadas numa mesma imagem’.

Júri dissolvido

Na primeira audiência, em agosto de 2019, seu advogado, Ércio Quaresma, reclamou do ‘improviso’ na sala reservada ao júri e abandonou o local. A defesa de Fernando Ranea seguiu os defensores do empresário. O juiz dissolveu o júri.

“Não havia preparação do juízo para recepcionar as testemunhas. Não havia lugar para colocá-las. Vossa Excelência ia mandá-las para casa, e depois ia recomeçar… isso não existe..”, disse. “O acusado foi levado para o presídio às 6h da manhã. Barbeou-se, vindo a dejetar aqui no banheiro, porque nem lá ele teve como fazer suas necessidades fisiológicas”.

Ércio Quaresma, que assumiu a defesa de Ranea e Gottilieb em plenário, já foi advogado do ex-policial Marcos Aparecido, o bola, e, também já abandonou o plenário do júri naquele caso, que se encerrou com a condenação de seu cliente. Em sua própria página no Youtube, ele divulgou o vídeo em que deixa a sessão de interrogatório do dono da Gemini.

Ao Estado, a Procuradoria afirma esperar que, ‘desta vez, o júri popular do caso chegue ao fim, com a condenação dos denunciados’.

“Ademais, o MPF estuda ação para cobrar dos advogados, que injustificadamente abandonaram o primeiro júri, bem como de seus clientes, todas as despesas da União com o segundo julgamento que foi necessário, repita-se, pelo injustificado abandono””, afirma.

Sevilha presente!

Foto: Acervo Pessoal

Após quase 15 anos, a morte de Sevilha ainda é presente no dia-a-dia de sua família. O aniversário da filha do auditor não é mais comemorado, já que ela nasceu na data que hoje marca o velório do pai.

“Nunca mais comemoramos o aniversário da minha filha. Nunca mais fizemos a feijoada em casa”, diz a viúva, Mariângela, em entrevista ao Estado, numa pausa entre cuidados com a mãe de 80 anos de idade, que sofre de Alzheimer.

“No começo, eu tinha muito ódio. Mas depois de tanto ir à igreja, eu consegui mudar esse ódio. Eu sei que a justiça divina vai acontecer”, conta a viúva, que pede para ser dispensada de testemunhar no júri.

 

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